quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Encontros de Outono 13 - II



Prof. Fernando Catroga
Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra
“Violência e História”



 “Hoje há uma abundante produção reflexiva sobre o tema, particularmente da violência, desde o campo da História, no campo da Sociologia, no campo da Antropologia, no campo da Filosofia (e até no campo da Biologia, basta lembrar os estudos de Konrad Lorenz). Isto para dizer que estamos perante uma temática, se nós quisermos ver, há cruzamentos necessários para compreendermos os objectos específicos das investigações, isto é, estamos perante uma questão transdisciplinar. Mas, por outro lado, como acontece nestes domínios das ciências sociais e humanas, há sempre uma dificuldade de conceptualizar, de encontrar uma definição que consiga um amplo consenso, ou, pelo menos, quando há esse consenso, não deixe janelas abertas, para se poder indicar que, afinal, essa definição nunca é totalizadora e abarca sempre lacunas. Claro que as dificuldades ficam mais acrescidas quando se procura relacionar a violência com a política; e, sobretudo, quando se quer uma definição de teor político: se a política se remete, afinal, para a velha definição de Polis, da ideia das sociedades pautadas por normas escritas, ou não, também de carácter jurídico, e que enfatizem os fins que se ultrapassam a simples materialidade da garantia da vida e da regulação da própria vida (como nos diz Ana Harendt, o homem passa a ser político, ou é político essencialmente quando fala, discute, permuta ideias e toma decisões), a dificuldade aumenta ainda muito mais, porque muitas vezes confundimos o político com o político propriamente dito, quando chamamos à discussão as formas mais orgânicas, ou que a um tempo as sociedades se foram realizando. As dificuldades aumentam ainda mais, se nós quisermos ler nos dicionários e ver as definições que nos são dadas sobre a violência, que é o tema que aqui vou propriamente definir. Para Littré, a violência é uma força que pode ser levada contra as leis, ou contra as liberdades públicas, ou como o constrangimento exercido por alguém para coagir ou obrigar esse alguém. Os dicionários portugueses do século XIX e XX, caso do Moraes, referem a ideia de força, grande impulso, força exercida contra o direito, coacção, constrangimento, ou ainda transgredir. Ora, todas estas acepções ligam a violência a qualquer coisa de físico, uma espécie de atentado a um “Eu” corporal, e onde o surgimento das caracterizações são altamente discutíveis no que diz respeito à sua aplicabilidade. De facto, a violência é um discurso ou uma acção agressiva, ou destrutiva, por parte de uma pessoa ou grupo, em relação a outra pessoa ou grupo? Ora, convém dizer que, por um lado, não há uma inteira coincidência entre força e violência. Embora convenha chamar a atenção que se formos à origem da palavra, o “vi” e o “vis, de força, dá violência, como dá violador e dá violação. Portanto, é indiscutível que há uma componente, digamos assim, energética da violência, por um lado, há uma fisicalidade e uma corporeidade inerente ao acto violento, portanto, uma relação de autoridade tensa, mas, por outro lado, é evidente que também há uma auto-violência da autoridade; e nem sempre a violência assume a forma de discurso ou de acção. Também pode ser exercida por omissão, pode ser exercida dobre as pessoas, mas também sobre o património, ou sobre a própria natureza. Por outro lado, a violência, se a levarmos para uma leitura simplificalista, ela pode sugerir que é algo que possui uma visibilidade inerente: ninguém vê, mas ela deixa vestígios suficientes (e depois o direito do monopólio da violência vai desenvolver os seus processos, ou o próprio historiador nas suas investigações vai descobrir), mas há também uma espécie de violência invisível, cujos efeitos foram sendo impossibilitados pela violência física, e há também uma violência simbólica, que pode ser perpetrada em termos físicos (na I República há uma violência iconoclasta, onde a violência directa é sobre os símbolos), e este tipo de violência simbólica pode ter uma expressão de invisibilidade. A análise fica mais complexa, quando nós usamos como conceito mais amplo de política, porque se reduzimos a questão da violência-política àquilo que podemos chamar o Estado, o monopólio da coacção jurídica activa, principalmente no Estado moderno, também podemos não perceber aquilo que, afinal, principalmente através do estudos de Michel Foucault, essa violência tanto pode vir de um macro político, como pode vir expressamente visível, como pode vir de uma experiência micro, não só numa escala político-administrativa, mas também uma violência infringida no próprio corpo; e mais, uma violência de que já não é propriamente violência, no sentido próprio do termo, ela está integrada, faz parte daquilo que podemos chamar o bio-poder, o recalcamento da violência.

