quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Os 110 Anos de Cinema em V. N. de Famalicão (4 de janeiro de 1908)


“… o cinema, como espectáculo assentara arraiais em Portugal. E desde logo conquistou não só um público popular, que no animatógrafo encontrava entretenimento barato, variado e acessível, mas também a burguesia e certos sectores intelectuais, que não desdenharam da novidade.”

Alves Costa, “Breve História do Cinema Português (1896-1962), 1978.

Campo Mousinho de Albuquerque: atrás da Igreja de Santo António, reconhece-se o velho barracão onde funcionou o Salão de Cinema do “Pathé”. (Bilhete-Postal do espólio do autor).



Projecto que me tem acalentado há já alguns anos até hoje tem sido aquele que chamei de “Em Busca de uma Identidade”, cujos primeiros tópicos podem ser lidos no livro “Portas da História – I” (V. N. de Famalicão: Câmara Municipal, 2015). Este projecto cultural sobre V. N. de Famalicão que engloba o teatro (cujo trabalho de investigação sairá no próximo “Boletim Cultural” do Município Famalicense, particularmente entre 1900 até 1926), o cinema, festas e espectáculos, as conferências e o tecido associativo famalicense. De qualquer maneira, estes trabalhos levam-me àquela ideia de Henry James quando nos fala do «espírito do lugar», ou ainda aquela denominação de Gadamer a propósito do «fenómeno de pertença»: pertença a um lugar para este ser desvendado nas suas múltiplas facetas, comportamentos, gostos culturais da sociedade famalicense ou o comportamento político (ver, por exemplo, o meu trabalho este ano publicado “Os Partidos Políticos e a I República: o caso de V. N. de Famalicão (1895-1926)”. Todos estes parâmetros de que falo, e após a sua publicação, serão pistas para novos trabalhos para que a investigação histórica não pare nas suas múltiplas facetas e que os permita ser uma espécie de cenógrafo histórico, não como revisionista histórico, mas que esta cenografia histórica permita ser, nas palavras de Paul Veyne, lida como um verdadeiro romance, diga-se, a reconfiguração daquilo que ela é (uma ciência do social e do humano) da comunidade famalicense e para permitir compreender aquilo que somos.
Desta forma, e no caso que hoje aqui me traz, a aventura cinematográfica em V. N. de Famalicão, ela tem início logo no ano de 1908, apesar de não termos conhecimento do seu programa. Efectivamente, sabemos pelo jornal famalicense “O Regenerador”, em 4 de janeiro de 1908, que “realiza-se hoje no nosso teatro a primeira das 8 sessões de cinematógrafo, anunciada para o dia 2 e que por motivos de força maior não pode ter lugar nesse dia. / Como dissemos, e segundo nos informam, o aparelho é muito perfeito e traz fitas magníficas, provocadoras de gargalhadas, sem ofender os costumes. / O preço de entrada é módico, pois que há para todos os paladares e para todas as bolsas – Camarotes 600 e 500 réis, plateia 100 réis e galeria 50 réis. / Ao Pathé!”, confirmando no número seguinte, a 11 de Janeiro, a realização das 8 sessões: “Começou efectivamente a exibir-se no nosso teatro no último sábado uma excelente máquina Pathé, apresentando fitas muito variadas, e algumas de muito bom efeito. / Não podemos dizer que a nitidez do trabalho seja um non plus ultra, atendendo principalmente à falta de luz eléctrica. / As sessões têm agradado geralmente, a exemplo de pequenos senões que nem vale a pena esmiuçar. / Porque, afinal, a beleza sem senão é atributo que se não encontra nas coisas criadas…”




“Anymatographo Avenida”, no edifício que viria a ser da Typographia Minerva, na Avenida Barão de Trovisqueira (Imagem do autor, retirada da imprensa).


Em 24 de Novembro de 1912 será inaugurado o “Anymatographo Avenida”, de Artur Garcia de Carvalho e António Dias Costa, o futuro edifício que será da Typographia Minerva, uma sala com capacidades para mil espectadores. Veja-se o entusiasmo com que foi oticiado a sua inauguração, com a informação do programa cinematográfico; “Como dissemos, é hoje inaugurado o novo Animatografo Avenida, provisoriamente instalado no amplo salão para as novas oficinas da «Tipografia Minerva», na Avenida Trovisqueira, ainda em construção. / O aparelho adquirido é novo e do sistema mais perfeito no género. As fitas são escolhidas por um artista, o que tudo produzirá um conjunto de espectáculo como não se exibe melhor nas grandes cidades. / O programa de hoje é o seguinte: “Cascatas do Niágara”, natural colorida; “Nick Ynter e o Correio”, comédia; “Sapateiro Financeiro”, cómica; “Manobras Navais Italianas”, natural; “Riqueza Mal Adquirida”; 1.ª parte de “O Barco da Morte”; “Riqueza Mal Adquirida”, 2.ª parte de “O Barco da Morte”; “Botas de Kimba”, cómica; “Um prego num Sapato”, cómica. E como em Famalicão nenhuma distracção existe no momento, é de crer que a concorrência seja numerosa àqueles espectáculos, o que encorajará também os seus iniciadores a melhorarem constantemente pela variedade e perfeição, os espectáculos do Animatógrafo Avenida.” (“Estrela do Minho”, de 24 de Novembro).



O “Olympia”, na esquina da Rua Alves Roçadas (imagem do autor).


