sexta-feira, 10 de maio de 2013

Bernardino Machado - "Obras: Política-III"


Numa organização da Câmara Municipal de V. N. de Famalicão e em colaboração com o Museu Bernardino Machado, assim como com as Edições Húmus, a apresentação do III Tomo da Obra Política de Bernardino Machado realiza-se no próximo dia 18 de Maio (Dia e Noite Internacional dos Museus), pelas 17h00, a cargo de Jorge Fernandes Alves, no referido Museu, em V. N. de Famalicão. A entrada é livre.
O período que abrange o referido Tomo (1910-1914) corresponde a três momentos distintos do percurso político de Bernardino Machado: a) a sua acção ministerial no Governo Provisório como Ministro dos Negócios Estrangeiros e a sua participação nas constituintes; b) da sua malograda candidatura à presidência da República, passando pela sua acção como senador da República (em meados de 1912) e, finalmente, c) a sua estadia oficial no Brasil, como Ministro e Embaixador de Portugal (já que foi Bernardino Machado que fundou e inaugurou a respectiva embaixada), até ao seu regresso a Portugal no início de 1914.
O primeiro destes períodos é de grande euforia, correspondendo à realização do programa do Governo Provisório, no qual se empenha entusiasticamente, convicto de que as medidas a ser implantadas não só correspondem às promessas do Partido Republicano Português na oposição, como se identificam com a opinião pública e as aspirações populares; o 2.º período é o da sua deliberada marginalização política pelo “Bloco” do poder, que procuram desacreditá-lo, moralmente, enquanto Ministro dos Negócios Estrangeiros (através do caso “Batalha Reis”), mas também minimizar a sua acção no tempo da propaganda republicana, corresponde o 3.º período à sua estadia oficial no Brasil, cujo regresso a Portugal acabará por traduzir numa vitória triunfal sobre os seus inimigos, ao ser convidado, por Manuel de Arriaga, para formar governo.
Com introdução e e notas de Norberto Ferreira da Cunha, o III Tomo da Obra Política de Bernardino Machado é constituído por textos retirados da imprensa portuguesa e brasileira, incluindo apenas uma brochura, o relatório que Bernardino Machado apresentou à Assembleia Nacional Constituinte em 1911, enquanto Ministro dos Negócios Estrangeiros. Da imprensa portuguesa, destaca-se “O Mundo”, ao lado de periódicos como “O Século”, “A Pátria”, o “Diário da Assembleia Nacional Constituinte” e do “Diário do Senado”, enquanto da imprensa brasileira (fazendo parte do acervo documental do arquivo de imprensa do Museu), temos textos retirados de títulos como “Portugal Moderno”, “O País”, “A Noite”, a “Gazeta da Tarde”, a “Folha do Dia”, do “Jornal do Comércio” e do “Correio da Noite”.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Edição Municipal em Debate na Póvoa de Varzim

 
O caríssimo Amigo Dr. Manuel Costa, Director da Biblioteca Municipal Rocha Peixoto, teve a amabilidade de me enviar estas fotografias do Colóquio "Edição Municipal: percursos e desafios" e um texto de reflexão do que então se passou na referida instituição. Fica aqui o registo.
 
 

João Torrão e Luís Diamantino



A Biblioteca Municipal Rocha Peixoto acolheu, ontem à tarde (dia 7 de Maio, iniciando-se os trabalhos às 14h30), o Colóquio Edição Municipal: percursos e desafios. Na Sessão de abertura, Luís Diamantino, Vereador da Cultura do Município poveiro, reconheceu que as autarquias foram uma grande alavanca em relação ao percurso editorial. “As Câmaras Municipais têm assumido um corpo editorial muito alargado que não se confina à temática territorial mas é muito mais abrangente”, constatou o autarca. O Vereador assumiu que “temos que ser muito seletivos naquilo que apoiamos, não do ponto de vista político mas técnico”. Neste sentido, referiu que “a partir de determinada altura entendemos que era necessário criar uma linha gráfica e assim nasceu a marca “Biblioteca Poveira – Na linha do horizonte”. Neste momento, qualquer um consegue identificar a nossa coleção”, reconheceu. Para Luís Diamantino, o município tem um importante papel na memória coletiva e compreensão da comunidade. João Torrão, Diretor do Mestrado em Estudos Editoriais da Universidade de Aveiro, referiu-se à parceria com o município poveiro na organização deste colóquio com o objetivo de promover a partilha de experiências relevantes e suscitar uma reflexão profícua entre profissionais, decisores e investigadores de diversas áreas, interessados em debater esta vertente das políticas culturais municipais.