Esta é a minha primeira inquietação que gostaria de para aqui trazer e verificarmos que estamos num quadro complexo; e que os historiadores, particularmente, devem ter em conta a complexidade deste quadro. Será útil frisar que toda a violência acaba por ser uma manifestação que remete para a ideia de força. De qualquer modo, já foi sublinhado, que nem toda a força é violenta. Há que não confundir força com violência, porque “a força obriga, enquanto a violência oprime”; ou ainda, “a violência é o grau extremo da força” (Julien Freund). Por isso, o uso da violência tende, nas nossas sociedades secularizadas, a uma sujeição instrumental à racionalidade e, sobretudo, à inferiorização, que caminha à parte, com a institucionalização das formas de revelar a violência de maneira a transformá-la em conflito, e convinha aqui não confundir violência com conflito: nós podemos dizer o que é comum associar-se à violência como uma espécie de algo que remete para a animalidade do homem, o que equivale a dizer é que tem algo a ver com a irracionalidade do que com a racionalidade, tem mais a ver com a insociabilidade do que com a sociabilidade, tem mais a ver com a harmonia social do que com a sociabilidade informal ou formal das sociedades (Durkheim). E quando a mediação passa a ser essencialmente político-jurídico, tem mais a ver com ilegalidade do que com a legalidade. Sim, isto é verdade, mas julgo que precisamos de ir um pouco mais longe. Tanto mais que a violência também pode legitimar-se com argumentos que os seus propagadores e defensores reivindicam com o estatuto da racionalidade, pretendendo conduzir à razão aqueles contidos por estarem ou no obscurantismo ou na menor razão. Isso é muito claro quando a violência é racionalmente integrada como perfil essencial do próprio dinamismo histórico e, portanto, a dicotomia entre racionalidade e irracionalidade também precisa de passar pelo criso da política, sobretudo naqueles que acham que tudo que deve ser racional precisa de ser aloeirado pelas dúvidas metódicas. A violência não pode ser eduzida há acção física, criminalizada, característica típica da fase em que o Estado tem o monopólio, ou procura ter o monopólio da violência, porque significava não levar em conta as dimensões conflituosas em emergência de violentas, que estão para além daquelas, que o próprio Estado de direito prevê, ou aquelas que o próprio Estado de direito repulsivamente pode actuar. Por isso, onde é que há violência? Há violência quando numa situação de inter-acção, a violência no seu dinamismo com um ou vários actores agem de maneira directa ou indirecta, numa acção concentrada ou dispersa, prejudicando um ou vários outros, tendo alvos variáveis na sua interioridade física ou moral, nos seus bens, participações simbólicas e culturais. A violência é, pois, e aqui entro noutro tema, uma orientação social. Diria mais: sem violência não há sociedade, assim como sem suicídio não há normalidade social. É tudo uma questão de grau. A violência é fundante do social, porque é fundante do sagrado. Aliás, como confirmam as grandes cosmogonias que nos chegaram através das narrações míticas (transversal a todas as religiões). Todo o ritual do sacrifício revive, mataforiza, representa a violência fundadora, conseguindo, assim, assegurar a paz no seio do mundo. A violência contra o ritual é a única violência que domestica a violência, que não suscita a obrigação da vingança e que sobre ela podem ser descarregadas as tensões sociais. E, por isso, é que, de facto, estes mecanismo de recalcamento real, que está sempre adormecido nas sociedades, poderemos dizer que nas religiões, e depois no Estado, que no fundo, é o sucedâneo do religioso. São fórmulas que tem mais semelhanças do que há primeira vista possa acentuar. Daí que também se discuta das razões da violência; e quais são elas? Há uma explicação que é mais contemporânea, que tende a não ir aos arcanos desta