Estas mesmas personalidades famalicenses seriam os fundadores do “Olympia”, o qual já funcionava em finais de Julho e princípios de Agosto de 1913 com a denominação “Animatografo-Campo Mousinho”, para se efectivar a sua inauguração em 23 de Novembro. Álvaro Carneiro Bezerra aparece como proprietário em 1916, tendo como sócio, segundo informação da imprensa famalicense da época, Luís Terroso, surgindo em Maio de 1919 a explorá-lo a Empresa Cine Doret, retomando novamente Bezerra a exploração económica do Olympia em finais do mesmo ano. Um dos sucessos do “Olympia” foi o filme “Quo Vadis”, rodado em 8 de Janeiro de 1914, de Enrico Guazzoni. O jornal famalicense “Desafronta”, em 1 de Novembro de 1913 foi o primeiro a noticiar a sua vinda nos seguintes termos: “O facto de saber-se que a empresa cinematográfica desta Vila tenciona apresentar brevemente no seu salão, ao Campo Mouzinho, a assombrosa película “Quo Vadis”, tão admirada em todo o mundo, volta a ser lido com interesse o romance de Henryck Sienkiewicz, tradução de Eduardo de Noronha, que há questão de uma dúzia de anos causou também um sucesso extraordinário no nosso meio literário. / Todos querem avivar descrições e recordar paisagens, para com mais interesse puderem acompanhar o decorrer da fita, tão importante, que o seu aluguer, apenas para duas sessões, custa aos empresários nada menos do que 300 escudos.” A 3 de Janeiro, o mesmo jornal anuncia a “sensacional fita” e que “tanta gente aí espera com ansiedade” comentando que ela é “a mais assombrosa película até hoje exibida em todo o mundo. Em 10 de Janeiro de 1914, o “Desafronta” noticia a reacção famalicense: ““Com quatro sessões, foi exibida na Quarta-Feira, no Salão Olímpia, ao Campo da Feira, esta aparatosa e importante fita cinematográfica que despertou, como era de esperar, grande interesse entre as pessoas ilustradas da terra. / A fita dá bem ideia do belo romance do brilhante escritor polaco e é uma criação admirável da cinematografia, embora não fosse possível à empresa que, com assombrosos sacrifícios, se arrojou a confeccioná-la, salientar todas as passagens importantes da extraordinária obra. / No elegante e confortável salão continuam a haver sessões todos os Domingos, com fitas escolhidas, e pelos antigos preços, que a empresa foi obrigada a alterar nas sessões de Quarta-Feira, atento o aluguer elevado que teve de pagar pelo “Quo vadis?” Nada como dar uma espreitadela no sítio http://www.harpodeon.com/ para se visualizar fragmentos de “Quo Vadis” que assombrou Famalicão em 1914.
Por seu turno, em Maio de 1934 o “Olympia” terá um novo proprietário, Manuel Caetano da Silva, ficando até ao final do ano, solicitando ainda a Armindo Pereira sociedade para a exploração cinematográfica. Será só em Outubro de 1936, não havendo cinema desde Janeiro, que V. N. de Famalicão terá de novo projecções cinematográficas, quando, uma vez mais, Álvaro Carneiro Bezerra e Vasco Simões ficarão com o “Olympia” até Abril de 1962. O último filme será “O Dinheiro dos Pobres”, tendo sido exibido em 29 de Abril desse mesmo ano.


Imagem do autor. Retirada da imprensa.


Inaugurando o “Sonoro” em Janeiro de 1931, o “Olympia” teve os seus concorrentes: o primeiro, foi o Cine-Teatro Pathé-Baby (1925-1927) da Associação Vinte Amigos Flor de Famalicão (Senra, Calendário) e a segunda com a inauguração do Teatro Narciso Ferreira (Riba d`Ave), em 1943, com o filme “Fátima, Terra de Fé”.
Paralelamente, e timidamente, para além da época normal da acitividade cinematográfica, a época de Inverno, foram surgindo as primeiras projecções fílmicas na época de Verão, ao ar livre. Aconteceu em 1935, suma sessão organizada por um Grupo de Amigos dos Bombeiros Voluntários, o Campo da Feira; em 1936, pelo mesmo Grupo, na Avenida República e em 1937 também tivemos de novo cinema ao ar livre na esplanada do Barreiro. Sem polémica, o “Olympia” fecharia as suas portas, para logo de seguida, com pompa e circunstância, ser inaugurado o “Famalicense Cine-Teatro”. Mas isso é outra história, assim como os próximos 50 anos do Cine-Clube do FAC (1968-1972), enquanto actividade cultural alternativa no regime do Estado Novo, e, mais bem perto de nós, a Lusomundo no Shoping Town, a sala então denominada New Line Cinemas, o “Cinema City-Famalicão” (chegou a funcionar no Centro Comercial E. Leclerc), o FAMAFEST-Festival Internacional de Cinema e Vídeo de Famalicão e o Cine-Clube de Joane.


Imagem do autor. Retirada da imprensa.

sábado, 7 de outubro de 2017

As "Portas da História"


AS “PORTAS DA HISTÓRIA”
OS CAMINHOS DA NOVA HISTORIOGRAFIA






É tempo de rasgar horizontes. Fernando Rosas, na última lição que proferiu na Universidade Nova de Lisboa (“História e Memória: “Última Lição” de Fernando Rosas”. Lisboa: Tintas-da-China, 2016), convoca-nos a uma reflexão sobre o papel da Memória na História. Alerta-nos para três paradigmas problemáticos e desconfiguradores da memória historiográfica nesta sociedade neo-liberal conservadora. A primeira desconfiguração da Memória é a desmemória, cujo processo que encarna o pensamento conservador contemporâneo na sua reivindicação ideológica. Este primeiro paradigma da desconfiguração da memória constrói-se de “silêncios” e de “omissões”, baseado num “amoralismo intelectual” e de ignorância sitémica., existindo assim há volta da memória um silêncio organizado nas instituições na efectivação da História. O segundo paradigma da desvirtualização da Memória é a convocação da memória como “farsa”, isto ´r, a teatralização da memória no espaço público. Mais do que uma espécie de “literatura de cordel”, protagonizada, em parte, pelos meios de comunicação social, , existem fenómenos culturais cuja projecção pública desvirtuam o seu real significado, porque depois não aplicados. Finalmente, o terceiro paradigma da desvirtualização da Memória, o “revisionismo historiográfico”, o qual “opina muito”, mas “investiga pouco”, tendo como consequência inevitável a manipulação da própria Memória, ficando suspenso o discurso crítico historiográfico. Destes três paradigmas da desvirtualização da Memória para a efectivação de um discurso historiográfico crítico, vários são os exemplos que poderia citar (e não é preciso ir muito longe, dentro de portas também os temos): pelo que se tem feito em volta de algumas personalidades, com excepções há regra; na falta de um discurso historiográfico crítico, muitas vezes incoerente, tipo corta e cola; no caso de algumas instituições deixarem passar em branco praticamente as comemorações centenárias; por um discurso historiográfico de ignorância histórica, elaborado em algumas circunstâncias via Dr. Google, com indicações bibliográficas incoerentes, o que daqui se supõe a falta de honestidade intelectual e pelos plágios constantes.

