quinta-feira, 29 de setembro de 2016

A I Grande Guerra e V. N. de Famalicão


Foi apresentado recentemente o número duplo 8/9 (2014-2015) da IV série do "Boletim Cultural" da Câmara Municipal de V. N. de Famalicão. Dividido em quatro capítulos temáticos, a saber, i) "Entre a Monarquia e a I República", ii) "Raízes Históricas", iii) "Património Cultural" e iv "Oposição Democrática", contém colaboração de António Joaquim Pinto da Silva, António José Queiroz, Artur Sá da Costa (assim como também coordenador editorial do mesmo), Filipa Sousa Lopes, Jorge Fernandes Alves, José Manuel Tengarrinha, entre outros. De Amadeu Gonçalves contém "A I Grande Guerra e as suas repercussões em Vila Nova de Famalicão. O Monumento aos Mortos da Grande Guerra".  Ao citar Eduardo Lourenço ("… somos o Édipo da História, ou, por outra, a História é que é realmente a Esfinge. Não é a solução, a resposta, é a questão em si mesma, e nós estamos sempre a ser questionados sem cessar por aquilo que somos, por aquilo que fazemos. A História não é outra coisa que não seja o que fazem os homens. Não há História fora do nosso próprio fazer. A história é a ficção das ficções."), Aniceto Afonso e Carlos Matos Gomes ("… talvez faltem, ainda hoje, as análises dos sentimentos das pessoas, combatentes ou não-combatentes, das ideias dos grupos e colectividades, das famílias, das aldeias, dos povos.") e Norman Stone ("Mas no princípio reinou a ilusão. Em 1914, as tropas partiram saudadas pelas multidões […] Nenhuma guerra começou com tamanha incompreensão da sua natureza […] os exércitos partiram para a guerra com a ilusão de que tudo estaria acabado em breve – «em casa no Natal»."), pretende o autor do mesmo trabalho evocar, ou tentar saber, através da imprensa de V. N. de Famalicão, entre 1914 a 1918, particularmente entre o "Estrela do Minho" e a "Gazeta de Famalicão" de como seria a sociedade famalicense e de como a mesma se movimentou perante a I Grande Guerra. Para além das questões sociais e políticas e da sua movimentação em V. N. de Famalicão (por exemplo a crise das subsistências ou o sidonismo), ler-se-á nesta investigação como é que a sociedade famalicense se  organizou em torno das associações cívicas e sociais, passando pela visão da guerra, pelas actividades culturais e lúdicas, etc. Fica aqui um esquema desse mesmo trabalho

1914
Cultura. Bernardino Machado, Presidente do Ministério, A Questão de Riba d`Ave. O Inquérito do Governo de Bernardino Machado sobre a Lei da Separação da Igreja e do Estado. A Guerra.

1915
Pimentismo. Reorganização Mnárquica. Eleições. A Crise das Subsistências. Incêndio na Casa de Camilo. A Eleição Presidencial. A Guerra. África. Cultura. Exercícios Militares.

1916
Junta Patriótica do Norte. Cruzada das Mulheres Portuguesas. Cruz Vermelha Portuguesa. A Guerra. Bernardino Machado em Vila Nova de Famalicão. A Crise das Subsistências. Futebol. Cultura.

1917
Cultura e Sociedade. A Guerra. A Guerra e a Propaganda. África. Cruz Vermelha Portuguesa. Comissão Promotora Venda da Flor. Crise das Subsistências. Política. A Vitória Monárquica nas Eleições Municipais. Viagem Presidencial e Exílio.

1918
Bernardino Machado e I Exílio. O Sidonismo em Vila Nova de Famalicão. A Crise das Subsistências. "A Sopa dos Pobres". Doenças: Tifo Exantemático, Hidrofobia, Pneumónica, Varíola. A Guerra. Cultura e Sociedade.

"O Monumento aos Mortos da Grande Guerra".


quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Uma Aventura Camiliana entre a Filosofia e a Literatura





Imagem do livro de José Viale Moutinho "Camilo Castelo Branco: memórias fotobiográficas (1825-1890), representando a Igreja do Salvador, em Ribeira de Pena, onde casaram Camilo Castelo Branco e Joaquina Pereira de França.



UMA AVENTURA CAMILIANA ENTRE A FILOSOFIA E A LITERATURA

Por Amadeu Gonçalves

Ao saudoso Mestre e Amigo Dr. Manuel Simões

“… uma cousa chamada «filosofia?, ciência que foi necessário inventar-se, à medida que umas certas virtudes de portas adentro deram em saltar pelas janelas; e voar por aí fora, não sei para onde..." (Camilo, “Amor de Salvação”)

“O romancista é como o estatuário: este, na escultura de um busto decente e modesto de mulher, não se entusiasma copiando os lugares-comuns da natureza. Eu imito o primeiro e o segundo.” (Camilo, “Anátema”)

“A filosofia é mais circunspecta nas suas respostas. O escalpelo do romancista vai mais dentro, e afasta fibra a fibra as camadas de tecidos exteriores de que as turbas se impressionam para os seus juízos sempre errados, empíricos, ou estúpidos.” (Camilo, “Anátema”)

“Não escrevo novelas, nem tragédias, mas gosto de imaginá-las…” (Camilo, “Livro Negro do Padre Dinis: continuação dos Mistérios de Lisboa – II”)