explicação e que essencialmente tenta explicar a violência como contradições de carácter social. Sem dúvida, é com as sociedades industriais que levaram isso mesmo até às últimas consequências, a secularização dessas sociedades puseram o social e o político como uma espécie de autosuficiência fundante daquilo que é dessas mesmas sociedades. Mas julgo que há algo mais de subterrâneo naquilo que é mais vulcânico nessas sociedades que são mais conflituosas e aí vamos ver, precisamente, a inclusão de todos os níveis de violência e talvez condensadas na socialização de velhos princípios que já vamos encontrar nos seus gérmens, quer nas grandes narrativas míticas, que nas visões do mundo ocidental que tentou explicar a motricidade das sociedades. Esta tese tende, no fundo, por um lado, a valorizar algo que é fundamental, e que julgo vai ser o tema fundamental destes Encontros, a violência política, a violência social, mas também a violência simbólica, sobretudo na violência social, e, para ser coerente, acho que apesar de tudo, essa realidade ganha, se nós recrutarmos um tema que tem de ser encarado, porque não há, não conheço uma sociedade que não tenha sido violenta: criar a ilusão de que se o Estado super-industrializado é violento, é não perceber quais são os seus limites, para, no fundo, desnaturalizar o fundo da violência, ou então qual é a capacidade que têm alguns dos seus prognósticos precisamente optimistas, segundo as quais uma vez que as suas responsabilizações sociais, sejam para que as sociedades não sejam violentas. isto é, saber se, afinal, estamos perante uma utopia, ou se há utopias realistas, no que diz respeito àquilo que, também se pode inferir, levando em conta, o “fundo pulsional” (Freud), o conflito entre o construir e o destruir, entre a natureza e a cultura, assim se consegue resolver naquela idealizada e esperançosa paz perpétua que Kant sonhou. Por causa disto, por todos aqueles que acham que sim, que esta explicação sociológica deve ser levada em conta, mas ela não pode escamotear, por um lado, o fundo natural que existe no homem (o homem continua a ser um animal), há sempre um fundo violento no ser humano na sua relação com o outro que, sem se cair na apologia do lobo do homem contra o homem, que uma certa teoria do contrato social da modernidade pretende proferir, e mesmo que seja para defender a ideia (como acontece mesmo no próprio Freud), segundo a qual, a animalidade de que o homem é, pode de facto trazer acréscimo de civilização, não para definitivamente anular essa besta que está em cada homem, mas precisamente para esse esforço permanente do homem vencer a natureza. Estamos aqui perante uma tese que não dá uma origem exclusivamente sociológica ou histórica à violência, mas que, ela, só por si, não vai cair numa visão pessimista. De qualquer modom confesso que não devemos confundir violência com o conflito, e vejamos Georg Simmel: “O conflito e a agressão desempenharam um papel positivo contribuíram para a construção do social.” Um sociedade sem conflito é impensável. E, portanto, a questão da violência é uma questão de grau (de quê?) do conflito. Esta é uma questão que se pretende quer com as sociedades abertas, quer com as sociedades fechadas, ou com as utopias irrealizadas, ou as chamadas utopias concretizadas. Em suma, já o velho Heraclito dizia que a guerra é a origem de todas as coisas. Diz isto, porque estava a passar para uma linguagem filosófica, estava a racionalizar uma longa tradição que vinha do pensamento mítico. E se formos agora analisar a estrutura fundamental dos grandes mitos, o que é que nós encontramos? Os grandes mitos serão sempres cosmogonias; e o que é que nesses grandes mitos (na Índia, na China, na tradição grega, pagã) encontramos é uma História (e agora vamos entrar na História) da génese do mundo, não digo na criação do mundo, como os filósofos dizem, o processamento do mundo, onde geralmente esta