 
Da esq. para a dir.: Margarida Moleiro, Alexandra Isidro, Henrique Barreto Nunes, Artur Sá da Costa e Manuel Costa.


O colóquio dividiu-se em dois painéis, sendo que o primeiro, intitulado Edição Municipal e Cultura Local e moderado por Henrique Barreto Nunes (Universidade do Minho), reuniu vários profissionais da edição local convidados que se referiram ao percurso da atividade editorial de diversos municípios. Deste modo foi possível constatar o trabalho desenvolvido em Vila Nova de Famalicão, Mafra, Guarda, Torres Novas e na Póvoa de Varzim no campo editorial. Desafios da Edição Municipal na atualidade deu mote ao segundo painel, moderado por Teresa Cortez (Universidade de Aveiro), e que contou com a presença de decisores de alguns municípios com uma significativa atividade editorial. Luís Diamantino (Vereador da Cultura da Póvoa de Varzim), Fernando Rocha (Vereador da Cultura de Matosinhos), Alexandra Isidro (Município da Guarda) e David Vieira (Município de Óbidos) refletiram sobre o futuro da edição municipal, tendo presente o contexto atual, marcado simultaneamente por constrangimentos orçamentais e pelo aumento da informação em formato digital.

 
Da esq. para a dir.: David Vieira, Alexandra Isidro, Teresa Cortez, Fernando Rocha e Luís Diamantino

Dia e Noite Internacional dos Museus - Museu Bernardino Machado


O Dia e a Noite Internacional dos Museus, que este ano coincide com o 18 de Maio, tem como tema geral: “Memória+Criatividade=Mudança Social”. Em V. N. de Famalicão, a Rede Museológica Municipal irá comemorar no dia 18 de Maio o Dia Internacional dos Museus e a 19 de Maio a Noite Internacional dos Museus com várias actividades.
No Museu Bernardino Machado, o Dia Internacional dos Museus será evocado com a apresentação pública do 3.º Tomo do 3.º Volume das “Obras” de Bernardino Machado, coordenadas por Norberto Ferreira da Cunha (coordenador científico do respectivo Museu). A apresentação encontra-se a cargo de Jorge Fernandes Alves, Professor Catedrático do Departamento de História e de Estudos Políticos e Internacionais da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, docente na área de História Contemporânea. Os seus trabalhos de investigação têm abordado temas como as migrações, as empresas e os empresários, a indústria, as questões portuárias, educação, política, debruçando-se igualmente sobre alguns autores, como é o caso de Rodrigues de Freitas. Muitos dos seus trabalhos encontram-se publicados em revistas da especialidade, tais como, entre outros títulos, “Revista de História”, “Revista da Faculdade e Letras”, “Análise Social”, “História das Ideias”, “Revista Portuguesa de História, o mesmo acontecendo em publicações dos Estados Unidos, no Brasil, na Espanha ou na Itália.



Com uma tese de Mestrado com o título “Uma Comunidade Rural do Vale do Ave – S. Tiago de Bougado (1650-1849)”, publicou (tendo colaborado em obras colectivas, como tem sido editor e organizador de outras), “Os Brasileiros – Emigração e Retorno no Porto Oitocentista” (1994), “José Vitorino Damásio e a Telegrafia Eléctrica em Portugal” (1995), “O Furacão Delgado” (1998), “Indústria da Pasta de Papel em Portugal – o grupo Portucel” (2001), “Os Transportes Colectivos do Porto” (2001), “A Universidade da República, a República na Universidade (2012), entre outros.
Com V. N. de Famalicão, não e a primeira vez que Jorge Alves colabora com o Museu Bernardino Machado. Para além de se encontrar na génese dos “Encontros de Outono”, Jorge Alves organizou em 1998 o colóquio “Os Brasileiros da Emigração” e participaria nos de 2010 e de 2011. Para além desta colaboração com o Museu Bernardino Machado, já colaborou com o Museu da Indústria Têxtil da Bacia do Ave, publicando “Fiar e Tecer – uma perspectiva histórica da indústria têxtil a partir do Vale do Ave” (1999) e “Riba d`Ave na Memória da Indústria Algodoeira”, publicando em 2002 “Riopele: história de uma referência têxtil”.
A apresentação do 3.º Tomo do III Volume das “Obras” de Bernardino Machado terá início às 17h00 e a entrada é livre.