Camilo alquimista? Porventura alquimista da singularidade humana, das essências humanas na sua ontologia existencial e histórica, na configuração linguística. Mais do que um idealista romântico-realista perante o conhecimento da interioridade do humano, Camilo materializa o sensível do mundo e do ser na corporeidade das palavras entre uma mesmidade e uma alteridade do mundo em nós, entre a imaginação e esse auto desdobramento ficcional para o dizer das coisas deste mundo. Possivelmente, quatro grandes tópicos poderão ser abordados nessa viagem entre a Filosofia e a Literatura, em obra ficcional tão profícua: uma fenomenologia do amor (na tipificação mítica de Pigmalião), uma dimensão antropológica (a problemática da felicidade) e uma dimensão teológica (a questão da secularização) e uma dimensão histórica. O que se pretende é resgatar mundos para uma maior compreensão da riqueza textual camiliana. Tal como Camilo nos diz em “As Três Irmãs”: “Falaremos ainda muito, e depois, na eternidade.” A aventura é interminável, impossível, mas possível, e convém abrir novos caminhos interpretativos, no papel ético da Literatura, tal como Camilo o defendia. Neste sentido, evoco aqui Jacinto do Prado Coelho, entre duas viagens programáticas: a primeira, quando, no ano já ido de 1946, no prefácio à 1.ª edição da sua mais do que “Introdução ao Estudo da Novela Camiliana”, afirma que “falta, por exemplo, esta coisa fundamental: estudar a novela de Camilo em si mesma (filosofia da vida, personagens, estrutura, processos), dentro do género «novela» e dum ponto de vista histórico-evolutivo, quer dizer, sem perder de vista a cronologia, ou seja, procurando ver como nasce e cresce e se transforma a novela camiliana.” A segunda, colocando em questão, senão mesmo a impossibilidade de um “inventário de temas” para se procurar a explicação da obra. A crítica de Prado Coelho reflecte aqueles que se preocuparam mais com uma hermenêutica biográfica (salvo, acrescento, algumas excepções). Mas o sentido da “filosofia da vida” na textualidade camiliana esse é o sentido que poucos ainda se aventuraram a explorar, numa viagem entre a Filosofia e a Literatura. Foi, precisamente, Prado Coelho que me inspirou, aqui há uns anos, nessa aventura camiliana, nessa busca de um mundo no qual a ficção camiliana se transfigura. Contudo, sabemos, e Camilo sabia-o bem, tal como Harold Bloom também o sabia: a literatura não é unicamente linguagem. Camilo aproxima-se da metáfora de Nietzsche naquilo que poderá ser a Literatura, como vontade de figuração, isto é, o desejo de ser diferente, o desejo de estar noutro lugar. Não só para suplantar aqueles dois mundos que Eduardo Lourenço soube bem redefinir, o da nossa portugalidade na mutação de meados de oitocentos, entre uma monarquia absoluta que não tinha fim e um liberalismo propenso às invectivas camilianas, mas também como salvação. Melhor, outros exemplos poderia edificar, nas palavras do tio de Ladislau de “O Bem e o Mal”: “Nos livros aprendi a fugir ao mal sem o experimentar.” Mas, a essência do humano em termos filosóficos, e transportada para a ficção, podemos encontrá-la na crítica que Camilo efectua a Espinosa, a propósito da tradução anotada que realiza ao livro “Jesus Christo perante o Seculo ou novos testemunhos das sciencias em abono do Catholicismo”, de Roselly de Lorgues. Um dos únicos, senão mesmo um dos únicos estudos desta relação entre Camilo e Espinosa, devemo-lo ao jesuíta Mário Martins, evidenciando que afinal de contas o então seminarista portuense não desperdiçou assim tanto o seu tempo. Na realidade, nas dez anotações que Camilo então realizou, com aproximações aos mitos escatológicos cristãos, elas poderão ter as seguintes indicações titulares, a saber, i) o materialismo espinosista; ii) imortalidade da alma; iii) corrupção e imoralidade; iv) cosmogonia; v) geologia e dilúvio; vi) naturalismo; vii) do materialismo astrónomo; viii) profecias; ix) analogia, o que terá em análise as últimas consequências do ateísmo. Ateísmo, diga-se, de passagem, que será uma sequência do indiferentismo religioso que Camilo fala na introdução no livro em causa. Surge-nos aqui, na contextualização ficcional camiliana, um tema profícuo: a secularização. Assim sendo, não deixa de ter razão Bigotte Chorão quando nos diz que “houve até quem defendesse que em obra tão quantiosa e temperamental não se encontra uma só ideia – apenas paixões. Opinião mais do que discutível – errada. Decerto que Camilo não é o que se chama um «escritor de ideias, mas seria excessivo considerá-lo desprovido delas, como se as milhares de páginas que escreveu lhe dessem só o estatuto de contador de histórias, onde não houvesse senão amores, e rancores, e humores.” Consciente do tempo em que escreve, tal como nos diz em “Lágrimas Abençoadas”, Camilo explora na sua textualidade várias temáticas. A já falada, a secularização, poderíamos inculcá-la no tema mais geral da Filosofia aqui incorporando igualmente o materialismo de oitocentos na sua relação com as personagens, uma hermenêutica da cultura na sua relação historiográfica (miguelismo, liberais e realistas, sebastianismo, Maria da Fonte, invasões francesas, liberalismo, etc.), a Literatura (entre a intertextualidade e uma meta-literatura) e a sua dimensão ética. Paralelamente, a questão antropológica ou a dimensão teológica no seu diálgo com o racionalismo e o tema genérico a que chamo de uma Fenomenologia do Amor, entre os mitos gregos e cristãos, em busca da felicidade, entre uma ética das virtudes e de expiação. Se existe filosofia na ficção camiliana, nas palavras de Fialho de Almeida, será nesta “falta de fé na felicidade: neste conceito que pôs no seu espírito um tão amargo travor das coisas da existência.” Contudo, Camilo contradiz-se muitas vezes nos seus próprios conceitos, refugiando-se nas personagens enquanto alter-egos. Estas são apenas algumas ideias temáticas para um “Dicionário Camiliano Temático”. Dou o exemplo, como outros poderia dar, desta configuração temática camiliana para uma interioridade textual e, ao mesmo tempo, desconfiguração textual, o caso de “Onde Está a Felicidade”. Estamos perante uma ficção em que a dimensão da Literatura e particularmente a dimensão de uma Fenomenologia do Amor estão bem patente. Veja-se uma vítima do romance, Guilherme de Amaral, relacionando-o Camilo com o mito de Pigmalião, ou a personagem feminina Augusta, relacionando-a com o mito da queda cristão. Enfim, esta trasladação temática entre a Filosofia e a Literatura pode ter os seus riscos, mas não custa nada tentá-la. Camilo merece.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

I Congresso Internacional Camilo - O Homem, O Génio e o Tempo





Congresso Internacional: “Camilo: o homem, o génio e o tempo”
9, 10 e 11 de setembro de 2016
Programa


SEXTA 9
10:00 – Receção aos participantes e entrega de documentação
10:30 – Sessão de abertura
Rui Vaz Alves (Presidente da Câmara Municipal de Ribeira de Pena)
António Fontainhas Fernandes (Reitor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro)
António Ponte (Diretor da Direção Regional da Cultura do Norte)
Fernando Moreira (Membro da Comissão Científica)

11:00– Conferência inaugural | Moderador: Presidente da Câmara Rui Vaz Alves
A Romaria de S. Bartolomeu na narrativa de Camilo
João Ferreira
(Universidade de Brasília)

11:30 – Pausa para café

11:45 – Painel 1| Moderador: Joaquim Pinto da Silva (Orfeu, Centro Cultural, Bruxelas)

Camilo e os escritores do Porto numa carta inédita
Jorge de Oliveira e Sousa[1]
(Universidade de Lovaina, Bélgica)

Deuses e demónio no Minho – Camilo e Teixeira de Queiroz
Paula Teixeira de Queiroz
(Escritora e advogada)
Augusto Alberto da Silva Ferreira e Camilo - do Guichard e da assembleia portuense à correspondência e à génese de uma notável camiliana
Damião Vellozo Ferreira
(Advogado e historiador)