génese é uma narrativa que tem personagens antitéticas, onde geralmente uns representam o princípio do bem e o princípio do mal, o princípio da luz e o princípio das trevas, o princípio da forma e o princípio da disforma. No princípio era o caos é, em última análise, o ponto de partida, dessas grandes narrativas, que dá origem ao cosmos, que significa ordem, e é nesse cosmos que emerge o homem. Numa coabitação com as divindades. Outra ideia fundamental para a ideia de História, que é a imediata degradação trazida pelo tempo, isto é, a luta gera o mundo, mas o tempo corrompe. E, portanto, a teoria das idades nestas cosmogonias, os critérios de classificação foi feito pela qualidade dos metais (no Cristianismo a Idade do Ouro corresponde ao paraíso), mas inevitável e inexorável e necessariamente vai ser degradada até chegar à idade dos Homens, propriamente dita, que é a idade da penúria, que leva a que haja um conjunto de práticas rituais para anular o tempo e que para, nem que seja, para usufruirmos esse poder pleno da nostalgia que se tem das origens. Aqui, duas ideias: primeiro, é a luta, é do combate que nasce o tempo; em segundo lugar, o tempo corrompe. Não podemos dizer que o pensamento grego e romano tenha alterado substancialmente esta questão. É sabido, que a visão judaico-cristã vem trazer algo diferente. Ao lado da ideia da criação, Deus criou igualmente o espaço e o tempo, que passaram a ser finitos e passaram a os homens a ter expectativas, da espera, da esperança, da escatologia, ou da verdadeira salvação. E porque é que a História, na visão judaico-cristã. Continua a ser sofrimento? A História começa com o pecado de Adão e a luta entre Abel e Caim. Cá temos a luta que é uma espécie de peregrinação no tempo, no tempo finito, e a salvação possibilitada +ela audição da boa-nova trazida por Cristo. Também aqui não deixamos de ter a ideia de luta, a ideia de violência, senão o parricídio é pelo menos a luta entre irmãos, a ideia de sofrimento e a ideia de salvação, que já não é meramente ritual, ou a aparência de que o ciclo possa regressar ao ponto de partida. É uma visão escatológica. No Humanismo, cada vez mais a História vai ser entendida como um progresso, o crescente questionar da narrativa, mas num tempo finito, e a modernidade vai infinitizar o tempo e o espaço e vai substantivizar o homem, porque o homem passa a ser ele o motor da História, o demiurgo da própria História, o iluminismo vai consagrar isso mesmo. Mas a verdade é que, para explicar este dinamismo crescentemente distinguido das teses providencialistas de qualquer motor exterior à própria História, mas sendo inerente à própria História. A ideia da motricidade histórica, que vai ser típica da modernidade, e que vai ter na ideia da violência histórica, ou da guerra, ou da luta, a sua grande metáfora explicativa, essa ideia vai ser de facto inscrita nas grandes narrativas agora autossuficientes e secularizadas e crentes durante os atributos agora quase divinizados do ser humano, particularmente na capacidade perfectiva do homem, na ideia do progresso indefinido, ou infinito, na ideia de que o homem racionalmente pode compreender a razão da História e pode através da sua razão transformar a História, que vem acentuar a ideia da práxis, da acção, e que vai criar a figura do revolucionário, o qual só podia nascer do conceito da revolução. E o novo conceito de revolução só podia surgir num quadro de progresso indefinido e, simultaneamente, porque se não podia levar a um fatalismo, na crença de que, mesmo quando se acentua que a História tenha as suas tendências objectivas, através do conhecimento o homem pode acelerar a História e lutar para que o futuro chegue mais cedo. Ora, as revoluções modernas vão ser isso mesmo; e nos seus principais momentos, vai por no motor da História a contradição, a luta e como momento parturiante da História a ideia de sofrimento e a ideia de violência."