Vêm estas reflexões a propósito da publicação dos dois volumes das “Portas da História”, as quais foram apresentadas no Dia do Município de V. N. de Famalicão. Projecto editorial do Presidente do Município famalicense na última vereação, Dr. Paulo Cunha (recentemente eleito nas eleições autárquicas do dia 1 de Outubro), teve a virtualidade de trazer para a Praça Pública não só as comemorações do Dia do Município, na sua segunda efectivação, como igualmente as “Portas da História”, as quais significam a maturidade historiográfica (o mesmo acontecendo em 2005 com a “História de Famalicão”). Se ambas as histórias, conforme o afirmou Artur Sá da Costa na apresentação das “Portas da História”, se complementam, mais do que um discurso ideológico, elas são a reivindicação de uma identidade historiográfica multidisciplinar, manifestando-se contra aqueles que ainda possam acreditar que Famalicão é uma “Terra sem História”, esta mitificação desconfiguradora da memória que tem os seus perigos. Sim, é tempo de rasgar horizontes nas instituições culturais famalicenses (colocando aqui um papel primordial na rede de Museus), com projectos mais ambiciosos entre o local numa glocalização (a exemplo, com o Eixo Atlântico). Mais do que apresentar projectos públicos como dados adquiridos (a tal teatralização da Memória) é tempo de rasgar horizontes para uma identificação do território famalicense além fronteiras.



quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Nos 150 anos de Manuel da Silva Mendes