A Noite Internacional dos Museus irá acontecer no Museu Bernardino Machado no dia 19 de Maio com a actividade “Há Fado no Museu”, com início às 22h00 e a entrada é livre.
Terá a presença de fadistas como Joaquim Macedo (tem participado em espectáculos em vários países do estrangeiros, especialmente nas comunidades portuguesas, e em Portugal e já publicou “os álbuns “Tudo Isto É Fado” e “Cumplicidades”, preparando o terceiro para comemorar os seus 45 anos de actividade), Maria do Sameiro (para além da sua participação em festas de homenagem dedicadas a Carlos do Carmo, Amália e Cidália Moreira, esteve presente no elenco “Amália”, de Filipe La Féria, já publicou 8 álbuns e tem marcado a sua presença em vários países europeus e no Brasil, assim como tem estado presente em vários programas de Televisão), Lurdes Silva (canta no restaurante da Quinta da Cordiceira e considera o fado como “Prece, Pranto ou Pregão”), Sara Silva (ao lado da irmã, Lurdes Silva, anima as Noites de Fado no referido restaurante) e Zé Manel Fadista (tem actuado em Portugal e em vários países estrangeiros e no Brasil). Estes fadistas terão a acompanhá-los os músicos André Teixeira (viola), Filipe Teixeira (contrabaixo) e Miguel Amaral (guitarra).

terça-feira, 7 de maio de 2013

Edições Municipais


Hoje, na Biblioteca Municipal Rocha Peixoto, na Póvoa de Varzim, falou-se de edições municipais, com a presença de vários municípios portugueses, de norte a sul do país, trocando as suas experiências profissionais e editoriais. Fica aqui um ou outro momento do respectivo colóquio, com uma viagem pela Biblioteca Municipal Rocha Peixoto. Os participantes ainda tiveram a oferta de vários livros editados pelo município poveiro, podendo escolher à sua vontade. Para além de várias ideias partilhadas em tempo de crise, assim como as relações culturais face ao poder político, convém salientar o optimismo dos intervenientes. Lanço aqui uma vez mais a ideia do Dr. Henrique Barreto Nunes: o depósito legal local/municipal. O amigo Manuel Costa, director da Biblioteca Municipal Rocha Peixoto, está de parabéns, ficando aqui uma homenagem a Manuel Lopes.














domingo, 5 de maio de 2013

Edições Municipais - V. N. de Famalicão: uma aproximação

 
 
 
 
 
No próximo dia 7 de Maio, pelas 14h30, o Pelouro da Cultura do Município da Póvoa de Varzim e a Direcção do Mestrado em Estudos Editoriais da Universidade de Aveio vão realizar na Biblioteca Municipal Rocha Peixoto o Colóquio "Edição Municipal: percursos e desafios". Vila Nova de Famalicão irá marcar presença com Artur Sá da Costa, actual coordenador da Rede Municipal Museológica. Cito: "E, diga-se, esta dinâmica não foi um movimento espontâneo, e muito menos emergiu, ou se desenvolveu em simultâneo em todo o país. Foi preciso romper caminhos e antecipar soluções ao arrepio das atribuições legalmente consagradas." (Artur Sá da Costa - ""Livro municipal, o mal-amado das políticas culturais", 2008).
 
 
 

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Bernardino Machado e a Imprensa Famalicense 1907

 
O ano de 1907 é um ano riquíssimo a nível de acontecimentos na imprensa famalicense à volta de Bernardino Machado. Tudo começa sobre a sua vinda ao Porto, em homenagem a Heliodoro Salgado, para uma referência seguinte ao discurso "A Autópsia do Franquismo", radicalizando- se na revolta académica. De facto, através do jornal de Sousa Fernandes, "O Porvir", o órgão da Comissão Municipal do Partido Republicano de V. N. de Famalicão, que vai transcrevendo as notícias do jornal "A Voz Pública", assim como as breves notícias do "Estrela do Minho" a propósito da Homenagem de 1907, cuja comissão viu, num primeiro momento, ser proíbida pelo governo. A demissão de Bernardino Machado da Universidade de Coimbra marca o seu corolário: se a sua participação cívica era já então notável, tal atitude reforça-a indiscutivelmente (conforme se pode ver na caricatura do jornal "O Século") representando a sua filosofia kantiana. Mas em V. N. de Famalicão, o seu irmão, António Luís Machado Guimarães, 2.º Barão de Joane, homem forte do Partido Progressista local, tem um gesto de nobreza para com o seu irmão Bernardino: pede uma demissão temporária da presidência da Câmara Municipal (1905-1907), um mês antes da homenagem. A Câmara que a seguir toma posse, convidadapara a manifestação, recusa, considerando-se "monárquica e conservadora." Compreende-se o gesto!Indiscutivelmente, para o Dr. Manuel Sá Marques, com o meu abraço de fraterna amizade.
 