Encontros de Outono 13 - I

XVI
ENCONTROS DE OUTONO
2013
“VIOLÊNCIA E PODER POLÍTICO
(1910-1974)”



SESSÃO DE ABERTURA
Presidente da Câmara Municipal de V. N. de Famalicão
Dr.º Paulo Cunha

“Bernardino Machado teve uma propensão para a investigação. Queremos que este incentivo à investigação seja uma imagem de marca do nosso município. Queremos criar bons hábitos para a investigação. Até porque, quem quiser fazer uma tese, um estudo sobre a I República tem que vir a Famalicão, ao Museu Bernardino Machado, conhecer a sua obra.”


Prof. Norberto Cunha
Coordenador Científico do Museu Bernardino Machado




“O tema deste ano dos “Encontros de Outono” é a “Violência e o Poder Político”. É um tema aparentemente trivial, não só pelo Estado ter o monopólio da violência legítima (como disse Max Weber), e mantém a coesão social, graças a uma violência potencial, ainda que limitada, mínima, mas porque esse monopólio não impede que surja numa sociedade focos de violência, gerada ou por movimentos terroristas, ou por grupos de massas descontentes que, frequentemente, têm o conflito como desenlace quando a sua acção ultrapassar determinados limites. Mas se a violência, que em sentido restrito, se caracteriza por modificações danosas, já a violência do poder político nos deixa muito mais apreensivos, pela magnitude e pelas consequências dos seus efeitos. O poder político, que detenha o monopólio da violência legítima, não se confunde com ela, nos comportamentos dos seus destinatários., A violência, de per si, muda o estado e o corpo ou das suas possibilidades ambientais ou instrumentais. Naturalmente que a intervenção física pode ser utilizada por um meio para exercer o poder político, isto é, intervindo sobre a vontade dos outros, pode-se obter hipoteticamente qualquer conduta externa, ou interna, tanto numa acção como numa omissão, tanto no querer, como no não querer, mas a violência só pela violência, isto é, pela intervenção sobre o corpo do outro, apenas se pode obter numa omissão: imobilizando ou encarcerando a vítima, podemos impedi-la de realizar qualquer acção socialmente relevante, alterando o seu estado físico, nem sequer podemos induzir a fazer algo socialmente relevante. Há que ter em conta a distinção entre a violência e o poder político; e ainda que se possam implicar, essa implicação, implica uma distinção entre a violência em acto e a ameaça da violência. Esta distinção é importante nas relações do poder coercitivo, a violência intervém sobre a forma de punição, apenas quando a ameaça não alcança o seu fim. A violência política não é, portanto, um fim, mas um meio. Não é, pois, a violência do poder político que aflige propriamente os cidadãos: essa violência é parte do poder político, não é o seu fundamento. A sua utilidade também advém de um amplo consenso, expectativas de valores; mas a violência do poder político tem o monopólio da violência: dizer que ela é o seu meio específico e literalmente exclusivo, se é verdade, não é afirmar que a violência é o fundamento exclusivo, nem o principal fundamento do poder político. E está longe de ser aceitável que o motor da violência seja o único motivo pelo qual os membros de uma comunidade obedeçam às ordens de um Governo. Quando se qualifica legitima a violência que o Governo monopoliza, indica-se apenas uma certa zona de consenso, e se a legitimidade da violência exercida dentro e certos limites, não é apenas uma pretensão dos governantes, é também, digamos assim, uma intenção dos governados, tendo a sua adesão. Por isso se pode dizer que o poder político se funda, em parte, sobre a violência e, em parte, sobre o consenso. O consenso baseia-se, em parte, na prossecução dos interesses próprios, mais ou menos estabelecidos entre os cidadãos, em parte sobre a crença em determinados valores. O conflito surge quando este consenso é desmoronado, e só resta ao poder político e aos cidadãos a violência. Então perguntamos: como se justifica esta violência, quando efectivamente os fins justificam os meios e se esboronou? A escola jus-naturalista justifica a violência como um meio ao serviço de determinados fins, sejam justos ou injustos, mas não regulamenta essa relação entre meios e fins. O mesmo não acontece, por exemplo, no direito positivo, onde efectivamente há uma regulamentação dos meios, dos quais há uma legalização a utilizar para a sua aplicabilidade. A questão que se põe é a seguinte: até que ponto, manobrando-se os fins e justificando-se a violência enquanto meio, ela continue dentro da esfera do direito. É uma questão, hoje, de uma enorme impertinência, levantada pela primeira vez, nos tempos mais recentes, por Walter benjamin, tendo sido já levantada igualmente por Sorel, que dizia que, afinal, esta legalidade e as condições da sua aplicabilidade, mesmo numa relação em que os fins se malogravam, acaba por ser um logro, acaba por ser uma patologia do poder, um expediente para o poder se autoconservar-se e, portanto, uma violência imoral; e isto põe em causa o monopólio da violência legítima do Estado. Esta questão da violência do poder político não é, pois, uma questão tão trivial: deparamo-nos com ela no dia a dia, estamos com ela permanentemente."




sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Os Cem Anos do "Olympia" (23 Nov. 1913)