MANUEL DA SILVA MENDES
 (1867-1931):
OS 150 ANOS DE NASCIMENTO
ENTRE O ANARQUISMO E O TAOÍSMO

Filósofo, político e pedagogo português. Quando nasceu em S. Miguel das Aves (23/10/1867), esta freguesia pertencia ao concelho de V. N. de Famalicão, e com a reforma administrativa de de 23 de Junho de 1879 pasa a integrar o concelho de Santo Tirso. Realça-se, indiscutivelmente, no plano filosófico, o divulgador das ideias do socialismo libertário ou anarquismo nos finais dos século XIX com a obra Socialismo Libertário ou Anarquismo: história e doutrina.
Tirou o curso de Direito na Faculdade da Universidade de Coimbra, termiando o mesmo em 1895, casando nesta mesma cidade com Helena Berta Augusta Danke no dia 6 de Abril de 1901, perceptora dos filhos de Bernardino Machado. Exerceu a advocacia em V. N. de Famalicão e, nesta fase, publica, em 1896, Reflexões Jurídicas: acção de processo ordinário: contrato de empreitada.
No plano cívico-social, em V. N. de Famalicão, chegou a ser Presidente da Direcção da Real Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de V. N. de Famalicão (1898), dinamizando a Banda Musical da mesma instituição social; participa activamente nas campanhas do Partido Republicano; é amigo dos principais elementos do Partido Regenerador, caso de Santos Viegas, e do Barão de Trovisqueira, do Partido Progressista, tecendo-lhes, aliás, rasgados elogios públicos e colabora na imprensa famalicense, nomeadamente i) O Porvir, ii) O Minho e o iii) Regenerador. A colaboração no primeiro cingiu-se a quarto textos: i) Reformas, Aposentações, Direitos Adquiridos, ii) A Dissolução da Banda dos Bombeiros Voluntários, iii) Creta e iv) Canovas del Castillo. Enquanto que o primeiro é notável pela profecia que evoca perante a reforma da Administração Pública, nomeadamente no combate contemporâneo dos direitos adquiridos, os quais foram, na sua acepção, uma ideia do estado liberal e da burocracia, dos funcionários do Estado, o segundo fala-nos, tal como o próprio título o indica, da decisão da direcção da Associação dos Bombeiros Voluntários ter dissolvido a respectiva Banda, a qual faz parte dos estatutos da mesma instituição, defende a alteração dos mesmos. Por seu turno, evoca-nos o terceiro o conflito entre a Grécia e a Turquia, pretendendo a primeira nação a ilha de Creta na posse da segunda, e do papel das potência europeias que, entretanto, se envolvem no conflito. Finalmente, o último pode ter já incidências filosófico-políticas, já que assinala a confusão que a imprensa da época efectuava entre os falsos e os verdadeiros libertários. No segundo, publica um elogio ao Barão da Trovisqueira, o self mand-man famalicense, e efectua uma recensção ao livro de Eduardo de Carvalho com o título Formas do regime Matrimonial: da eeparação de bens e simples comunhão de adquiridos. Finalmente, no último, efectua uma outra apologia, desta vez a Santos Viegas, ao lado de nomes como Augusto Monteiro; Delfim de Carvalho, Pinto Novais, Abade de Avidos, A. Dias Costa, entre outros (personalidades ligadas ao Partido Regenerador) e escreve um texto intitulado A Questão da China, assinando simplesmente com as iniciais S. M., comentando a guerra que os chineses tinham desencadeado com os «diabos» estrangeiros, sendo assim que então os orientais designavam os europeus que então lá se encontravam estabelecidos. Ainda escreve um monólogo, entre a opereta e a comédia, para o Grupo Dramático Visconde de Gemunde (1898), participando na Tuna Famalicense (1900), sob a regência de Daniel Correia.
Considerado pelos seus inimigos políticos famalicenses como sendo o mais “ateu”, o mais “anarquista”, o mais “vermelho” dos republicanos de V. N. de Famalicão (tal como ele nos conta no seu texto de memória Macau: impressões e recordações, com uma edição em 1979 e republicado na Antologia dos Autores Famalicenses, em 1998), enquanto que nas suas palavras se cognomina como “republicaneiro” do que propriamente um “republicano”, o seu livro Socialismo Libertário ou Anarquismo (1896), foi considerado por Sampaio Bruno como um “livro notável”, ou, ainda, mais recentemente, como é o caso de João Freire (que prefacia a reedição facsimilada da obra em 2006): “a obra de Silva Mendes tem uma informação e um tratamento mais alargado no plano histórico e ideológico” do que Eltzbacher com o título As Doutrinas Anarquistas (1908), aproximando-se do socialismo utópico quando afirma que “é uma utopia formidável ou uma fatalidade social”, ou então quando nos fala da sua obra nos seguintes termos: “nem defende, nem aconselha, nem aplaude, nem provoca, expõe. E quem pretende, simplesmente expor, fica bem atrás da tela.” O que poderia ser uma defesa relativamente à então Lei de 13 de Fevereiro de 1896 contra qualquer actividade anarquista, ameaçando os seus autores com a deportação, revela uma indignação moral, como foi a chamada de atenção na recensão da obra que Sousa Fernandes efectuou. Aliás, ao longo do livro, Mendes simpatiza-se com Fourier e Bakounine, elogia Proudhon e mantém com Marx uma postura de recusa e de aproximação, clarificando o ideal do anarquismo individualista. Nesta perspectiva, não será em vão que traduz, em 1898, o poema de Schiller Guilherme Tell, personagem em que revê o individualismo anárquico-metafísico, o qual lhe irá abrir caminho para o taoísmo. Será, precisamente, o livro Socialismo Libertário ou Anarquismo que lhe irá trazer alguns dissabores perante a elite famalicense conservadora.
Foi leccionar para o Liceu de Macau (através da influência de Santos Viegas) em 1901, no qual exerceu o cargo de Reitor-Interino por duas vezes (1904-1907 e 1909-1914), leccionando português e latim, tendo como colegas de docência Camilo Pessanha e Wenceslau de Morais. Para além da docência, exerceu a advocacia, tendo sido Juiz de Direito e do Procurador da República. Para além deste âmbito, teve uma actividade cívico-social e político-cultural de destaque, tendo sido Presidente do Leal Senado e Administrador do Concelho, é conhecido como um reputado sinólogo (um colecionador notável da arte chinesa). Aliás, convém salientar, senão mesmo destacar, que o Museu Luís de Camões, em Macau, foi constituído com base no seu espólio particular, o qual foi então adquirido pelo Estado português. Como tal, foram publicados postumamente os seus estudos Barros de Kuang Tung (1967) e Arte Chinesa: colectânea de artigos (1983).
Manteve uma colaboração notável na imprensa macaense, nomeadamente Vida Nova, O Macaense, O Progresso, A Pátria, O Jornal de Macau, A Voz de Macau, assim como também nas revistas Oriente e Revista de Macau. A sua colaboração na imprensa macaense foi reunida em sete volumes por Luís Gonzaga Gomes: Colectânea de Artigos (1949-1950) e Nova Colectânea de Artigos (1963-1964).
Em alguns autores existe a teorização de que não há continuidade no seu pensamento após a sua ida para Macau. Antes pelo contrário: a radicalização do individualismo ético-social do socialismo utópico (a liberdade natural) vai encontrá-la na Filosofia Oriental, mais propriamente no Taoísmo. Estas ideias vão ser detectadas em textos como Lao-Tzé e a sua Doutrina segundo o Tao-te-King (1908) e no famoso Excertos de Filosofia Taoista (1930) ou mais recentemente Sobre Filosofia, uma edição organizada por António Aresta, com uma introdução do mesmo.
No campo pedagógico, pressupõe Mendes uma reorganização do ensino em Macau, tal como o demonstra nos textos seleccionados para o livro Introdução Pública em Macau (1996), numa organização e com uma introdução de Aresta, o qual nos diz que “estamos perante um pensamento pedagógico, que nunca encontrou terreno para uma discussão aberta”, tendo sido “o primeiro grande subsídio para a compreensão global do fenómeno educativo de Macau. Nestes  textos, temops questões de educação e ensino, nos quais temos projectos de reforma, assuntos vários relacionados com o Liceu e o curso comercial, o estado do ensino em Macau, o ensino moral e a co-educação liceal.”




Bibliografia
Amadeu Gonçalves – Manuel da Silva Mendes: com Vila Nova de Famalicão e em Macau: o anarquismo e a filosofia oriental, 2007: Antologia de Autores Famalicenses,  1998; António Aresta – Manuel da Silva Mendes e a Poética do Taoísmo, 1990; Manuel da Silva Mendes: historiador do Socialismo libertário, 1991; Manuel da Silva Mendes, Professor e Homem de Cultura, 2002; António Pedro Mesquita – Republicanos e Socialistas, 2002; Biografia de Autores Famalicenses, 1998; Carlos Miguel Botão Alves, Silva Mendes e o Taoísmo, 1991; Dicionário Cronológico de Autores Portugueses – III, 1997; Dicionário de Educadores Portugueses, 2003; Isabel Nunes, Museu Luís de Camões: a sua criação, 1991; Manuel Teixeira – Liceu de Macau, 1986; Pedro da Silveira, Silva Mendes: notícias biobibliográficas, 1966; Sampaio Bruno, O Brasil Mental, Porto, 1997; Vanessa Sérgio, Manuel da Silva Mendes, entre fascínio e sortilégio, 2009; Vasco César de Carvalho, Aspectos de Vila Nova: a justiça, 2005; Victor de Sá, Um Anarquista Famalicense em 1896: Manuel da Silva Memdes, 2005.

