segunda-feira, 9 de junho de 2014

José de Macedo, O Confederalista


Prof. Ernesto Castro Leal e Prof. Norberto Ferreira da Cunha



No dia 6 de Junho, pelas 21h30, no Museu Bernardino Machado, realizou-se mais uma conferência do ciclo de conferências “Ideias e Práticas do Colonialismo Português”. O conferencista convidado foi o Professor Ernesto Castro Leal, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que proferiu a conferência “A Ideia Colonial em José de Macedo”. Considerando inicialmente que José de Macedo é uma figura enigmática e muito importante para a história das ideias, salientou que a sua biografia é fragmentada é com alguns erros. Em 1896, ano em que termina o Curso de Comércio, José de Macedo já pertence a uma organização académica que tinha a intenção de realizar um movimento revolucionário. Sempre ligado às cooperativas de consumo, José de Macedo cria em Gaia “União e Trabalho” e em 1898 publica a “Socialização do Ensino”, focando a descentralização do ensino primário e fortemente influenciado por Bernardino Machado, e “O Cooperativismo”, numa base de pensamento de socialista reformista, sentido que terá sempre para as cooperativas coloniais. No Congresso Colonial de 1901 fala sobre “As Nossa Riquezas Coloniais” e em 1910 publica “A Autonomia de Angola”. Antes de 1910, e já em Angola, dirige o jornal “A Defesa de Angola”, e ainda na metrópole com “A Luta” pretendia a concentração democrática. O Prof. Castro Leal focou que a elite maçónica republicana de Angola defendia uma autonomia progressiva para a colónia e que José de Macedo, um livre-pensador e um radical anticlerical, considerava que as políticas monárquicas para as colónias eram descentralistas e em 1903 é afastado da direcção do jornal “A Defesa de Angola”, devido ao que defendeu no texto “Contractos Serviçais em Angola”. Será em Angola que José de Macedo entra na Maçonaria com o nome simbólico de Benoit Malon, estando já em 1907 na Loja Solidariedade de Lisboa, fundada em 1906 por Magalhães Lima, que considerava o seu pai espiritual. Para além de Magalhães Lima, José de Macedo será influenciado por pensadores como Alexis Tocqueville ou Benoit Malon. Considerando que José de Macedo achava que a corrente dominante era a descentralista, havendo expressões centralistas, a proposta de José de Macedo era uma proposta gradualista, explorando as ideias da reforma colonial de Júlio Vilhena e de Aires de Ornelas. José de Macedo defendia três estados (Luanda, Benguela e Moçâmedes) a fundar numa confederação, rejeitando e criticando o modelo centralista francês e preferindo o modelo colonial inglês, projectando uma descentralização administrativa e financeira para uma progressiva autonomia nativista. A independência só aparece em caso de não se desenvolver a autonomia. Contra a proposta de alienação das colónias de Oliveira Martins, José de Macedo ao defender o regime confederalista para a colónia de Angola, o poder delegava-se aos estados. Desiludido com os socialistas e nunca se iludindo com os republicanos, José de Macedo será o “intelectual orgânico da República”, na expressão de Gramsci que o Prof. Castro Leal usou para caracterizar José de Macedo na I República.
O Prof. Castro Leal ofereceu ao Museu Bernardino Machado a revista do Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, cuja publicação se efetua desde 2010, sendo o seu respetivo coordenador. Em 2010 o tema foi “Republicanismo, Socialismo e Democracia”, em 2011 “República e Liberdade”, 2012 “Monarquia e República”, 2013 “Liberalismo e Antiliberalismo” e o número de 2014 “Pátria e Liberdade”, no qual se encontra o texto de Norberto Ferreira da Cunha com o título “Bernardino Machado e as Liberdades Municipais”.