12: 30 – Debate
12:45 – Almoço (livre)
14:30 – Inauguração da exposição Camiliana |Comissariado: Damião Vellozo Ferreira
                Local: Auditório Municipal
15:00 - Painel 2 | Moderador: Emanuel Guimarães (CMRP)

Fundo documental de António Canavarro de Valladares
Ricardo Capela
(Arquivista)

As várias vidas de Camilo
Maria Antónia Oliveira
(Universidade Nova de Lisboa)

Duas vidas e duas histórias
Rosa Méndez Fonte
(Conselheira do Departamento de História do Concelho de Ferrol)

Uma Aventura Camiliana entre a Filosofia e a Literatura
Amadeu Gomes Gonçalves
(Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão)

16:15 – Debate
16:30 – Pausa para café
17:00 – Inauguração da Exposição Camilo e Rosalía de Castro | Comissariado: Paulo Sá Machado
                Local: Casa de Camilo-Friúme
                Visita à Ilha dos Amores - Friúme
18:00 – Fim de atividades



Sábado 10
10:00 – Receção dos participantes

10:30 – Conferência | Moderador: Paulo Sá Machado
Rosalía de Castro: unha escritora e un proxecto veciños de Camilo
Anxo Angueira Viturro
(Fundación Rosalía de Castro – Galiza)
11:00 – Pausa para café
11:15 – Painel 3|Moderador: José Manuel Oliveira (Casa de Camilo – Museu/Centro de Estudos)
Camilo, as mulheres e a Maia
José Augusto Maia Marques
 (Câmara Municipal da Maia/ISMAI)

A correspondência Camilo-Tomaz Ribeiro e Branca de Gonta Colaço
José Valle Figueiredo
(Centro de Estudos Tomaz Ribeiro)

A Primeira Mulher de Camilo, de Alberto Pimentel – minúcias de uma reedição
Joaquim Pinto da Silva
(Orfeu, Centro Cultural, Bruxelas)
12:00 – Debate

12:15 – Apresentação da reedição da obra A Primeira Mulher de Camilo, de Alberto Pimentel, com anúncio do destino da fotografia única de Joaquina Pereira de França, de propriedade de César Romão.
(Edição de Orfeu, Bruxelas) (Joaquim Pinto da Silva| Moderador: Susana Pimenta)
Local: Auditório Municipal
12:45 – Almoço (livre)
14:30 – Conferência| Moderador: Fernando Moreira (UTAD)

Propostas de leitura didática de Maria Moisés de Camilo Castelo Branco
Cândido de Oliveira Martins
(Universidade Católica Portuguesa)

15:00 – Painel 4|Moderador: Fernando Moreira (UTAD)
O processo de escrita camiliano em Novelas do Minho
Carlota Pimenta
(Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa / Centro de Linguística)

Linguagem e estilo em Vinte Horas de Liteira de Camilo Castelo Branco
José Barbosa Machado
 (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro)

Maria Moisés vai à escola: gostar de ler à boleia de Camilo
Joaquim Jorge de Carvalho
(Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra)

Camilo e a educação
João Bartolomeu Rodrigues
(Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro)

16:00 – Debate
16:15 – Pausa para café
16: 30 – Painel 5|Moderador: Orquídea Ribeiro (UTAD/CITCEM)           
A Espada de Alexandre, ou de como se articulam o génio, o homem e o tempo
Ana Luísa Sonsino
 (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)

O tempo do génio
Tânia Moreira
(Centro de Investigação Transdisciplinar “Cultura, Espaço e Memória”)

Camilo e Vila Pouca de Aguiar a partir da obra O esqueleto
Luís Cardoso Teixeira
(Agrupamento de Escolas de Vila Pouca de Aguiar)
Camilo e a crónica de costumes
Daniela Fonseca
(Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro)

17:30 – Debate
17:45 – Fim das atividades

NOITE sábado 10
21:30 – MARIA MOISÉS, de Camilo Castelo Branco| Teatro do Nordeste Filandorra
(com a participação especial de crianças ribeirapenenses)

Domingo 11
10:00 – Receção aos participantes
10:30 – Painel 6 |Moderador: Emanuel Guimarães (CMRP)
Camilo e Junqueiro: para um mapa da amizade
Henrique Manuel Pereira
 (Universidade Católica Portuguesa)

Camilo e Joaquim de Araújo: uma relação de amizade
Maria Amélia Ferreira Peixoto Maia
 (Universidade de Coimbra/Centro de Interuniversitário de Estudos Camonianos)

A originalidade de Camilo, segundo Fernando Pessoa
Nuno Amado
(Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)

Um Orpheu a meio caminho do inferno e da sua libertação: Camilo segundo Agustina Bessa-Luís
Maria do Carmo Cardoso Mendes
(Instituto de Letras e Ciências Humanas da Universidade do Minho)

11:30 – Debate
11:45 – Pausa para café
12:00 – Conferência de encerramento| Moderador: Susana Pimenta (CMRP/UTAD)

Por uma recusa do nacionalismo: reflexões sobre o romance histórico camiliano
Luciene Marie Pavanelo
(Universidade Estadual Paulista/Brasil)

12: 30 - Inauguração do Mural Literário Camilo Castelo Branco, de Daniel Eime
Local: Junto à Biblioteca/Auditório Municipal)

13:00 – V Almoço Camiliano (Local: Sr.ª da Guia/ sob inscrição)
                Inscrições: http://www.cm-rpena.pt/agenda/?id=173
Informações: congressocamilo2016@gmail.com ou 259 490 500

               



[1] Por motivos de saúde do orador,  a intervenção será apresentada por Maria João Alvarez (Orfeu, Bruxelas).