PROJECTO EM CURSO

“Dicionário de Literatura e Cultura Famalicense: século XVI – século XX”
Amadeu Gonçalves

domingo, 23 de julho de 2017

António José da Silva Pereira, O Cidadão


ANTÓNIO JOSÉ DA SILVA PEREIRA (Fânzeres, Gondomar, 24/01/1864-Bairro, V. N. de Famalicão, 19/12/1941), O CIDADÃO
Uma Viagem Pela Imprensa

Por Amadeu Gonçalves


“A minha felicidade é feita pelo bem que distribuo.”
António José da Silva Pereira, entrevista ao jornal “A Voz”, de 1 de Maio de 1938.

 Amadeu Gonçalves, José Leite (Junta de Freguesia de Bairro), Prof.ª Maria de Fátima Castro
Foto Rui Pereira

Hoje é dia de Festa. Foi dia de festa, precisamente, há 85 anos, neste mesmo local, hoje sede da Junta de Freguesia de Bairro, na qual foi inaugurada a Creche-Maternidade e, em frente, com a colocação da primeira pedra, as célebres escolas do sexo masculino e feminino, ambas as instituições patrocinadas por António José da Silva Pereira, precisamente em 24 de Janeiro de 1932. Do respectivo programa constava o seguinte:

Às 10 Horas – Missa na Paroquial de Bairro, mandada celebrar pelo pessoal da fábrica, em acção de graças pelo sr. Silva Pereira.
Às 11 Horas – Bodo aos Pobres da Freguesia
Às 12 Horas – Almoço Íntimo.
Às 14 Horas – Lançamento da 1.ª Pedra para dois edifícios escolares, seguindo-se a inauguração solene da Creche-Maternidade e um «Porto de Honra» aos convidados.

O local encontra-se caprichosamente ornamentado e duas Bandas far-se-ão ouvir. Haverá também várias sessões de fogo.

Estiveram presentes as mais altas individualidades da época, nomeadamente o Presidente do Conselho, o general Domingos de Oliveira, amigo pessoal de Silva Pereira, assim como O Ministro do Comércio, João Antunes Guimarães, com uma carga forte de presença de militares. Não é de estranhar. Estávamos na fase plena da ditadura militar. O Município de V. N. de Famalicão não ficou indiferente à vinda do então Presidente do Conselho e este foi recebido em festa, antes de se dirigir para Bairro:
“Assim, às 15 horas, e a convite da Câmara, encontravam-se na estação do caminho-de-ferro, as corporações e individualidades locais, bombeiros, escuteiros, autoridades civis e judiciais, funcionalismo, componentes das comissões administrativas das juntas de freguesia, regedores, clero, etc. / Quando o comboio entrou nas agulhas, ouviu-se uma girândola de foguetes, enquanto uma banda executava a «Portuguesa». / Ergueram vivas à Ditadura, ao presidente do Governo, ao Dr. Oliveira Salazar, ao general Carmona, à Pátria, sendo a República também aclamada. / No Largo Heróis de Monsanto organizou-se então um cortejo em direcção aos paços do Concelho, onde foram das as boas-vindas ao Sr. general Domingos de Oliveira e onde s. ex.ª foi novamente alvo das homenagens dos representantes de Famalicão.” (“Estrela do Minho”, 24 Janeiro 1932).


 "O Primeiro de Janeiro" (25 de Janeiro 1932)


O programa, segundo a imprensa da época, local, regional e nacional, foi cumprido à risca. Do que não estava anunciado, foi, segundo informação do “Estrela do Minho”, em 31 de Janeiro de 1932, o voo sobre Bairro do “avião militar da Amadora, o n.º 12, tripulado pelo Tenente Sr. Sarmento Pimentel, que desceu até junto aos telhados, lançando de bordo, uma saudação ao sr. Silva Pereira.” Houve muitos discursos no acto da colocação da primeira pedra das escolas, assim como na inauguração da Creche-Maternidade, instalada “num edifício amplo, de linhas elegantes, onde a luz entra a jorros alegrando os aposentos confortáveis e asseados.“ Continha então duas enfermarias “com todos os requisitos de higiene e várias dependências convenientemente instaladas para assistência clínica e cirúrgica.” (“Estrela do Minho”, 31 Janeiro 1932). Estiveram presentes, para além das associações famalicenses, caso da Associação Comercial e Industrial, a União Artística Vila Realense e a Corporação dos Bombeiros Voluntários do Porto. O auditório, nos vários discursos que se proferiram, ouviram ainda algo do género e tão estranho: ”A bondade dentro de um estado forte e nunca com o terror e a perseguição de um estado fraco.” As escolas seriam inauguradas em 24 de Janeiro de 1933, com a presença do amigo de sempre, General Domingos de Oliveira.





Mas como seria Bairro antes da vinda de Silva Pereira? Segundo o “Jornal de Notícias”, de 25 de Agosto de 1929, reportagem à qual voltarei, “uma terra que há bem poucos anos estava coberta de pinheiros e matos, e que hoje se encontra transformada numa cidade dentro muros com um belo estabelecimento fabril”. Rebelo Mesquita, com o seu pseudónimo Óscar Flecha, também nos dá um retracto singular, melancólico e poético de Bairro. Veja-se:

“Quando chegámos ao Monte de Laçocos e nos pusemos a olhar por aquela estrada larga que vai até lá, ao fundo, à estação do caminho-de-ferro – começamos a pensar o que era em tempos, há talvez uma dezena de anos – aquela freguesia hoje próspera e linda, industrial e comercial. / Não iremos longe de verdade se afirmarmos que aquele lugar – como mirante para o Ave que passa lá em baixo – devia ser extremamente bucólico. / Ermo, talvez triste, de caminhos intransitáveis, devia ter sido aquela aldeia que hoje, a nossos olhos, tem alguma coisa de belo, de extraordinário, graças ao seu progresso e à sua indústria. / Bairro é, entre todas as nossas freguesias, aquela que está em pleno progresso e actividade. / Do lugarejo triste e abandonado – não há muitos anos – é, hoje, uma terra próspera, atraente, cheia de beleza.” (“Notícias de Famalicão”, 10 Outubro 1936).