quarta-feira, 4 de junho de 2014

José de Macedo, Colonialista

O próximo conferencista convidado para o Ciclo de Conferências “Ideias e Práticas do Colonialismo Português”, numa organização da Câmara Municipal de V. N. de Famalicão e Museu Bernardino Machado, é o Professor Castro Leal, que nos virá falar sobre “A Ideia Colonial em José de Macedo: descentralização e autonomia”. A conferência, que será realizada no Museu Bernardino Machado no próximo dia 6 de Junho, pelas 21h30, é de entrada livre e os presentes terão direito a certificado de presença. Recordamos que estas conferências são acreditadas pelo Conselho Científico e Pedagógico de Formação Contínua, sendo os destinatários os professores dos grupos 200, 400, 410, 420 e 430.
O Professor Ernesto Castro Leal é Doutor e Agregado em História Contemporânea, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e Investigador Colaborador do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Desenvolve investigação nas áreas da História das Ideias, da História Política, da História da História e da História Biográfica, dos séculos XIX e XX. Das obras publicadas do Professor Castro Leal, destacam-se as seguintes: “António Ferro: Espaço Político e Imaginário Social (1918-1932)”, 1994; “Nação e Nacionalismos: A Cruzada Nacional D. Nuno Álvares Pereira e as Origens do Estado Novo (1918-1938)”, 1999; “Partidos e Programas: o campo partidário republicano português (1910-1926)”, 2008; “António Granjo: República e Liberdade” (coautoria de teresa Nunes), 2012; “Grandes Chefes da História de Portugal (cocoordenação e coautoria), 2013. Atualmente, o Professor Castro Leal é académico correspondente da Academia Portuguesa de História e membro do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira (presidente do Conselho Fiscal, 2013-2015).
O Prof. José Ernesto Castro Leal propõe os seguintes tópicos para a sua conferência: 1) fragmentos de identidade: vida e escrita de José de Macedo; 2) raízes do pensamento político de José de Macedo; 3) a posição de José de Macedo face às políticas coloniais portuguesas; 4) aspectos do autonomismo angolano (inícios do séc. XX); 5) proposta de política colonial: José de Macedo e a ideia de «Confederação de Angola».
Não é a primeira vez que o Professor Castro Leal vem a V. N. de Famalicão e, particularmente, ao Museu Bernardino Machado. Já esteve presente em três Ciclo de Conferências, nomeadamente “Os Presidentes da República”, com a conferência “António José de Almeida: de tribuno profético a presidente da República” (2004); “Lutas Académicas e Estudantis – Do Liberalismo ao Estado Novo”, com o trabalho “1923-1926: Crise Estudantil. Da “reforma Camoesas” ao 28 de Maio” (2006) e no Ciclo “As Grandes Questões da I República”, com o texto “Os Partidos Políticos” (2009). Por seu turno, nos “Encontros de Outono” de 2009, com o tema “As Eleições: da I República ao Fim do Estado Novo”, falou sobre “As eleições legislativas de 1921” e em 2013, com a temática “Violência e Poder Político”, abordou “Militares e violência política em perspectiva comparada: a singularidade do 18 de Abril”.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Bernardino Machado, os livros e as crianças


Neste dia mundial do livro 23 de Abril de 2014, nada como repescarmos algumas ideias de um dos mestres pedagógicos mais notável dos finais do século XIX, Bernardino Machado. Nestes simples pensamentos, observamos o papel do livro  na evolução da criança, perante as suas condições psicológicas, condutas sensoriais e motrizes, concretas e práticas, intelectuais e morais. Indiscutivelmente, para o Dr. Manuel Sá Marques, com o meu abraço de fraterna amizade. Estes epigramas são retirados do Tomo II da "Pedagogia" das Obras de Bernardino Machado, publicadas pela Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, Museu Bernardino Machado e pelas Edições Húmus, de Vila Nova de Famalicão.
 
  • Só as dificuldades atraem a vontade. Eu pedia aos pequenos que me tirassem o pó dos livros; e, como um volume tivesse a capa com bolor, disse:«Limpem bem este, porque está todo cheio de nódoas». Veio logo a Quininha:«O papá dá-me um todo cheio de nódoas?». Do seu lado, Domingos, incumbido simplesmente de sacudir o pó dos que tinha levado, deu-lhes uma esfregação mestra.
  • Que diferença entre vários intelectuais tão embotados e as cabeças virgens das crianças! Uma, que anda na aula de primeiras letras e já vai lendo com desembaraço, pede-me um livro. Dou-lhe uma pequena história de Portugal, e ela fica ali presa, ao pé de mim, a abrir-lhe as folhas e a lê-la, a meia voz, que nem a voz pode conter, de satisfeita.
 