sexta-feira, 25 de setembro de 2015

A Imprensa e a I República em V. N. de Famalicão




Para as comemorações do 105.º Aniversário da Implantação da República em Portugal, a Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão  organiza a exposição “A Imprensa e a I República em V. N. de Famalicão”, dando, assim, um contributo para a valorização e a projecção da História Local. Desta forma, pretendendo dar a conhecer a Comissão Municipal do Partido Republicano Português desde os seus tempos de propaganda até ao poder, a exposição “A Imprensa e a I República em V. N. de Famalicão” pretende também demonstrar as dificuldades pelas quais os republicanos famalicenses passaram até ao 28 de Maio de 1926.
 Numa primeira abordagem, o que convém questionar é se, de facto, o republicanismo em V. N. de Famalicão através da imprensa, na divulgação do seu ideário, teve o seu efeito prático. Na realidade, num primeiro momento, quando Sousa Fernandes em 1909, na inauguração do Centro Republicano Dr. Bernardino Machado, salienta a importância dos centros republicanos como meio de propaganda e de instrução, foca, enquanto instrumentos para tal fim, o jornal, o livro e a conferência. Contudo, pretende-se aqui enunciar cinco áreas concretas à volta da imprensa famalicense, entre o período histórico da última década da monarquia e os anos da I República, a saber: os periódicos republicanos, os periódicos de transição, os periódicos informativos e noticiosos, os periódicos literários e humorísticos e os periódicos associativos. Se no caso dos periódicos republicanos a caminhada teve início de forma simplista com “A Egualdade” (1885), o ideário republicano justifica-se com a “Nova Alvorada” (1891-1903) perante as comemorações das figuras gradas da cultura nacional e internacional (e mesmo locais) e o jornal “O Porvir” (1895-1897, 1906-1907 e 1910-1914), num combate anti-jesuítico e catolicista. Desta forma, primeira conclusão que se pode retirar é da aposta, numa primeira fase, por parte dos republicanos famalicenses, no discurso cultural, face ao discurso político, este já acentuado, numa segunda fase, com “O Porvir”. Face à irregularidade deste jornal, os republicanos evolucionistas de V. N. de Famalicão publicariam o “Desafronta”, com Francisco Maria de Oliveira e Silva, um dissidente da Comissão Municipal do Partido Republicano Português, e, só muito mais tarde, nos anos 20, iria surgir “O Clarão” (1920-1921), o porta-voz do operariado do concelho famalicense, e o semanário republicano “O Democrata” (1922-1923), ambos tendo na frente a figura de António Gonçalves Branco (1891-1972). Como se vê, tal como a nível nacional, as cisões partidárias do Partido Republicano Português tiveram não só influência na constituição de novas comissões municipais, como igualmente na formação dos seus órgãos de imprensa, caso dos evolucionistas e dos radicais. Estes, em 1925, constituíam não só a Comissão Municipal do Partido Republicano Radical, como igualmente o seu órgão de propaganda com o título “O Minhoto”. Por seu turno, e nos periódicos de transição, e já na I República, há, indiscutivelmente um nome que convém reter, o de Joaquim José da Rocha (1874-1930), tipógrafo e o patrão da Tipografia Aliança. De facto, e face à imprensa republicana, desde 1899 que o Partido Regenerador contou com três títulos, tendo sido o de maior longevidade “O Regenerador” (1899-1910), já se realçando no jornal então fundado por Monsenhor Santos Viegas, Joaquim José da Rocha, director e proprietário. Já na parte final da monarquia, os regeneradores famalicenses publicavam mais dois títulos efémeros, nomeadamente o “Notícias de Famalicão” (1910), sendo director Guilherme da Costa e Sá e na administração encontrámos o nome de António Maria Pereira (1878-1953), franquista em 1907, então jovem professor, e o “Novidades de Famalicão” (1910-1912), tendo como director e redactor principal Manuel José Rodrigues, incorporando-se mais tarde, na I República, na comissão municipal do Partido Republicano Liberal. Por outro lado, por parte do Partido Progressista, a comunidade famalicense deparava-se com o jornal “O Famelicense” (1908-1914), destacando-se o nome de José Maria da Graça S. de Sousa Júnior.
Se, em parte, os republicanos famalicenses contavam com o “Estrela do Minho” (1895-1969) de Manuel Pinto de Sousa, o fundador da Tipografia Minerva, como seu editor, proprietário e director, dando uma marca pessoal de político republicano laico e de independência e estando presente do princípio ao fim nas comissões republicanas-democráticas famalicenses, os monárquicos e os conservadores, assim como alguns dissidentes republicanos, particularmente oriundos dos evolucionistas, tiveram em V. N. de Famalicão o seu porta-voz incontestável, Joaquim José da Rocha. Para além de ter sido proprietário do semanário independente “Aptas” (1910), ao lado de Elpídio Brandão Peixoto (director e editor), o mesmo sucedendo com “A Paz” (1910-1911), surge em 1912 com a “Tribuna”, aqui já como editor e proprietário, secundado agora por Abílio Pereira de Araújo como director. Perante a efemeridade destes três títulos, será com a “Gazeta de Famalicão” (1914-1919), denominando-se “semanario monárquico”, e com “A Paz” (1919-1930), designando-se como “semanario conservador independente”, estes dois últimos títulos de maior longevidade, que Joaquim José da Rocha, de uma forma ou de outra, elabora não só o seu percurso ideológico, como igualmente o dos monárquicos e dos conservadores famalicenses, alcançando o seu apogeu com o pimentismo, na vitória das eleições municipais de 1917, no sidonismo e na monarquia do norte, numa constante reivindicação aos valores de uma “pátria” já ida e em constante remodelação.
Ao lado destes periódicos informativos e noticiosos, dos republicanos e de transição, a imprensa em V. N. de Famalicão toma um outro rumo, nomeadamente o literário e o humorístico, sem esquecer, como é óbvio, a cultura sempre presente nas páginas do “Estrela do Minho”, pontificando Camilo Castelo Branco e a Casa de Seide. No primeiro caso, conta-se nos seus corpos directivos e redactoriais personalidades conservadoras, oriundas do monarquismo franquista e de regeneradores, ao lado de uma nova geração que então começava a dar os seus primeiros passos nas lides jornalísticas. Neste último caso, temos o quinzenário humorístico, literário e noticioso “O Sonho” (1915-1916), estando aqui como editor Alexandrino Costa e na direcção o então ainda jovem republicano Alberto Veloso de Araújo, “O Pandilha” (1913-1914) e as três séries de “O Sorriso” (1909, 1912 e 1915), pontificando nomes como Daniel Correia Guimarães, António Maria Pereira, Joaquim Fortunato de Almeida, Alfredo Saraiva Sampaio e o de Francisco Mesquita de Araújo; e se já o “Novidades de Famalicão” em 1911 publica “O Sorriso” em seis números, uma página literária dedicada às damas famalicenses, sendo responsável A. Fontes, tais jornais, diga-se, sem excepção, radicalizam-se numa estética naturalista.
Surgem-nos, finalmente, os periódicos associativos, destacando-se indiscutivelmente “A Lavoura do Minho” (1912-1925), órgão de imprensa da Associação de Agricultura Famalicense, esta criada em 1912 e transformada em Sindicato Agrícola em 1913. No âmbito da ideologia republicana para a defesa e a divulgação da agricultura, destacaram-se nomes como os de Duarte Maria Menezes, Joaquim Moreira Pinto e Guilherme da Costa e Sá (integrou a equipa do jornal regenerador “Novidades de Famalicão”) e, no fim deste jornal, surgiria em Landim “O Guia do Agricultor” (1925-1935), com nomes como os de Abílio Gomes da Costa, Augusto Padrão e António Cândido de Sousa, conservadores.
Com a criação do Orfeão Famalicense (1916), surgiria o título “O Orfeonista” (1916-1917), com nomes como Alexandrino Costa e Mário Lima na administração, redactor-chefe Alberto Veloso de Araújo e tinha uma direcção de propaganda: ao lado dos já nomeados, acrescenta-se os de António Maria Pereira e Carlos Alberto Oliveira.
Paralelamente, o Grupo Desportivo Famalicense, que nascia no ano de 1922, fundava no mesmo ano “Vida e Sport”, sendo seu proprietário e editor Uriel Dias Marques.
Concluindo, se num primeiro momento o ideário republicano se impôs na comunidade famalicense através da imprensa, particularmente pela cultura, num segundo momento é clarividente a projecção conservadora e monárquica, que suplantará a imprensa republicana. Indiscutivelmente, que as consequências serão desastrosas.