 
 
 
·         “Dr. Bernardino Machado”. In O Porvir. V. N. de Famalicão, Ano 3, n.º 150 (31 Jan. 1907), p. 3.
      Por notícia que lemos no Primeiro de Janeiro soubemos ter aqui estado segunda-feira, em rápida visita a seu irmão o sr. Barão de Joane, o ilustre caudilho republicano Dr. Bernardino Machado. / Segundo a mesma noticia o ilustre democrata que veio expressamente ao Porto para presidir a homenagem à memória de Heliodoro Salgado, terá regressado a Coimbra  nesse mesmo dia à noite.
·         “Verdadeiro”. In O Porvir. V. N. de Famalicão, Ano 3, n.º 147 (10 Jan. 1907). P. 2.
O devotado apóstolo da ideia republicana, o eminente catedrático dr. Bernardino Machado, na sua notável conferência realizada no Domingo passado, em Lisboa, na qual fez a autópsia do franquismo, teve uma frase que define bem o sr. João Franco e o gabinete actual: «Os homens que, segundo era voz pública, queriam entrar de chapéu na cabeça, no paço, organizam torneios em volta do rei, para lhe beijar humildemente a mão.» / Assim é. O sr. Franco, com o fim de captar as simpatias do povo, que já está farto de aturar os Messias monárquicos, acenou-lhe com promessas de liberdade, afirmando que estava arrependido a política que em outros tempos tinha feito. / O actual presidente do conselho, qual outro pecador arrependido da política que em outros tempos tinha feito. / O homem até teve o despejo de dizer no comício realizado no teatro Príncipe Real, onde – diga-se de passagem –, só teve ingresso quem foi portador de um bilhete intransmissível, que caçava no mesmo terreno dos republicanos. / Em vista destas formais declarações, houve ingénuos que acreditaram que o Partido Republicano estava morto em Portugal. / A desilusão não se fez esperar. / O sr. João Franco disse no parlamento que o rei tinha recebido ilegalmente adiantamentos; pois, agora, armou em Costa Pinto, promovendo manifestações em homenagem ao sr. D. Carlos. /Diz muito bem o sr. dr. Bernardino Machado: «Os homens que queriam entrar de chapéu na cabeça, no paço, organizam recepções para lhe beijar a mão.» / Ainda bem; o sr. João Franco está servindo à merveille o Partido Republicano. / Esta será, sem dúvida, a última experiência dentro dos partidos monárquicos.
 

 
·         “Coimbra em Revolta”. In O Porvir. V. N. de Famalicão, Ano 3, n.º 155 (6 Mar. 1907), p. 1.
O caso sensacional da última semana foi sem dúvida a atitude dos estudantes da Universidade em relação à injustiça de que foi vítima o Dr. José Eugénio Ferreira. / Este ilustre académico, estudante laureado da Faculdade de Direito, talento brilhante da actual geração universitária, foi unanimemente reprovado na sua tese de doutoramento. / Tratando-se de um espírito de ideias muito avançadas, insubmisso aos dogmas conservadores em qualquer dos campos político, religioso ou científico, desde logo se compreendeu que o acto da Faculdade de Direito, reprovando o Dr. Eugénio Ferreira, apenas obedeceu às preocupações mesquinhas de castigar um revoltado. / Assim o entendeu a academia, que do seu entusiasmo pela vítima passou à indignação contra os algozes, apupando estes na rua, apedrejando-lhes as casas, pondo-os numa pavorosa, de que alguns houveram por bem escapar-se… pela tangente da fuga. / O governo, sabedor do caso, providenciou logo pela forma mais paternal, mandando marchar sobre Coimbra cinco soldados e um cabo de cada regimento do nosso exército. E não bastando isto para que a hidra revolucionista se aplacasse, acabou por decretar o fechamento das aulas, ordenando à mocidade em revolta que em 24 horas abandonasse Coimbra! / Está muito bem, pelo que respeita à ordem pública, mas… queimar não é responder, como a Robespierre objectou Camille Desmoulins. O fechamento da Universidade não importa uma satisfação ao Dr. José Eugénio Ferreira. Como conta o governo remediar a injustiça de que foi vítima este ilustre académico?... / O busílis mais complicado do caso é este.