O primeiro retracto sobre a Fábrica de Fiação e Tecidos, pelo menos aquele que conheço, é do “Jornal de Notícias”, de 25 de Agosto de 1929. Informa que “tem amplo salões de Fiação, Tecelagem, Tinturaria, Cardação e grandes armazéns para matérias-primas, etc., todos eles providos de muita luz e ar, sendo todas as secções bem determinadas e amplas onde se nota estar o operário à vontade e não acumulados em pequenos recintos e espaços insuficientes para s maquinismos”. Mais à frente, que a fábrica possui um “consultório médico” e possui “todos os maquinismos modernos, é movida a energia eléctrica do Lindoso e tem a mais bem instalada central, sem dúvida, do Norte do País, sendo todos os motores e material eléctrico fornecidos pela casa «ASEA», da Suécia. Por intermédio dos seus representantes sr. Jaime da Costa, Ld.ª, da cidade do Porto”. Escoava os seus produtos para Portugal, as colónias e para o mercado brasileiro e especializa-se segundo a publicidade, no fabrico de cotins, cobertores, dos mais simples aos mais artísticos e riscados de diversas qualidades. A primeira casa de Silva Pereira ficava entre o depósito de ferro para óleo e a central eléctrica, na qual viveu entre 1916 a 1922, mudando então para o seu palacete. Dos actos de benemerência, fala-se na projecção das escolas para o sexo feminino e masculino, uma creche para crianças e a Avenida que terá o seu nome. Será, contudo, no “Diário da Manhã”, de 22 de Maio de 1932, que temos referência pela primeira vez às “casas para os operários”. 1932 será um ano marcante não só pela colocação da primeira pedra das escolas, como da inauguração da Creche-Maternidade, mas será inaugurada igualmente a Cabine Telefónica, com a representação da Associação Comercial e Industrial de V. N. de Famalicão. Presidente da Direcção da referida Associação em 1931, e não em 1932, como alguns jornais nacionais pretendem assinalar, a mesma Associação transforma-o em Sócio Benemérito em 1935. Homenagem mais do que justa, merecendo a distinção de Narciso Ferreira, este Presidente Honorário. Mas isto deve-se a outros conflitos. A Avenida Silva Pereira já estaria pronta em 1934, segundo informação do “Estrela do Minho”, de 20 de Maio: “… a Avenida Silva Pereira, com as suas escolas já prontas, harmonizando nas suas linhas com o gracioso edifício da creche e outros edifícios elegantes que se vão estendo ao longo dela” é exemplo do que afirmo. Possivelmente, a última aparição pública de Silva Pereira revestiu-se no duplo centenário da fundação de Portugal, cujas comemorações foram celebradas em Bairro, segundo o “Notícias de Famalicão”, de 8 de Junho de 1940:



“De manhã foi arvorada no adro da Igreja a bandeira da Restauração entre o estrelejar de numerosos foguetes. De manhã, missa em acção de graças, assistindo à mesma as crianças das escolas garbosamente vestidas, as agremiações das freguesias e o grupo desportivo com a sua nova equipa. / No final da missa dirigiram-se em cortejo para a Escola do Sexo Masculino onde houve uma sessão solene sob a presença do sr. dr. José Lacerda, ladeado pelo Sr. A. J. da Silva Pereira e P. Carlos de Lacerda, digno pároco desta freguesia, estando presente diversas individualidades e muito povo… / Também na Segunda-Feira, dia 3, as mesmas colectividades chefiadas pelo sr. Padre Carlos de Lacerda, seguiram em cortejo até á vizinha freguesia de Rebordões, para saudar o venerando Chefe do Estado na sua passagem a Guimarães, e lhe ofereceram lindos bouquets de flores.”

Não quero deixar de fazer referência ao majestoso “In Memorian” que o jornal de V. N. de Famalicão “Notícias de Famalicão”, em 20 de Dezembro de 1941, realizou a propósito do cidadão António José da Silva Pereira. Dando-nos a informação que trabalhava já como corrector de algodões, o que lhe permitiu então angariar alguma experiência profissional no ramo, caracteriza Bairro como uma “freguesia rural” e, paralelamente, “triste, taciturna, tinha apenas o romantismo do Ave e das suas margens.” Só que Silva Pereira chegou para revolucionar Bairro, dando-lhe “uma nova feição e tornava aquele lugar num centro industrial que se urbanizava de dia para dia.” Bairro despediu-se “daquele tom triste e passou a ser um grande e próspero centro industrial. À sua actividade industrial, construiu uma outra, a de benemerência, "de tal modo que o Governo da Nação conferiu-lhe a Comenda da Ordem de benemerência.” Mais à frente, explora este “In Memorian” a sua actividade de benemérito: “… mandou construir uma creche e um lactário, anexando-lhe, num magnífico e amplo edifício, uma maternidade… mandou construir as escolas de Bairro, para ambos os sexos, num amplo e magnífico edifício.” Ainda ao nível da obra social, Silva Pereira criou “uma cantina para o pessoal e nessa mesmo colocou sala de divertimentos, com bilhares e jogos… Abriu por sua iniciativa particular uma Avenida e uma estrada que passando pelo lugar da Granja ligou Bairro à Carreira, encurtando quatro quilómetros da sua freguesia à sede do concelho.” Relativamente à Igreja Paroquial de Bairro, Silva Pereira ofertou o altar-mor e as imagens dos santos, entre os quais o São Pedro, padroeiro de Bairro. No “Diário da Manhã”, já referido, lê-se, a dada altura, “que desgraçadamente nem todos o compreendem, ou querem compreender.” Julgo que hoje os seus conterrâneos não o esquecerão, perpetuando cada vez mais a sua memória e valorizando as suas acções, em prol do bem comum, em quatro áreas, a saber: vias de comunicação, instrução, “solidariedade social” e na religiosidade.