sábado, 8 de agosto de 2015

O Centenário da Eleição Presidencial - Bernardino Machado (1915-1917)



Inaugurada a 7 de Agosto, encontra-se no Museu Bernardino Machado (V. N. de Famalicão) a exposição com o título “Bernardino Machado: Centenário da Primeira Presidência”, aberta ao público até ao próximo dia 21 de Setembro de 2015. Eleito a 6 de Agosto de 1915, verificando-se a tomada de posse a 5 de Outubro do mesmo ano, no âmbito do V Aniversário da Implantação da República em Portugal, a exposição “Bernardino Machado: Centenário da Primeira Presidência” é composta por recortes de imprensa, bilhetes-postais, fotografias e de manuscritos de Bernardino Machado. Esta documentação, do espólio particular de Bernardino Machado, à guarda do Museu e do Município de V. N. de Famalicão, compreende a eleição e o acto presidencial, a tomada de posse, as actividades oficiais, as problemáticas da censura à imprensa e a pena de morte, a viagem presidencial, o sidonismo e a nova situação política nacional, a partida de Bernardino Machado para o I Exílio na Estação da Trindade e, finalmente, a referência à discussão no Congresso da República a propósito da renúncia presidencial. Se, num primeiro plano, entre o acto eleitoral e a tomada de posse, numa viagem temporal e numa conjugação estética entre a fotografia e os recortes de imprensa, o viajante à exposição irá encontrar jornais de âmbito local, nacional e internacional, de vários quadrantes políticos; num segundo plano, por seu turno, surge igualmente uma viagem perante as actividades oficiais de Bernardino Machado, enquanto Presidente da República. Nestes casos, temos jornais como “O Povo” (Abrantes), “A Evolução” (Vila Real), “O Liberal” (Castelo Branco), “A Voz da Justiça” (Figueira da Foz), “Estrela do Minho” (V. N. de Famalicão), “República”, “Gazeta da Tarde, “A Época”, “A Folha de Lisboa”, “A Ilustração Portuguesa”, “O Século”, “O Radical”, “A Luta”, entre outros. Num plano internacional, o viajante encontra periódicos como “La Razón”, “Jornal do Brasil”, “The Times”, “O País”, “El Diário”, “El Tiempo”, “El Liberal”, “Ecos do Sul”, “Le Matín”, “Jornal do Recife”, “The African World”, “El Nuevo Diário, “O Imparcial”, “Nuevo Mundo”, abarcando praticamente todos os continentes. Das actividades oficiais de Bernardino Machado destacam-se, poderiam ser outras, a sua presença no lançamento da primeira pedra ao Monumento do Marquês de Pombal; a visita à exposição pedagógica da Escola Oficina n.º 1; à exposição bibliográfica na Biblioteca da Academia das Ciências; à exposição de roupas e agasalhos organizada pelo jornal “O Século”, para serem enviadas aos soldados portugueses; na presença do acto oficial da primeira pedra do Casino do Estoril; a visita à exposição de Sousa Pinto, assim como à de Higino Mendonça, no Salão da Ilustração Portuguesa; a visita à Direcção-Geral dos Trabalhos Geodésicos e Topográficos; à 13.ª exposição da Sociedade Nacional de Belas-Artes; à exposição de frutas de Moreira da Silva & Filhos, no Salão da “Ilustração Portuguesa”; no lançamento da primeira pedra, em Cascais, do regimento de Infantaria 19; a presença no Quartel dos Marinheiros, na cerimónia do juramento da Bandeira, perante 400 voluntários da Armada; a visita à Fábrica de Pólvora, em Chelas, ou a sua presença no acto fundacional da Cruzada das Mulheres Portuguesas, no Palácio de Belém, em 27 de Março de 1916, tendo sido eleita presidente por unanimidade Elzira Dantas Machado, segundo o recorte do “Diário de Notícias”, de 28 de Março do mesmo ano. Uma carta de Bernardino Machado para Afonso Costa, a propósito da aquisição dos navios alemães (com a data de 7 de Março de 1916), entre outros documentos manuscritos e dactilografados (estes com correcções), com referência à censura da imprensa e à pena de morte (temas fracturantes da presidência bernardiniana, assim como situações de crise político-social), assim como folhas volantes e recortes de imprensa, serão outros momentos que o viajante da exposição poderá apreciar e reviver numa documentação única e original.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

A Imprensa Famalicense e a Eleição Presidencial de Bernardino Machado em 6 de Agosto de 1915


Para o Dr. Manuel Sá Marques, esta reportagem da imprensa famalicense quando o avô foi eleito Presidente da República, em 6 de Agosto de 1915.

I

 “Eleição Presidencial”. In Estrela do Minho. Ano 19, n.º 1035 (1 Ago. 1915), p. 2.
Dentre os nomes dos candidatos à Presidência da República, cuja eleição se realizará em sessão conjunta do Congresso no dia 6 do próximo mês de Agosto, de novo se citava ontem com bastante insistência o do sr. Duarte Leite, actual embaixador de Portugal no Rio de Janeiro.


Não pode prever-se, é claro, o resultado da eleição presidencial, que bem pode dar-nos uma surpresa, à última hora; mas pelo que é lógico supor-se, são os nomes do dr. Bernardino Machado e Duarte Leite os que até agora se presume com maiores probabilidades de serem eleitos.

II
·         “Novo Presidente”. In Gazeta de Famalicão. V. N. de Famalicão, Ano 2, n.º 54 (7 Ago. 1915), p. 1.