 
 
·         “A Questão Académica”. In O Porvir. V. N. de Famalicão, Ano 3, n.º 158 (28 Mar. 1907), p. 1.
Não vai muito encaminhada para uma solução conciliadora esta irritante questão que em má hora a Faculdade de Direito provocou.  / Muito ao invés do que há dias circulou por meio da imprensa oficiosa, talvez no propósito de se conseguir pelo embuste as boas graças da mocidade em revolta; muito ao invés das promessas de bom acolhimento que aos académicos foram feitas, a verdade é que a autoridade académica, certamente a isso instigada pelo governo, resolveu submeter a julgamento no foro universitário todos os estudantes considerados cabecilhas do movimento de protesto. / É manifesto por isto o descontentamento dos académicos, e de sobra o revelaram no comício que há dias celebraram no Porto, em repetidas reuniões da classe, e em artigos que têm dado a público na imprensa do Porto e Lisboa. / Não se pode bem prover o que sairá desta situação anormal entre professores e discípulos, convém, entretanto, notar que o caso não dá muito para previsões de fácil optimismo, atenta a solidariedade que os académicos de todo o país se prometem, e a simpática adesão que eles têm da opinião pública. / Ainda há última hora um facto deveras notável vem dar uma grande força às reivindicações académicas. É o caso do sr. dr. Bernardino Machado, indiscutível ornamento da cátedra universitária, haver declarado que não voltará a reger a sua cadeira na Faculdade de Filosofia desde que qualquer estudante seja riscado da Universidade por motivos da pendência em litígio. / Esta declaração, que sobremaneira honra o ilustre catedrático, pode materialmente não ter o peso da espada de Brennus em favor da causa dos estudantes, mas tem um alcance moral que iliba estes de toda a pecha com que lhes queiram macular a razão e justiça das reclamações porque lutam. / E isto já é muito, embora possa parecer pouco a frívolos e superficiais conceitos
 
·         “Dr. Bernardino Machado”. In O Porvir. V. N. de Famalicão, Ano 3, n.º 158 (28 Mar. 1907), p. 2.
Transcrevemos da «Voz Pública», de ontem, esta notícia referente á honrosa declaração feita por este nosso eminente correligionário a propósito do incidente académico: / «O sr. dr. Bernardino Machado, catedrático da Universidade, anteontem á tarde, na sessão solene e inauguração do Centro Eleitoral de Belém, de Lisboa, protestou contra os processos universitários, sustentando que, se houve desmandos lastimáveis contra quaisquer lentes, devem ser submetidos aos tribunais comuns. E, quanto às reivindicações liberais da academia, afirmou estar inteiramente com ela, não admitindo que o governo pretenda, como disse o ministro das obras públicas, obriga-la a voltar à normalidade para só depois lhe fazer justiça, quando o seu dever é, pelo contrário, começar de pronto a dar-lhe a justa satisfação para que ela volte confiadamente aos seus estudos, e declarou categoricamente que, em consequência da sua nobre solidariedade colectiva nas reivindicações liberais – porque ele tem pugnado sempre e que com ele tantos dos seus colegas julgam absolutamente imprescindíveis e urgentes, para o progresso do ensino e para as boas relações entre professores e alunos se algum dos estudantes for, como caudilho desse honroso movimento, expulso das aulas por um arcaico e falso critério disciplinar, ele as considerará também para si fechadas.» / Para ser amado e querido no país, não precisava o ilustre caudilho republicano dar novas provas da sua bondade e do seu espírito de justiça. Se precisasse, bastava este acto de generosa solidariedade com os académicos perseguidos para lhe conquistar o culto da opinião pública. / Este facto importa pouco para nós, motivo de uma dupla satisfação – porque honra o nobilíssimo carácter do dr. Bernardino Machado e honra a causa que o tem por fervoroso adepto e infatigável missionário.
·         “A Questão Académica”. In O Porvir. V. N. de Famalicão, Ano 3, n.º 159 (4 Abr. 1907), p. 1.
      A decisão que esta questão acaba de ter em Coimbra, por parte do foro académico, deixa-nos fundados receios de que não esteja nesse julgamento do conselho de decanos o último acto do agitado incidente. / Afigura-se-nos que a sentença proferida é violenta de mais para que não desperte o irritado protesto das vítimas, e daqui a apreensão em que ficamos pelos acontecimentos que o dia de amanhã nos possa trazer. / Imaginemos, porém, que tudo correrá pelo melhor, dissolvendo-se pela crueldade e pelo terror a dissidente atitude da mocidade das escolas – e certo é que ainda depois deste resultado em evidência, nos parecerá que o conselho de decanos não andou bem em socorrer-se de um tal rigorismo inquisitorial para fins que por mais humanos e justos processos também podia conseguir. / Reduzir pela violência, ainda que com favorável sucesso, é sempre deprimir o carácter da vítima, abatendo-lhe a sujeição humilhante dos seres inferiores, e tão rara vai sendo entre nós a altivez de carácter que foi apanágio de antigos portugueses, que habituar a semelhantes práticas a mocidade que será a geração dirigente de amanhã, é sem dúvida prestar um desserviço à nossa comunhão nacional. / A sentença proferida pelo foro académico de Coimbra funda-se na legislação de dois decretos que datam, um de 1839 e outro 1844! / Não admira, pois, que com uma legislação cuja origem quase se radica no tempo de Pina Manique, os decanos da Universidade promulguem sentenças que ressudam cruezas de Torquemada.
António Luís Machado Guimarães
 