O filme que no dia 30 de Novembro os famalicenses vão poder ver, “The Kid”, numa produção do Cine-Clube de Joane e da Casa das Artes, e com a música de “Bueno.Sair.Es”, é um momento histórico. Momento histórico não só por “The Kid” pertencer à filmografia de Chaplin, como também pelo facto de o mesmo filme ter sido apresentado aos famalicenses no Salão Olympia (o qual foi inaugurado em 23 de Novembro de 1913) no dia 2 de Março de 1924, com o título “O Pobre Miudinho” ou ainda “O Garoto de Charlot”. A aventura cinematográfica em V. N. de Famalicão começou em 1908, quando Duarte Aguiar & Guedes, patrões da Confeitaria com o mesmo nome, resolveram inaugurar no velho barracão do Campo da Feira em 28 de Maio de 1908 o “Cynematographo Pathé”. Segundo a imprensa da época, o “Pathé” teve várias inaugurações, sendo a oficial em 18 de Junho de 1908, com o filme “A Vida de Cristo”, entre outros. Na parte final da sua existência, o “Pathé” teria a explorá-lo a Empresa Quintela (Maio 1910) E António Augusto da Silva (Junho 1910), mas sem êxito. Os cinéfalos famalicenses ficariam sem ver as “projecções luminosas” apenas durante alguns meses, até porque em 24 de Novembro de 1910 seria inaugurado o “Anymatographo Avenida”, de Artur Garcia de Carvalho e António Dias Costa, no edifício da “Typographia Mynerva”, numa sala com capacidade para mil espectadores. Estes mesmos cavalheiros seriam os patrões do “Olympia”, o qual já funcionava em finais de Julho e princípios de Agosto de 1913, para em 23 de Novembro se efectivar a sua inauguração. Álvaro Carneiro Bezerra aparece como proprietário em 1916, tendo como sócio, segundo informação da imprensa famalicense da época, Luís Terroso, surgindo em Maio de 1919 a explorá-lo a Empresa Cine Doret, retomando novamente Bezerra a exploração económica do “Olympia” em finais do mesmo ano. Por seu turno, em Maio de 1935, o “Olympia” terá um novo proprietário, Manuel Caetano da Silva, ficando até ao final do ano, solicitando ainda a Armindo Pereira sociedade para a exploração cinematográfica. Será só em Outubro de 1936, não havendo cinema desde Janeiro, que V. N. de Famalicão terá de novo projecções cinematográficas, quando, uma vez mais, Álvaro Carneiro Bezerra e Vasco Simões ficarão com o Olympia até Abril de 1962. Inaugurando o sonoro em Janeiro de 1931, o “Olympia” teve a sua concorrência: a primeira, foi a do Cine-Teatro Pathé-Baby (1925-1927), da Associação Vinte Amigos Flor de Famalicão (Senra, Calendário) e a segunda com a inauguração do Teatro Narciso Ferreira (Riba de Ave), em 1943. Paralelamente, e timidamente, para além da época normal da actividade cinematográfica, a época de Inverno, foram surgindo as primeiras projecções fílmicas na época de Verão ao ar livre: em 1935, pelo Grupo de Amigos dos Bombeiros Voluntários, no Campo da Feira; em 1936, pelo mesmo Grupo, na Avenida da República (Parque de Diversões) e em 1937 também tivemos de novo cinema ao ar livre na esplanada do Barreiro. Sem polémica, o “Olympia” fecharia as suas portas, para logo de seguida, com pompa e circunstância, ser inaugurado o Cine-Teatro Augusto Correia. Mas isso é outra história, assim como é outra história o inventário, e o seu estudo, dos filmes que o “Salão Olympia” passou ao longo dos seus cem anos de existência, o comportamento do público, entre outros acidentes de percurso.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

"Cem (e mais alguns) Anos de Livros"