Muito obrigado.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

A Imprensa e a I República em V. N. de Famalicão






Para as comemorações do 105.º Aniversário da Implantação da República em Portugal, a Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão organizou em 2015, através do Museu Bernardino Machado, a exposição “A Imprensa e a I República em V. N. de Famalicão”, a qual se encontra agora reposta, na sala de exposições e de conferências "Júlio Machado Vaz", até ao dia 5 de Março de 2017, no mesmo Museu. Nas palavras do Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, Paulo Cunha, no catálogo publicado sobre a mesma exposição, se, por um lado, refere “a valorização da história local”, por outro lado, na mesma exposição “propõe-se divulgar e perpetuar na memória dos famalicenses, a extraordinária dinâmica da imprensa famalicense neste período conturbado da história política nacional…” Paralelamente, a exposição contém referência a três partidos, com as suas comissões municipais, a saber: Partido Republicano Português, Partido Republicano Evolucionista e Partido Republicano Radical, relacionando-se, um pouco, desta forma, com o Ciclo de Conferências deste ano, o qual diz respeito aos "Partidos e as Grandes Questões da I República".


 Numa primeira abordagem, o que convém questionar é se, de facto, o republicanismo em V. N. de Famalicão através da imprensa, na divulgação do seu ideário, teve o seu efeito prático. Na realidade, num primeiro momento, quando Sousa Fernandes em 1909, na inauguração do Centro Republicano Dr. Bernardino Machado, salienta a importância dos centros republicanos como meio de propaganda e de instrução, foca, enquanto instrumentos para tal fim, o jornal, o livro e a conferência. Contudo, pretende-se aqui enunciar cinco áreas concretas à volta da imprensa famalicense, entre o período histórico da última década da monarquia e os anos da I República, a saber: os periódicos republicanos, os periódicos de transição, os periódicos informativos e noticiosos, os periódicos literários e humorísticos e os periódicos associativos. Se no caso dos periódicos republicanos a caminhada teve início de forma simplista com “A Egualdade” (1885), o ideário republicano justifica-se com a “Nova Alvorada” (1891-1903) perante as comemorações das figuras gradas da cultura nacional e internacional (e mesmo locais) e o jornal “O Porvir” (1895-1897, 1906-1907 e 1910-1914), num combate anti-jesuítico e catolicista. Desta forma, primeira conclusão que se pode retirar é da aposta, numa primeira fase, por parte dos republicanos famalicenses, no discurso cultural, face ao discurso político, este já acentuado, numa segunda fase, com “O Porvir”. Face à irregularidade deste jornal, os republicanos evolucionistas de V. N. de Famalicão publicariam o “Desafronta”, com Francisco Maria de Oliveira e Silva, um dissidente da Comissão Municipal do Partido Republicano Português, e, só muito mais tarde, nos anos 20, iria surgir “O Clarão” (1920-1921), o porta-voz do operariado do concelho famalicense, e o semanário republicano “O Democrata” (1922-1923), ambos tendo na frente a figura de António Gonçalves Branco (1891-1972). Como se vê, tal como a nível nacional, as cisões partidárias do Partido Republicano Português tiveram não só influência na constituição de novas comissões municipais, como igualmente na formação dos seus órgãos de imprensa, caso dos evolucionistas e dos radicais. Estes, em 1925, constituíam não só a Comissão Municipal do Partido Republicano Radical, como igualmente o seu órgão de propaganda com o título “O Minhoto”. Por seu turno, e nos periódicos de transição, e já na I República, há, indiscutivelmente um nome que convém reter, o de Joaquim José da Rocha (1874-1930), tipógrafo e o patrão da Tipografia Aliança. De facto, e face à imprensa republicana, desde 1899 que o Partido Regenerador contou com três títulos, tendo sido o de maior longevidade “O Regenerador” (1899-1910), já se realçando no jornal então fundado por Monsenhor Santos Viegas, Joaquim José da Rocha, director e proprietário. Já na parte final da monarquia, os regeneradores famalicenses publicavam mais dois títulos efémeros, nomeadamente o “Notícias de Famalicão” (1910), sendo director Guilherme da Costa e Sá e na administração encontrámos o nome de António Maria Pereira (1878-1953), franquista em 1907, então jovem professor, e o “Novidades de Famalicão” (1910-1912), tendo como director e redactor principal Manuel José Rodrigues, incorporando-se mais tarde, na I República, na comissão municipal do Partido Republicano Liberal. Por outro lado, por parte do Partido Progressista, a comunidade famalicense deparava-se com o jornal “O Famelicense” (1908-1914), destacando-se o nome de José Maria da Graça S. de Sousa Júnior.
Se, em parte, os republicanos famalicenses contavam com o “Estrela do Minho” (1895-1969) de Manuel Pinto de Sousa, o fundador da Tipografia Minerva, como seu editor, proprietário e director, dando uma marca pessoal de político republicano laico e de independência e estando presente do princípio ao fim nas comissões republicanas-democráticas famalicenses, os monárquicos e os conservadores, assim como alguns dissidentes republicanos, particularmente oriundos dos evolucionistas, tiveram em V. N. de Famalicão o seu porta-voz incontestável, Joaquim José da Rocha. Para além de ter sido proprietário do semanário independente “Aptas” (1910), ao lado de Elpídio Brandão Peixoto (director e editor), o mesmo sucedendo com “A Paz” (1910-1911), surge em 1912 com a “Tribuna”, aqui já como editor e proprietário, secundado agora por Abílio Pereira de Araújo como director. Perante a efemeridade destes três títulos, será com a “Gazeta de Famalicão” (1914-1919), denominando-se “semanario monárquico”, e com “A Paz” (1919-1930), designando-se como “semanario conservador independente”, estes dois últimos títulos de maior longevidade, que Joaquim José da Rocha, de uma forma ou de outra, elabora não só o seu percurso ideológico, como igualmente o dos monárquicos e dos conservadores famalicenses, alcançando o seu apogeu com o pimentismo, na vitória das eleições municipais de 1917, no sidonismo e na monarquia do norte, numa constante reivindicação aos valores de uma “pátria” já ida e em constante remodelação.
Ao lado destes periódicos informativos e noticiosos, dos republicanos e de transição, a imprensa em V. N. de Famalicão toma um outro rumo, nomeadamente o literário e o humorístico, sem esquecer, como é óbvio, a cultura sempre presente nas páginas do “Estrela do Minho”, pontificando Camilo Castelo Branco e a Casa de Seide. No primeiro caso, conta-se nos seus corpos directivos e redactoriais personalidades conservadoras, oriundas do monarquismo franquista e de regeneradores, ao lado de uma nova geração que então começava a dar os seus primeiros passos nas lides jornalísticas. Neste último caso, temos o quinzenário humorístico, literário e noticioso “O Sonho” (1915-1916), estando aqui como editor Alexandrino Costa e na direcção o então ainda jovem republicano Alberto Veloso de Araújo, “O Pandilha” (1913-1914) e as três séries de “O Sorriso” (1909, 1912 e 1915), pontificando nomes como Daniel Correia Guimarães, António Maria Pereira, Joaquim Fortunato de Almeida, Alfredo Saraiva Sampaio e o de Francisco Mesquita de Araújo; e se já o “Novidades de Famalicão” em 1911 publica “O Sorriso” em seis números, uma página literária dedicada às damas famalicenses, sendo responsável A. Fontes, tais jornais, diga-se, sem excepção, radicalizam-se numa estética naturalista.
Surgem-nos, finalmente, os periódicos associativos, destacando-se indiscutivelmente “A Lavoura do Minho” (1912-1925), órgão de imprensa da Associação de Agricultura Famalicense, esta criada em 1912 e transformada em Sindicato Agrícola em 1913. No âmbito da ideologia republicana para a defesa e a divulgação da agricultura, destacaram-se nomes como os de Duarte Maria Menezes, Joaquim Moreira Pinto e Guilherme da Costa e Sá (integrou a equipa do jornal regenerador “Novidades de Famalicão”) e, no fim deste jornal, surgiria em Landim “O Guia do Agricultor” (1925-1935), com nomes como os de Abílio Gomes da Costa, Augusto Padrão e António Cândido de Sousa, conservadores.
Com a criação do Orfeão Famalicense (1916), surgiria o título “O Orfeonista” (1916-1917), com nomes como Alexandrino Costa e Mário Lima na administração, redactor-chefe Alberto Veloso de Araújo e tinha uma direcção de propaganda: ao lado dos já nomeados, acrescenta-se os de António Maria Pereira e Carlos Alberto Oliveira.
Paralelamente, o Grupo Desportivo Famalicense, que nascia no ano de 1922, fundava no mesmo ano “Vida e Sport”, sendo seu proprietário e editor Uriel Dias Marques.
Concluindo, se num primeiro momento o ideário republicano se impôs na comunidade famalicense através da imprensa, particularmente pela cultura, num segundo momento é clarividente a projecção conservadora e monárquica, que suplantará a imprensa republicana. Indiscutivelmente, que as consequências serão desastrosas.









quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Crónicas (im)prováveis


"Um artigo sobre coisa nenhuma."
Chesterton

Para o Dr. Sá Marques, que já tinha saudades destas linhas

Com esta imagem fabulástica de Vila Nova de Famalicão, nos princípios dos anos oitenta do século passado, tirada com a minha máquina "Lumix", cuja lente é da Leica, de um dos jornais famalicenses, dou início a estas crónicas pouco prováveis. As novas medidas de Donald Trump, aquele novo Presidente dos Estados Unidos, ao qual não lhe dou mais que dois prováveis anos, possivelmente  o Senado ou o Congresso ainda o vão demitir, baseadas numa filosofia política na evocação do nacionalismo (ou não tivesse decretado o dia do nacionalismo), coloca a questão do nacionalismo político enquanto virtude política ou não. Exemplo disso mesmo é a política da imigração, colocando os americanos e o mundo em estado de choque. Depois, ainda hoje nos noticiários, destacou-se a extrema-direita francesa, cuja segurança de Marine Le Pen agrediram os jornalistas, impedindo assim a liberdade de imprensa. Tais acontecimentos, para além da questão do muro trumpista (mas já a Europa edificou igualmente algo do género) revelam o improvável do ser humano. No caso da Europa, esta é de fraca memória. Os migrantes continuam a assolar-nos e ainda apareceu mais uma criança morta! Eis a tragédia. O mundo está eclipsado nas suas vanguardas catastróficas e a classe política encontra-se indigente. Salva-nos desta catástrofe, num dia como este, melhor, numa noite como esta, com chuva e frescota, o amor, os livros e estas linhas sobre coisa nenhuma e alguma coisa. Mas as catástrofes sempre existiram, mesmo no mais trivial do mundo, na nossa experiencialidade finita, em busca sempre da esperança. às vezes ficamos estupefactos por algumas afirmações e aqueles títulos jornalísticos bombásticos, com aquele preto carregado, a anunciar algo. Neste caso, revelou-se que  candidato socialista à Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão,se for eleito, vai dar mais dinheiro aos famalicenses! Concerteza que a comunidade famalicense se deve ter rido bastante, já que o governo socialista anda para aí a tirar o nosso dinheirinho aos ordenados, melhor, ao subsídio de natal, a esses estúpidos duodécimos, e às pensões, como se estas fossem as melhores do mundo! Dizem os nossos políticos governamentais que irão devolver o retirado, mas cá o autor destas linhas é como S. Tomé, só acredita quando vir no seu recibo tal retribuição. Às vezes também comento que o nosso IRS precisava de uma reformulação, de uma profunda reforma. Entre a coligação de direita e este governo socialista, venha o diabo e escolha: se o primeiro apostava mais nos impostos directos e indirectos, o segundo anda a apostar nos impostos indirectos e, de forma estratégica, nos directos. Portugal continua a viver nas suas melhores ilusões. Talvez a próxima crónica seja mais optimista, talvez sobre o novo filme de Scorsese e o seu "Silêncio", ao lado do silêncio de Endo, um silêncio que falta muito na sociedade contemporânea. Mas este silêncio é outro. Assim vamos.