·         “O Caso Complica-se”. In O Porvir. V. N. de Famalicão, Ano 3, n.º 159 (4 Abr. 1907), p. 1.
     As cartas que acabam de trocar-se entre o reitor da Universidade e o sr. dr. Bernardino Machado, lente da Faculdade de Filosofia, justificam o pessimismo com que estamos vendo os acontecimentos de Coimbra, como em outra parte manifestamos. / Não nos parece que as nuvens negras que se vão condensando no horizonte, deixem de dar borrasca mais dia menos dia, mas como é certo que Deus dementa aqueles que quer perder, deixemos entregues à sua sorte os que de ouvidos cerrados aos concelhos da razão persistem em provocar o leão que dorme. / Registemos, então, as duas cartas a que aludimos, por que elas representam um bom subsídio para a história destes dias de cómicas provocações por parte dos homens que mandam e que de pachorrentos e medrosos Sanchos Panças se querem dar às pimponices de D. Quixote.
     Il.mo  Ex.mo Sr. Queira V. Ex.ª declarar-me com urgência se é ou não verdade ter V. Ex.ª proferido publicamente, na sessão de 25 do corrente, do Centro Republicano Escolar de Belém as expressões que lhe são atribuídas no jornal «O Século», n.º 9071, de 26 deste mês, nos termos seguintes: (Segue a transcrição). / De V. Ex.ª, Paço das Escolas, em 30 de Março de 1907. Il.mo e Ex.mo Sr. Conelheiro Dr. Bernardino Luís Machado Guimarães, Lente Catedrático da Faculdade de Filosofia. (a) O reitor António dos Santos Viegas. / O sr. conselheiro Bernardino Machado respondeu nos seguintes termos: / Il.mo e Ex.mo Sr. Surpreende-me o ofício de V. Ex.ª. Então eu preciso ainda de dar provas da minha cordialidade para com todos, grandes ou pequenos, mestres ou discípulos? E é V. Ex.ª que ma põe em dúvida, V. Ex.ª que, num lance crítico da sua vida universitária, quase só com a minha consideração pública se encontrou! Tenho bem o direito de lho recordar, não por mim, mas por V. Ex.ª / Compreende-se que V. Ex.ª, apesar de todo o meu claro passado, levasse o zelo da sua estima pelo meu bom nome ao ponto de chamar a atenção para quaisquer palavras destoantes que algum jornal me atribuísse. Era dum colega e dum reitor. Mas intimar-me a dar-lhe explicações por elas! V. Ex.ª não pensou, decerto, que se dirigia ao / De V. Ex.ª sempre att.º ven. Bernardiono Machado, Lisboa, 1-4-1907.
·         “Dr. Bernardino Machado”. In O Porvir. V. N. de Famalicão, Ano 3, n.º 160 (11 Abr. 1907), p. 1.
A conferência que o dr. Bernardino Machado fez domingo passado no Centro Eleitoral Republicano, em Lisboa, é a todos os títulos uma peça oratória que honra o ilustre membro do Directório Republicano. / Tomando a disciplina para tema da sua prelecção, o sábio catedrático abordou com magistral perícia duas questões da actualidade que com especial propriedade se adaptavam ao enunciado da sua tese: o caso Homem Cristo nas suas actuais relações com a hierarquia militar e o conflito académico na sua dependência do obsoleto foro universitário. / E tão bem, com tanto critério e justiça expôs e julgou a moralidade destes dois casos, que só nos resta pena de não dispormos de espaço para fazer o que fizeram muitos jornais de Lisboa: para publicar quase na íntegra a notabilíssima conferência do nosso eminente correligionário.
 