Está eleito o novo Chefe de Estado Entre todos os que se propunham ao sufrágio, venceu o sr. dr. Bernardino Machado, que já vinha fazendo tirocínio para o lugar desde os tempos da monarquia.
Para nós, a quem o facto nada interessa, pouco importa que tivesse saído eleito Pedro ou Paulo, Sancho ou Martinho, e nem sequer registaríamos o resultado se o caso se nos não prestasse a maravilha para sobre ele bordarmos ligeiras considerações.
Não iremos na corrente dos que despejam sobre o novo Presidente toda a casta de insultos, vendo na sua escolha um perigo para a Pátria, como se o Chefe do Estado, que preside mas não governa, pudesse influir ou modificar a situação política, concorrer para que a República, arrepiando caminho, deixasse o beco sem saída em que se meteu, para entrar na estrada larga do Direito e da Justiça de que se desviou logo ao nascer, como criança que, perdida num deserto, se vê cercada de feras que acabam por a devorar. O povo, numa daquelas sentenças que a lição dos tempos lhe ensinou, costuma dizer, como máxima infalível, que quem torto nasce tal e mal se endireita.
Não salientaremos também a incoerenciados que, não gostando do sr. dr. Bernardino, ajudaram, no entanto, a elegê-lo com o seu voto, só porque essa era a vontade do sr. Afonso Costa, tornado cacique político numa eleição que afinal já nasce com os mesmos defeitos que têm desmoralizado o sistema constitucional, que seria realmente o melhor se os homens o não estragassem. Quando o exemplo vem assim do alto, aparecendo vontades que se impõem, opiniões que se fazem respeitar e homens que para não desobedeceram às ordens dos chefes, para cumprirem os desejos ou os caprichos dos seus senhores, calcam os ditames da sua consciência e vão votar no candidato que mais prejudicial acham aos interesses da nação; quando para a eleição do Chefe de Estado, em que só têm voto os grandes da política, se procede desta maneira, nós queremos que nos digam que juízo podem fazer de tudo isto os pequenos, os que, pelas suas condições de vida ou pela sua pouca cultura não podem ou não sabem afirmar a sua opinião, e se eles amanhã não têm razão para se deixarem ir com quem mais lhes der ou prometer.
E nós podíamos perguntar aqui ao senador local, sr. Sousa Fernandes, se o homem  que agora ajudou com o seu voto a elevar à suprema magistratura do país, não será o mesmo que há um ano, o máximo, o fez quebrar a perna, com que vinha defendendo a República para se refugiar ferido e amuado na qua quinta de Mões.
Mas o resultado da eleição, bom ou mau – os republicanos que o digam – não nos interessa, como não interessa ao país.
Quando muito, pode ser uma festa de família, se não for antes um motivo de novas cisões, de mais lutas, talvez de novas revoluções.
Para os interesses da Pátria, para a paz interna, para a consolidação da República, tanto vale a cordialidade do sr. dr. Bernardino, como valeria o génio de Guerra Junqueiro, a diplomacia de Duarte Leite, a aristocracia de Braamcamp ou a democracia de Correia Barreto.
Se levar até ao fim o seu mandato, não lhe sucedendo como ao sr. Arriaga que o não pode concluir, ao abandonar o lugar, há-de reparar que deixa tudo como dantes, ou mais baralhado do que antes, em política, como em finanças, em ordem como em administração.
Ora, sendo assim, como é, traduzindo a eleição a vontade do país, mas os desejos do sr. Afonso Costa, e não podendo o Chefe de Estado influir na vida política e financeira do país, sempre queríamos que nos dissessem onde está a vantagem de termos um Presidente em vez de um Rei. As desvantagens há-de mostrá-las esta eleição.

III

·         “Presidente da República”. In Estrela do Minho. Ano 19, n.º 1036 (8 Ago. 1915), p. 1.             
Acaba de ser eleito presidente da República Portuguesa o sr. Dr. Bernardino Luís Machado Guimarães, egrégio professor, que à causa da República prestou o mais inteligente esforço.
É o eminente estadista quase nosso conterrâneo, pois em casa de seus pais aqui residiu e passou o melhor tempo da sua mocidade. Por isso Famalicão se orgulha desvanecidamente por ver um seu filho ilustre ascender às culminâncias de primeiro magistrado da nação.
Saudamos o grande cidadão português a quem nos quatro anos futuros estão confiados os destinos da pátria.
Mas não pode negar-se que o país tem disso enormemente prejudicado com as incursões realistas, pelas intentonas, e ainda pelas dissidências deploráveis entre os próprios republicanos.
Por isso nestes cinco anos tem estado entravado o programa da República.
Agora é indispensável que a lição dos factos passados traga a todos os espíritos intuitos de política serena para tratarmos todos do rejuvenescimento do país pelo trabalho.
Tem sido de sobressalto e de incertezas os cinco anos decorridos das instituições republicanas. Explica-se, é certo, o facto. Seria óptimo, que após o advento da República, todos os portugueses esquecessem divergências e se dessem as mãos para a obra pacificadora, iniciando esta […] as grandes reformas económicas que as necessidades da nação reclamam. Todas as revoluções deixam, por muito tempo ainda, os rastos dos dissídios políticos que provocavam o choque revolucionário.
Ao Dr. Bernardino Machado está destinada a honrosa mas difícil missão de pacificar a família portuguesa.
Se o eminente cidadão o não conseguir, conhecidos os seus grandes recursos conciliatórios e diplomáticos, a ninguém, por certo, será dado o prazer de prestar à família portuguesa o mais alto benefício que na hora histórica que atravessamos é lícito ambicionar.
Exigem-no o progresso e felicidade da nação e também o prestígio e consolidação da República.

IV

 “Dr. Bernardino Machado”. In Estrela do Minho. Ano 19, n.º 1037 (15 Ago. 1915), p. 1.
É esperado na sua casa desta vila, em Rorigo, o ilustre Presidente da República eleito sr. dr. Bernardino Machado.
Famalicão orgulha-se com a presença do seu iminente conterrâneo, que em Outubro vai tomar o honroso lugar de Chefe da Nação Portuguesa.
No estrangeiro, como em todo o país a eleição do novo Presidente da República tem disso recebida com agrado.
Segundo consta, no dia em que o sr. dr. Bernardino Machado tomar posse do cargo do Presidente da República, o que será feito com toda a solenidade, no dia 5 de Outubro, haverá parada militar, um grande jantar no palácio de Belém, para o qual será convidado o corpo diplomático, um grande bodo a todas as crianças pobres protegidas pelas juntas de paróquia, e uma tourada nocturna. 

V

   “Dr. Bernardino Machado”. In Estrela do Minho. Ano 19, n.º 1038 (22 Ago. 1915), p. 1.
Honra Famalicão com a sua presença, há alguns dias, o nosso ilustre conterrâneo e prestigioso presidente da República eleito, Sr. Dr. Bernardino Machado.
Tem vindo cumprimentado grande número de pessoas de Lisboa, que andam em excursão pelo Minho, outras do Porto, Braga e de Barcelos.
O sr. Marquês de Palamares, presidente da «Institucion Libre de Enseñanza», escreveu de Santander ao sr. dr. Bernardino Machado, em nome da mesma corporação, uma carta de calorosas felicitações pela sua eleição à presidência da República. Nessa carta lê-se o seguinte:
«Ao felicitar v. ex.ª, felicitamos também o país irmão que soube, em ocasião tão crítica, eleger para o representar quem, como v. ex.ª, reúne as maiores qualidades. Para nós, alunos da «Institucion», recordando sempre e em todos os momentos o nosso amado mestre D. Francisco Giner, a eleição de v. ex.ª para a direcção moral desse país a que ele tanto queria, traz-nos inúmeras recordações e faz-nos pensar no imenso prazer que ele teria sentido ao conhecer este facto.»
O sr. dr. Bernardino Machado também recebeu um telegrama de felicitações do sr dr. Ferreira Botelho, director e proprietário do «Jornal do Comércio» do Rio de Janeiro.