  • Paixão infantil da grandeza. – «Papá! Dá-me um grande?» –, diz a Gigi, pedindo-me um livro.
  • A paixão egoísta da propriedade. A Gigi, com o seu livro de figuras, quer que eu lhas explique, mas sem ninguém mais as ver; e ao virem os irmãozitos sentar-se também ao pé de nós, ela levanta-se logo de golpe e, pegando no seu banquinho, que não larga, puxa por mim para longe:«Para aqui, papá! Para aqui!» –, para onde estejamos bem sós.
  • Para não haver o trabalho de vigilância, suprime-se tudo às crianças, e acaba-se por suprimi-las a elas mesmas. Não se deixam brincar para que não rasguem a roupa, não dêem cabo dos móveis, ou não pisem os canteiros do jardim; não se deixam sequer mexer, para que não vão fazer alguma maldade. Até as salas onde estariam com mais desafogo lhes fecham, porque as podem sujar. Encurralam-se, emparedam-se. Há mais cuidado com as coisas do que com elas. E não só para que não dêem trabalho, mas também para que nos não incomodem, hão-de estar, além de quietas, caladinhas. Deixá-las-ão ao menos meter-se a um canto, quietas e caladas, a ver figuras, a ler? Não, porque nem uns livros interessantes lhes dão. Têm medo de que os estraguem. Imobilidade absoluta!
  • A primeira leitura. A Gigi, com um manuscrito meu. «Eu sei ler». E, olhando para o papel: «papá Machado, mamã Machado, Rita Machado…». Eis o que as crianças procuram nos livros: assuntos familiares. Porque não lhos dão?
  • Também o coração faz a sua educação intuitiva. A criança ama os pais e avós, os irmãos e as outras crianças, os gatos, os pássaros, as flores, as pedrinhas. E como as pequenitas querem às bonecas, isto é, a uns serezinhos já confiados à sua guarda e protecção! «Papá, dá um livro para a boneca ver figuras?», pede a Gigi.
  • Ai, a leitura! Cautela, que ela não seque os corações! «Adeus!», diz e repete ternamente uma pequerrucha, a correr num carrinho pelo declive da rua. «Adeus!», responde-lhe já um pouco distraída a irmã maiorzinha, com um livro aberto diante dos olhos.
  • Generosa bibliófila. Visto um livro ilustrado, a Gigi pede mais:«papá, compre muitos livros à Gigi. Eu quero comprar muitos livros a mim. É para mostrar à mamã e aos manos. O papá dê o dinheiro, e eu compro». Como ela sabe já tão bem a função – que neste caso me não atrevo a chamar económica – da moeda!
  • Uma discípula de três anos. Estou a ler, de pé, a uma escrivaninha alta. Surge a Gigi. Percebe que o livro é ilustrado, e quer vê-lo. Vou para lho dar. Mas ela: «quero ver aí». E, puxando por um banco: «a Gigi põe-se aqui em pé e pode ver aí». Trepada já sobre ele: «eu ponho-me em pé e chego cá». Abraçando-se a mim: «este livro tem muito fegura». E logo, como quem se emenda: «tem muitas feguras». Num instante folheia-o todo, a princípio com muita atenção, depois de corrida, por fim vertiginosamente. Com que ardor a criança quer ver e aprender tudo! E tudo se tem de lhe mostrar e explicar num relâmpago, instantaneamente. Senão impacienta-se, exaspera-se. Parece-lhe que não sabemos nada bem, que tudo nos custa a entender. E, por mais que façamos, dentro em pouco, nem nos escuta: lá vai automaticamente desgarrada no seu movimento de curiosidade, gozando tanto com ele, que já lhe não importa ver nem aprender mais nada. Nós estacamos, espantados da carreira do seu espírito, apertando-a mais entre os braços, como se tivéssemos receio de que, no seu arrebatamento interior, ela pudesse cair-nos do colo abaixo.
  • As edições ilustradas são bem do nosso tempo, pelo que popularizam e tornam familiares as grandes obras. E o povo e as crianças vão-se interessando por esse meio de de instrução. A Gigi mostra-me um livro que lhe deu o sr. Hincker. «Mas, se a menina não sabe ler…?». «Tem figuras!», corta-me ela de pronto a dúvida. Como quem quisesse daí inferir: logo é também para os pequeninos como eu, serve-nos.
  • Em família, de companhia, em sociedade, sobretudo de gente nova, nada custa. Nem a gramática. Julguei que as crianças não pudessem levá-la sem imenso enfado; mas podem, ainda da mama. Aqui está como a Maria estuda e ensina a lição que trás para amanhã. Com o Inacinho, que não fez sequer três meses, ao colo, e com o livro na mão, adiante, cantarola ao pequeno as conjunções disjuntivas «Ou, ora… ora, quer… quer; já… já», e, voltando atrás, como quem o incita a decorar melhor: «diga lá! Olhe que eu zango-me! Como se dividem as conjunções? Não sabe? Ora diga: em coordenativas e subordinativas. Compreendeu? E as coordenativas? Vamos para diante. Quais são as copulativas? (outra vez a cantar) e, nem, também, não só…, mas também. Ai o Inácio, que não estuda! Que dirá o mestre?». Não sei o que o mestre dirá; eu é que afianço que desta maneira não é só o Inácio que parece gostar da gramática, até eu. E prometo não tornar a dizer tanto mal dela; nem hei-de já granizar tanto com os que a infligem aos meus próprios filhos.
  • Para as crianças tudo ainda são novidades e acidentes a recontar nesta viagem da vida. Por isso a Gigi, numa simples referência à estante das irmãs, fala a linguagem noticiosa de um explorador de regiões ainda não perscrutadas:«papá, aqui se encontram livros, figuras e brincadeiras». Ela é efectivamente a denodada pioneira da sua própria civilização.