 
·         “Dr. Bernardino Machado”. In O Porvir. V. N. de Famalicão, Ano 3, n.º 160 (11 Abr. 1907), p. 2.
Pretendendo hostilizá-lo, amargurar-lhe o espírito, desmerecê-lo aos olhos do país, o governo mandou que os seus três jornais abrissem agressiva arremetida contra o dr. Bernardino Machado, e à arcaica e inquisitorial justiça universitária ordenou por igual que metesse em processo o catedrático ilustre. / Pois a conhecida macaca do chefe do governo ainda aqui se revelou por uma forma inequívoca. É que a perseguição da moralidade triunfante só conseguiu pôr o ilustre caudilho republicano em mais simpática evidência, e dar-lhe dias alegres e felizes por ver-se aplaudido pela opinião pública à conta da sua nobre atitude na questão do dia – na questão académica. / Excepção feita dos jornais franquistas – três apenas! – toda a imprensa da capital se tem ocupado, com os mais rasgados encómios, do nosso eminente correligionário, sendo, sobretudo, para notar, por virem de jornal que não é republicano, uns magníficos artigos de fundo sobre a superior individualidade do dr. Bernardino Machado publicou «O Século». /  Mas nem só a voz da imprensa se tem manifestado neste concerto apologético. / Domingo, em plena avenida, quando a enorme multidão, ali reunida para assistir ao enunciado comício dos estudantes, lobrigou o nosso prezado correligionário, fez-lhe uma das mais vibrantes ovações a que se tem assistido em Lisboa. Foi uma repetição do que se deu com Afonso Costa na praça de touros do Campo pequeno! / E porquê isto?  / Por uma coisa aparentemente muito simples. / O dr. Bernardino Machado disse uma vez: «Se algum dos estudantes for, como caudilho desse honroso movimento, expulso das aulas por um arcaico e falso critério disciplinar, eu considerá-las-ei também fechadas para mim…» / Foram expulsos alguns estudantes e o lente que pronunciou aquelas palavras cumpriu honradamente a sua palavra, colocando-se ao lado deles. O governo, irritado, persegue e acusa o lente; o povo, o país todo, revolta-se contra este regime de ineptos e maus que para aí estão a tripudiar loucamente, e saúda com efusão o homem de carácter ileso que se sacrifica pela sua palavra, pelas suas opiniões e pelo seu amor aos perseguidos. / E aqui está para o que deu, neste caso, o caiporismo do governo franquista: fez um herói onde queria fazer uma vítima, promoveu uma apoteose para quem só um castigo destinava! / Já é não ter sorte.
·         “Dr. Bernardino Machado”. In O Porvir. V. N. de Famalicão, Ano 3, n.º 161 (18 Abr. 1907), p. 2.
      A «Voz Pública» de hoje trouxe-nos esta notícia: / «O sr. dr. Bernardino Machado acaba de dirigir a reitoria da Universidade, um ofício apresentando a sua demissão de Lente da Faculdade de Filosofia.». No seu laconismo, esta notícia pode passar desapercebido para os espíritos menos cultos ou para aqueles que não dispõem das mais elementares faculdades de ponderação; o caso, porém, é digno de nota para todos aqueles que se interessam pelo ressurgimento da pátria portuguesa. / A Universidade de Coimbra acaba de sofrer uma perda irreparável, não só porque perdeu um dos seus mais abalizados professores mas principalmente porque perdeu o seu primeiro educador. /  Com efeito, sob este ponto de vista, o Dr. Bernardino Machado é insubstituível. /  Só quem não dispõe de elementos para comparar a educação de países como a França, a Alemanha e a Inglaterra com a educação do nosso país e que não compreende o alto valor de Bernardino Machado, como educador. / A verdade é que além de sermos um povo ignorante, somos um povo mal-educado. / Lamentamos aqueles que não compreendem isto.
 
·         “D`esta vez não mentiu”. In O Porvir. V. N. de Famalicão, Ano 3, n.º 161 (18 Abr. 1907), p. 2.
Do nosso colega «A Voz Pública», extratamos o seguinte, que, comparado com as apreciações que o franquismo actualmente faz ao nosso eminente correligionário Bernardino Machado, deixa margem para se fazerem àquele grupelho monárquico certas considerações que não são de molde a lisonjear ninguém que se prese. / Tem a palavra «A Voz Pública»: / Há um ano apenas – Março de 1906 – ao tempo em que a moralidade triunfante, ávida, doidamente raivosa do poder, exercia junto da coroa a mais torpe chantagem para o alcançar, dizia o órgão do sr. João Franco o seguinte: / O sr. Bernardino Machado tem hoje, supomos, mais de cinquenta anos; foi ministro coroa; professor na primeira escola do seu país; é um estudioso e um erudito, com notoriedade que galgou as nossas fronteiras. Como homem, estamos certos de poder afirmar que nunca vimos outros mais e inalterável e perfeitamente bem educado; como político, conhecemos poucos que possam gabar-se de ver tão ponderados e tão serenos; como carácter, ninguém pode negar, por muito que discorde das suas ideias e aspirações políticas, que possui, e merece, a estima e o respeito geral. / Leram? / Pois agora, na opinião do órgão franquista, não há defeito que o sr. dr. Bernardino Machado não tenha. / Em vista disto, perguntámos nós: que autoridade moral têm as folhas franquistas para condear o nosso eminente correligionário? / O que vale é que o País já conhece o sr. dr. Bernardino Machado e não são os jornais franquistas que hão-de demolir a sólida reputação moral de tão insigne cidadão, que é uma das mais lídimas glórias nacionais. / Ainda que isso pese a muita gente!
 