VI



  “Trabalhar… Dr. Bernardino Machado”. In Estrela do Minho. Ano 19, n.º 1038 (27 Ago. 1915), p. 1.
Está em Famalicão há alguns dias, o presidente eleito da República Portuguesa, o que nos apraz registar com desvanecimento.
Em Famalicão brincou a sua mocidade o professor eminente da Universidade de Coimbra, em cuja cátedra conquistou a admiração de nacionais e estrangeiros.
Deputado e ministro da monarquia, o Dr. Bernardino Machado descrente por essa instituição do levantamento do povo português, abraçou o partido republicano, do qual foi um dos apóstolos mais inteligentes e entusiastas, constituindo decisivamente para a implantação da República em 1910.
Fez parte do governo provisório, por ser um dos republicanos mais queridos do povo e todos conhecem a forma inteligente e patriótica como o grande estadista soube fazer reconhecer e respeitar pelas grandes nações a nascente República Portuguesa.
Foi o primeiro embaixador de Portugal na grande nação irmã do outro lado do Atlântico, O Brasil, por ser a mais autêntica figura para o entendimento entre os dois povos da mesma raça.
Quando os partidos, em acesa luta, menos se entendiam, foi o Dr. Bernardino Machado chamado a Lisboa para tomar conta do poder, conseguindo acalmar os dissídios políticos que tanto estavam prejudicando a nação.
Finalmente, na eleição presidencial deste mês, quase por unanimidade de votos é o Sr. Dr. Bernardino Machado eleito Presidente da República, o primeiro magistrado da nação portuguesa.
Felicitando a nação pela acertada escolha dos seus representantes, Famalicão muito se ufana com orgulho, por ser o berço do Sr. Dr. Bernardino Machado.

VII

  “Dr. Bernardino Machado”. In Estrela do Minho. Ano 19, n.º 1039 (29 Ago. 1915), p. 1.
O sr. dr Bernardino Machado, presidente eleito da República, recebeu de sir Artur Hardinge, antigo ministro de Inglaterra em Lisboa e actualmente embaixador em Madrid, a seguinte carta:
«É com uma viva satisfação que recebi a notícia da eleição de v. ex.ª à presidência da República, e peço-lhe que aceite por esta ocasião as minhas cordeais felicitações. Conservarei sempre a mais grata lembrança do acolhimento que v. ex.ª me dispensou logo após a minha chegada como ministro a Lisboa, e das horas tão agradáveis e cheias de interesse que tive o prazer de passar no seio da sua família. Desejo de todo o coração que o belo país onde v. ex.ª acaba de ser chamado a desempenhar a suprema magistratura, e do qual trouxe para sempre uma indelével recordação, goze dias felizes e prósperos e que as relações que há tantos séculos o unem ao meu se vejam cada vez mais estreitas e solidárias.»
O sr. Dr. Bernardino Machado tem continuado a receber felicitações das câmaras municipais de todo o país, tanto do continente como das colónias, além de muitas cartas do estrangeiro.

VIII
·    
 “Presidente da República”. In Estrela do Minho. Ano 19, n.º 1041 (12 Set. 1915), p. 1.
Dizem os jornais que as Câmara Municipais de muitos concelhos do país tencionam ir a Lisboa assistir à posse do eminente estadista eleito para a suprema magistratura do país. / Tudo merece o grande cidadão; e sendo Famalicão a sua terra, a nossa Câmara não deixará também de prestar esta homenagem ao sr. dr. Bernardino Machado, cujas altas qualidades muito honram a nossa terra, onde o iminente cidadão passou o melhor tempo da sua mocidade.

IX

·          “Normalidade”. In Gazeta de Famalicão. V. N. de Famalicão, Ano 2, n.º 62 (2 Out. 1915), p. 1.
Com a subida do sr. dr. Bernardino Machado à presidência da República, parece que tudo se prepara para entrar na normalidade.
O sr. Machado dos Santos regressou do exílio, e o sr. Pimenta de Castro e os seus colegas de ministério preparam-se também, segundo os jornais para entrarem na metrópole.
É uma espécie de amnistia, como aquela que o sr. dr. Bernardino deu aos presos políticos no princípio do governo da cordialidade.
Simplesmente pode suceder como da outra vez: entradas de cordeiro e saídas de… leão.
Vamos a ver. Só o tempo saberá mostrar-nos se o sr. dr. Bernardino será sempre… Bernardino…


X

·         Maria Feyo  – “O Sr. Dr. Bernardino Machado”. In Estrela do Minho. Ano 21, n.º 1044 (3 Out. 1915), p. 1.
Dentro em dois dias, vai assumir o melindroso cargo de chefe do Estado o sr. dr. Bernardino Machado. E ser chefe duma Nação, é o mesmo que investir-se das graves responsabilidades de chefe de uma família numerosa, com todos os deveres de zelar pelas garantias do seu bem-estar moral e material. Não apreciarei o sr. dr. Bernardino Machado através da política. Sou uma revoltada contra todos os efeitos dessa praga desordeira das sociedades. Se em tese concordo que ela é um meio próprio ao funcionamento da constituição social das sociedades de hoje, na prática observo e deploro a sua acção destruidora, armada de mentira e adulação, aviltando caracteres, degradando consciências e incensando ídolos que muitas vezes são os Judas da Pátria e as sanguessugas do povo. É pois somente como chefe de família que me referirei ao futuro chefe da Nação, porque é essa a feição mais simpática e que mais admiro no sr. dr. Bernardino Machado. Muitas vezes tenho tido ocasião de me enternecer diante do espectáculo, que às horas da refeição frugal e precipitada que sua Ex.ª tomava quando Presidente do Conselho, toda a família o rodeava numa efusão de sugestiva ternura. As filhas do sr. dr. Bernardino Machado, que uma graciosidade modesta e simples reveste de atraente e especial encanto, abraçavam e beijavam à porfia, numa tocante expressão de amor, o Pai que, a seu turno, distribuía carícias e carinhosas palavras a esse bando alegre que representa a gentileza da mocidade em flor. Era então que, liberto do contacto dissolvente das paixões políticas, sobressaía a nobre feição do patriarca, e que entre o bafejo imaculado da candura, da bondade e da graça espontânea e juvenil a sua figura de ancião, viril e insinuante, incarnava a mais bela expressão da vida que se condensa no santo e puro amor da família.
Michelet dizia que todos os estadistas, ou dirigentes de uma Nação, deviam ter uma família bem organizada e onde reinasse a paz e a alegria, a delicadeza de sentimentos que exercesse o seu influxo retemperante e suave no carácter do homem em contacto com as asperezas rudes e violentas dos combates políticos.
[…]
A família é afinal o reflexo da sociedade. Mas para que ela seja o que deve ser, é preciso que a mulher seja na família o que tem sido a Esposa do sr. dr. Bernardino Machado. Respeitada e amada como senhora de pensamento e acção, ela tem sido a direcção da casa administrada com o tino e a energia que dispensam seu marido de agravar as fadigas políticas com outros encargos domésticos. Estas circunstâncias deve prender a atenção do chefe de Estado para o grave problema da reabilitação feminina. Napoleão 1.º afirmava que os males da França provinham da falta de educação da mulher, ocasionando a falta de boas mães. Mas não pode haver boas mães enquanto não se pense a sério no papel importante que a mulher tem de exercer na sociedade e se lhe reconheçam e respeitem as qualidades de valor, que não se revelam porque uma desumana repressão a converte em revoltada. Que o chefe do Estado assim o compreenda. E que na atmosfera doce e criadora do amor de família, o seu espírito se ilumine de generosos reflexos para ser dentro de uma obra de concórdia, de bondade e de progresso. Um bom chefe de Estado como tem sido bom chefe de família.