  • Gostam de bric-à-brac? Mas muito melhor que o das gerações extintas é o das novas gerações. Nada mais documental, mais flagrante; e nada mais variegado, nada tão decorativo nas sua incomparável desordem. Vejam a minha banca de trabalho. Não lhe falta nada, a não ser lugar para eu escrever. São livros desfolhados, bonecas partidas, trapos, carruagens sem rodas, cavalos estropiados, restos de mobiliário, flores, pedrinhas. Um museu! Assim se vão salvando as relíquias infantis. É o lugar mais seguro para elas. Mas os meus créditos de conservador periclitam, decaem, porque, abaixo dos pequenos, há ainda os pequeninos, e eu a estes não resisto, dou-lhes tudo, até, parece incrível! preciosidade tais, [que] deploram aqueles.
  • As crianças estão a indicar-nos que o ensino do canto e do desenho deve preceder o da leitura e escrita. Todas começam a ler, cantando as palavras do livro; e a escrever, desenhando as do modelo.
  • A Zirinha, dezanove meses, trepa ao banco do piano e começa a tocar; mas logo lhe lembra que falta alguma coisa e desce de corrida para tirar da estante um livro de música. Assim é tanta gente no seu culto por formalidades que não entende e lhe não servem para nada. Mas satisfazem o seu sentimento de respeito pela ordem estabelecida, o que não deixa de ter sua virtude disciplinar.
  • Levo um novo livro de contos aos pequenos. São lindos! Digo-lhes. E logo o Domingos: «foi o papá que os fez?». Se são lindos! E tive pena de lhe não poder responder que sim, não só porque eram realmente bonitos, mas sobretudo porque já lhes não ficariam talvez a parecê-lo tanto.
  • Ele é preciso moderar a paixão com que a gente nova se entrega, arrebatadamente, à leitura, esquecendo tudo, alimento, família, dever. Mas também aquilo que se não ler nesse período da vida, de curiosidade devoradora, a custo mais tarde, quando os cuidados são tantos, se encontrará tempo para lhe dedicar. Os dias e meses que tenho ao pé de mim os mais atraentes livros sem os poder abrir sequer!
  • Gigi, trazendo-me um livro ilustrado, para que eu lhe conte o que diz:- – «oh! papá, este há-de ser engraçado!». Mas, ao folheá-lo para diante, aparece-lhe um porco-espinho. E ela:«ai! que bicho feio! vou escondê-lo, que ele mete medo à gente». E fechou de golpe o livro, e foi enterrá-lo na estante. Pode mais a impressão do que a curiosidade.
  • Não é só quem conta um conta, que acrescenta um ponto; é logo quem o lê. Não há quem no que leia, não ponha alguma coisa de sua cara. E a Gigi, que só tem 4 anos, como ainda não sabe ler, que há-de fazer senão pôr em tudo de novo inventar tudo? Por isso, assim que lhe dizem que um livro é de histórias, ela abre-o, e, com os olhos fitos nele, improvisa logo ali a seguir umas poucas, bem melhores, às vezes, do que muitas do livro. Eu até as aponto. E ela então, modestamente admirada do seu sucesso:«papá escreve tudo que eu digo, e as histórias que eu conto, tudo, tudo?».
  • O seu gosto, porém, de inventar histórias não vai até permitir que lhe preguem alguma mistificação. Se a desengano:«isto é um dicionário!», ela mostra-se deveras escandalizada. «Não é livro de histórias?»e corre a devolvê-lo a quem lho emprestou. A sua inspiração precisa de um ponto de apoio real, sincero. E quer brincar, mas com dignidade. Não representa para maliciosos, não está para entreter quem pretenda desfrutá-la. A mortificação moral sobrepuja todos os gozos.
  • É ainda só a força emocional do sentido muscular e táctil o que leva crianças e mesmo muitos alunos a desejarem, ardentemente, a posse de um objecto, e não o legítimo amor da propriedade, que ambiciona instrumentos de trabalho e produção para melhor servir o progresso da economia social. A Zirinha, aos guinchos, foge, com o seu livro de figuras, do Inácio, que ameaça arrebatar-lho; mas nisto encontra uma solução amigável: põe o livro sobre uma cadeira, chamando pelo irmãozinho: «venha ver comigo!». Qual! Ao pequeno não lhe basta vê-lo, quer pegar nele, tê-lo nas suas próprias mãos, segurá-lo, apalpá-lo. Por isso, puxa por ele, violentamente, para si, e, à resistência da Zirinha, pula e vai aos ares, furioso, possesso de cólera. Não leva a melhor, é claro. E, vencido, corre para mim, tirando-me pelos dedos, para que eu, que devo acudir sempre pelos fracos, terce em seu favor na contenda. Interponho, efectivamente, o meu pedido: «Zirinha, deixe-o pegar no livro um bocado, que ele não lho estraga». E é assim. Mete-o, vitoriosamente, debaixo do braço; mas nem o abre sequer, todo contente de o sentir consigo, bem colado ao corpo.
  • Os meus filhos, como se vê que são irmãos! Tendo-me um infeliz rapaz tirado do meu gabinete um livro, e contando eu o meu desgosto, por isso, primeiro à Manuela e depois ao António, diz-me logo ela: – «de certo o torna a pôr no seu lugar para a outra vez», e ele: «não lhe fica com o livro. Qual! Lê-o e trá-lo». Nem um, nem outro acreditava na possibilidade de um roubo.
 