 

·         “Dr. Bernardino Machado”. In Estrela do Minho. V. N. de Famalicão, Ano 12, n.º 620 (7 Jul. 1907), p. 2.
Em Lisboa vai ser prestada, no dia 28 deste mês, uma grande homenagem ao distinto catedrático e lídimo carácter, sr. dr. Bernardino Machado, irmão do nosso amigo sr. Barão de Joane. / Tudo merece o insigne homem de ciência e paladino máximo da instrução em Portugal. / Por isso a essa homenagem nos associámos entusiasticamente.
·         “Homenagem a Bernardino Machado”. In Estrela do Minho, Ano 12, n.º 622 (2 Jul. 1907), p. 3.
      O governo proibiu a grandiosa manifestação pública de simpatia ao eminente pedagogo da democracia e ilustre propulsor da instrução e da educação cívica em Portugal. / Mas apesar da anunciada proibição, a comissão organizadora pensa em resistir a essa ordem, não desistindo de pôr na rua o cortejo com que se pretende celebrar as nobres e elevadas qualidades do cidadão prestantíssimo que tanto tem trabalhado pela causa da elevação moral do nosso povo. / A nossa câmara solicitada para fazer-se representar nesta homenagem respondeu de modo seguinte: / «Atendendo a que esta câmara é conservadora e monárquica, deplorando em vez de louvar, as pessoas que se salientaram no conflito académico, resolve responder que não adere à manifestação em honra do republicano sr. Bernardino Machado», o que foi aprovado por unanimidade.
·         “Dr. Bernardino Machado”. In Estrela do Minho. V. N. de Famalicão, Ano 13, n.º 623 (4 Ago. 1907), p. 1.
A homenagem prestada ao distintíssimo homem de ciência e grande homem de bem, sr. dr. Bernardino Machado, causou nesta vila grande contentamento. / Como se sabe, Famalicão orgulha-se de ter sido berço do ilustre antigo ornamento da nossa Universidade, que tem em cada famalicense um admirador entusiasta pelo seu carácter aliado a uma das intelectualidades mais em destaque do nosso país.
 
 
 

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Camilo por Braga


O I Encontro de Autores do Minho, que vai decorrer nos próximos dias 3 (com início às 9h30) e 4 de Maio (10h00) no Auditório da Escola Sá de Miranda (Braga), é dedicado este ano a Camilo Castelo Branco. Contando com a participação de várias escolas (nomeadamente Alberto Sampaio, D. Maria II e Maximinos), a organização do I Encontro de Autores do Minho encontra-se a cargo da Biblioteca Escolar da Escola Sá de Miranda, com a colaboração especial da Casa-Museu Camilo-Centro de Estudos Camilianos (S. Miguel de Seide, V. N. de Famalicão). Será, particularmente, um encontro dedicado a Camilo Castelo Branco, tendo como objectivo não só homenagear Camilo, como igualmente divulgar e promover a sua obra literária. Enquanto que no dia 3 de Maio, para além do passeio camiliano pela quinta da escola e a visita às exposições “Mulheres de Camilo” e os “Retratos e Caricaturas de Camilo”, terá a participação de José Manuel de Oliveira (coordenador da Casa-Museu de Camilo-Centro de Estudos Camilianos) e de Luísa Alvim (da referida instituição), de João Paulo Braga, que falará de “Em Braga, com Camilo: para um roteiro camiliano de Braga”, e de Sérgio Sousa, com a comunicação “A Importância de se Ler Camilo”. Finalmente, consta do programa, no primeiro dia, uma apresentação de pequenas dramatizações pelos alunos das escolas envolvidas. Por seu turno, no dia 4 de Maio, com a partida da Escola Sá de Miranda pelas 10h00, realizar-se-á o percurso camiliano pela cidade de Braga, com a orientação de João Paulo Braga. Haverá uma distribuição de textos de Camilo pelos participantes no percurso camiliano, retirados de livros como “Novelas do Minho”, “O Santo da Montanha”, “De Porto a Braga”, “Ecos Humorísticos do Minho”, Senhor Ministro”, entre outros.