XI

·         “Retalhos. O mais ilustre filho de Famalicão”. In Gazeta de Famalicão. V. N. de Famalicão, Ano 2, n.º 64 (16 Out. 1915), p. 1.

Era assim que a Câmara chamava ao sr. dr. Bernardino Machado, nos convites que fez distribuir para a manifestação de Segunda-Feira.
Quanto a ilustre, que não é propriamente a mesma coisa que ilustrado, não foi ainda resolvido aquele problema que «A Nação» propôs sobre a linhagem de S. Ex.ª nem nos parece que um regime democrático deva preocupar-se com o sangue azul dos seus chefes; quanto a ser filho desta terra, lembrámos à Câmara que S. Ex.ª é tanto nosso conterrâneo como o seu presidente, pois segundo documentos autênticos que os próprios jornais republicanos têm trasladado, o chefe de Estado de Portugal nasceu no Rio de janeiro em 28 de Março de 1851 e, quando foi aluno da Universidade de Coimbra, ainda S. Ex.ª se considerava carioca, tendo nessa qualidade, assinado uma mensagem de congratulação que os estudantes brasileiros entregaram ao monarca do seu país, quando D. Pedro II visitou Coimbra. A não ser que a Câmara queira concluir como a “Estrela do Minho” que S. Ex.ª é nosso conterrâneo porque passou a sua mocidade em Famalicão!
De maneira que o director da “Estrela”, que veio também em rapaz para Famalicão, deixou por esse facto de ser natural de Vilar de Maçada, para passar a ser nosso conterrâneo também!
E ele fala como se realmente o fosse… Ele e o sr. Presidente da Câmara…

XII

·         “Chronicas Sem Arte”. In Gazeta de Famalicão. V. N. de Famalicão, Ano 2, n.º 64 (16 Out. 1915), p. 1.

Tivemos aqui há dias o sr. Presidente da República. Achamos bem que o primeiro passeio dado por S. Ex.ª, depois da sua ascensão aos pináculos presidenciais, fosse a esta terra impropriamente chamada sua, onde tem certamente enraizadas recordações, e saudades dos tempos idos e de pessoas queridas. Não sabemos se Famalicão viu nessa visita uma honra por aí além e se, na pessoa do sr. Bernardino Machado, via ou vê o Messias desejado, capaz de pacificar a família portuguesa, tão dividida, chamando-a à vida operosa e sadia de outrora interessando todos os cidadãos na resolução dos magnes problemas sociais e económicos que nos assoberbam e avassalam.
Não sabemos…
Não vimos, é certo, como outrora, um certo calor de entusiasmo nas manifestações e uma espontaneidade vibrante na expansão do sentimento popular. Pareceu-nos tudo aquilo nimiamente oficial, demasiadamente protocolar, sem alma, sem uma centelha daquela alegria minhota, tão vibrátil, tão ruidosa, tão portuguesa!
Não queremos tirar ilações desta frieza, nem concluir deste quase indiferentismo das massas…
Até a música, de ordinário tão sugestiva, nos quis parecer monótona, sem expressão, como que contrafeita, associando-se a uma festa em que falava a mais essencial condição para o ser, na verdadeira acepção do termo – o entusiasmo popular.
Demo-nos a prescrutar as razões do caso.
Não é o sr. Bernardino Machado a encarnação da cordialidade, a quinta-essência da amabilidade, da doçura, da mais encantadora simplicidade, quase a roçar pela ingenuidade infantil?
Não será S. Ex.ª uma alma cândida de pomba, sem ódios, sem malquerenças, sem pelos no coração?
Merece reparos a sua persistência, a sua quase obsessão, para chegar às eminências da cumeada política e social?
Porque não tem sido alvo de fervorosas e nativas alegrias populares, tanto da nossa gente, tanto da nossa raça, porquê?
Porque, entre o próprio elemento oficial, obrigatório, tem havido, por toda a parte, retraimentos, que são outros tantos protestos, outras tantas picadas na natural vaidade e orgulho do homem, elevado a tais grandezas?
Se os defeitos próprios lhe não alienam simpatias, evidentemente, sem torcer a lógica, alienam-lhas, os que o cercam, os que o inspiram, os que o elegeram, como instrumento das suas ambições, como garantia da sua impunidade, como escudo protector das suas pretensões de mando…
De sorte que é legítimo concluir que a antipatia e frieza com que tem sido recebido o novo Presidente, são um reflexo das antipatias e friezas inspiradas pelos homens que o empoleiraram na estofada cadeira presidencial, que, muitas vezes, lhe parecerá eriçada de espinhos…
Pelo que nos diz respeito, restringindo ao nosso pequeno meio estas considerações, ainda encontramos um motivo, a mais, para tal frieza.
Quando um amigo nosso, um cavalheiro geralmente estimado, um negociante honrado, um filho de Famalicão, se encontra preso como conspirador, simplesmente porque não sacrifica ao seu ideal o comodismo egoísta de tantos, que rastejam no sabujismo das adulações mais abjectas, havíamos nós de associar-nos a festas em honra daqueles que o perseguem, que o vexam, que o prejudicam nos seus interesses, e ainda mais nos seus carinhos, nos seus afectos de pai amantíssimo?
Lamentamos apenas que esse movimento de solidariedade na dor e na perseguição não fosse mais geral, não fosse absoluto.
Nem podemos perceber com os que associassem a tais festas colectividades de que aquele perseguido faz parte, como membro prestante, como auxiliar valioso!
Sinais dos tempos!