O livro “Cem (e mais alguns) Anos de Livros”, de Amadeu Gonçalves, numa edição das Edições Húmus com o patrocínio da Câmara Municipal de V. N. de Famalicão e o apoio da Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco, será apresentado ao público no próximo dia 6 de Dezembro de 2013 na referida Biblioteca, pelas 10h15. Este livro, inserido no programa nas comemorações do Centenário da Biblioteca de V. N. de Famalicão (a qual foi fundada no dia 5 de Outubro de 2013 no âmbito do 3.º Aniversário da Implantação da República em Portugal) será apresentado por Henrique Barreto Nunes (o qual realiza uma introdução) no âmbito da actividade da Câmara Municipal de V. N. de Famalicão com a Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco (em parceria com o Centro de Formação da Associação de Escolas de V. N. de Famalicão e do Grupo de Trabalho das Bibliotecas de Famalicão), a qual se denomina Encontro de Serviços de Apoio às Bibliotecas Escolares. Este ano, que será a sexta realização do referido encontro, terá como temática “A Biblioteca e as Literacias do Século XXI”, realizando-se nos dias 5 e 6 de Dezembro próximos.
“Cem (e mais alguns) Anos de Livros tem cinco capítulos. O primeiro, “Da Intenção do Gabinete de Leitura Pública à Biblioteca Escolar (1898-1908), ao focar a polémica no jornal famalicense “Estrela do Minho” sobre a educação e a instrução, retrata as reivindicações de uma Biblioteca para V. N. de Famalicão desde 1902 e do caminho que a Biblioteca Escolar percorreu até à sua inauguração em 1908, nas antigas Escolas do Conde de S. Cosme do Vale. O segundo capítulo, “A Leitura Pública na I República (1911-1926)” é uma viagem por várias temáticas perante o Decreto republicano de 18 de Março de 1911: os doadores, o encanto e o desencanto do novo equipamento cultural, a camiliana (uma preocupação constante dos seus fundadores, destacando-se, inquestionavelmente, Sousa Fernandes) e o fundo inicial, o qual é invulgar a sua existências nas Bibliotecas. No terceiro capítulo, “O Ideologismo da Leitura (1926-1974), foca-se a ideia da Biblioteca-Museu nos primórdios do Estado Novo, a polémica entre 1942 a 1949 sobre as instalações, a falta de aquisição de documentação para enriquecimento do fundo inicial, etc., a Biblioteca Itinerante n.º 8 e a 114.ª Biblioteca Fixa da Gulbenkian (serviços que vieram revolucionar a leitura pública em V. N. de Famalicão face à apatia da Biblioteca Municipal), a inauguração do novo espaço físico em 1961, as doações de Nuno Simões e a de Vasco de Carvalho e o Ciclo do Luso-Brasileirismo. Ao fazer-se referência à Biblioteca da Fundação Cupertino de Miranda, tal deve-se ao facto do deslumbramento que esta então causou na comunidade famalicense, provocando, pela primeira vez, em 1972, a ideia de um edifício de raíz para a Biblioteca Municipal. Tal só iria acontecer no pós-25 de Abril, o que é contado no quarto capítulo, “A Leitura Pública em Liberdade”, reflectindo os primeiros anos de reorganização da Biblioteca, realça-se a importância do Fundo Local, focam-se as doações contemporâneas, as actividades para a promoção do livro e da leitura, retrata-se a Secção Infantil e Juvenil, a Rede de Bibliotecas Escolares do Concelho de V. N. de Famalicão (na qual somos pioneiros) e da Rede Municipal de Leitura Pública. Finalmente, o quinto e último capítulo, “Dicionário de Personalidades”, reflecte as personalidades que, de uma forma ou de outra, estiveram ligadas à Biblioteca ou sobre ela escreveram.
Notando-se ultimamente a dinâmica da Rede Municipal de Leitura Pública com a reinauguração do polo de Joane-Biblioteca Dr. Bernardino Machado (num esforço do município para o desenvolvimento das populações locais) em Setembro último, no Complexo Desportivo Municipal da Vila de Joane, a apresentação do projecto da ampliação arquitectónica do Arq.º João Marta, ou a inauguração da Livraria Municipal na Casa do Território-Parque da Devesa, têm sido actividades que, para além de outras, incorporadas no âmbito do Centenário da Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco, reforçam, cada vez mais, a importância do mesmo equipamento cultural no seu contexto social, educacional e cultural para o desenvolvimento da comunidade à qual pertence.

 

 

sábado, 9 de novembro de 2013

Bento de Jesus Caraça: "o último pedagogo como pedagogo"


No âmbito do Ciclo de Conferências “Pedagogia e Pedagogos em Portugal”, numa organização da Câmara Municipal de V. N, de Famalicão com o Museu Bernardino Machado, realizou-se na última Sexta-Feira, dia 8 de Novembro, no respectivo Museu, a conferência do Prof. Luís Crespo Andrade, com o título “Pedagogia e Emancipação nos Escritos e na Actividade de Bento de Jesus Caraça”. Defendendo a ideia que anda à volta de Bento de Jesus Caraça como sendo o “último pedagogo como pedagogo”, o Prof. Luís Crespo Andrade evocou dois mundos em que o autor de “A Cultura Integral do Indivíduo” andou situado: o primeiro mundo diz respeito ao mundo da oposição revolucionária, com laivos ainda de republicanismo e de libertanismo; e um segundo mundo, este já num contexto de afirmação marxista. Na conciliação intelectual e pedagógica de ambos estes mundos, Bento de Jesus Caraça promove a educação para a ordem civilizacional, para o exercício do bem comum e para a promoção do associativismo livre entre as pessoas, estando nestes princípios a emancipação da educação popular. A matriz pedagógica de Bento de Jesus Caraça será desenvolvida na Universidade Popular e na “Biblioteca Cosmos”, anunciando o Prof. Luís Crespo de Andrade o fundamento antropológico e teórico: o ser humano é aperfeiçoável através da cultura, na medida em que a cultura é um meio e um fim para o seu aperfeiçoamento. A cultura surge, desta forma, em Bento de Jesus Caraça como uma formação própria para a vida dos cidadãos, sendo um instrumento decisivo para a sua transformação. Tal visão, será encontrada precisamente perante o papel da Escola Única, na qual seja permitida uma ramificação de conhecimentos para uma cidadania mais plena.





quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Bento de Jesus Caraça

O próximo convidado do Ciclo de Conferências “Pedagogos e Pedagogia em Portugal”, uma organização da Câmara Municipal de V. N. de Famalicão em colaboração com o Museu Bernardino Machado, é o professor Luís Andrade Crespo, o qual vai proferir a conferência “Pedagogia e Emancipação nos Escritos e na Actividade de Bento de Jesus Caraça”. Professor Auxiliar do Departamento de Filosofia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Luís Andrade Crespo é Doutor em História e Teoria das Ideias (especialidade das Ideias Políticas) pela Universidade Nova de Lisboa. A investigação do Prof. Luís Andrade Crespo, entre outras áreas científicas e de interesse, tem-se dirigido para a História do Pensamento Português Contemporâneo, tendo, neste âmbito, já publicado “Planetário Utópico e Cultura Integral: aspectos do discurso utópico português contemporâneo” (1990); “Sol Nascente: da cultura republicana e anarquista ao neo-realismo” (2007) e “Intelectuais, Utopia e Comunismo: a inscrição do marxismo na cultura portuguesa” (2010).
A conferência, que se realiza no próximo dia 8 de Novembro de 2013, pelas 21h30, no Museu Bernardino Machado, tem entrada livre, obtendo os presentes o certificado de presença. Recorde-se que este Ciclo de Conferências encontra-se acreditado pelo Centro de Formação Científica/Educadores de Infância e Professores do Ensino Básico e Secundário.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Encontros de Outono 2013

ENCONTROS DE OUTONO 2013
VIOLÊNCIA E PODER POLÍTICO

Os XVI Encontros de Outono de 2013, numa organização da Câmara Municipal de V. N. de Famalicão em colaboração com o Museu Bernardino Machado, têm, este ano, como temática “Violência e Poder Político: 1910-1974”. Os Encontros de Outono de 2013 realizar-se-ão uma vez mais na Casa das Artes, em V. N. de Famalicão, nos dias 22 e 23 de Novembro, tendo na sessão de abertura o Presidente da Câmara Municipal de V. N. de Famalicão, Dr. Paulo Cunha, e o Coordenador Científico do Museu Bernardino Machado, Prof. Doutor Norberto Cunha, com a presença de Fernando Rosas, Fernando Catroga, Ernesto Castro Leal, Luís Farinha, General Pezarat Correia, entre outros. Enquanto que no primeiro dia, na conferência inaugural, teremos Fernando Catroga (“Violência e História”), António Matos Ferreira (“A violência anticlerical da I República: conflitos e legitimidades”), Miguel Dias Santos (“Ó Liberdade, quantos crimes se cometem em teu nome”), Paulo Guimarães (“A violência nas relações entre o operariado e o poder político republicano (1910-1926), Miguel Nunes Ramalho (“A violência sidonista”), António José Queirós (“A violência política na década de 20”), Ernesto Castro Leal (“Militares e violência política em perspectiva comparada: a singularidade do 18 de Abril de 1925) e Irene Pimentel (“A repressão salazarista: da institucionalização à acção”), por seu turno, no segundo dia, teremos Fernando Rosas (“A violência no regime salazarista”), Luís Farinha (“Ditadura Militar e violência política: depuração e repressão da resistência republicana reviralhista (1926-1933)”, João Madeira (“Violência e repressão em meio operário durante o Estado Novo”) e, finalmente, o General Pezarat Correia (“A violência política: do 25 de Abril de 1974 ao 25 de Novembro de 1975”). Recorde-se que os Encontros de Outono já se realizam desde 1988, nos quais já se debateram temas como “A Agricultura Portuguesa”, “A I República nos Municípios Portugueses”, “As Eleições”, “A Guerra e a Paz entre as Nações”, “Exílio e Exilados Políticos”, “Pedagogia e Educação em Portugal”, “A Igreja e o Estado em Portugal”, entre outras temáticas. Para mais informações http://www.bernardinomachado.org.