 

domingo, 6 de abril de 2014

Norton de Matos, o militar civil


Decorreu no dia 4 de Abril, no Museu Bernardino Machado, mais uma conferência do ciclo “Ideias e Práticas do Colonialismo Português”, tendo sido o conferencista convidado o Prof. Sérgio Neto que proferiu a conferência “De Goa a Luanda: pensamento e acção de Norton de Matos”. O Prof. Sérgio Neto, na sua conferência, fez uma análise ao percurso colonialista de Norton de Matos em vários tópicos, até à candidatura presidencial de 1949. Partindo do pressuposto que Norton de Matos defendia para as colónias, e em particular para Angola, uma governação civil em vez de uma governação militar, o Prof. Sérgio Neto analisou inicialmente os pressupostos ideológicos coloniais de oitocentos baseando-se essencialmente no darwinismo social e no mito ariano ou na análise de propaganda realizada no campo literário, através de Júlio Verne, Emilio Salgari ou de Joseph Conrad, focando e contextualizando a polémica portuguesa em volta da centralização e da descentralização. Relativamente a Norton de Matos, analisando as influências familiares e as suas leituras, nomeadamente as de John Lock, Voltaire, David Hume, Adam Smith, Jeremy Bentham e, mais tarde, em Coimbra, onde tirou o curso de Matemática, Proudhon, Marx, Comte ou Spencer, as quais vão ter influência no seu pensamento, o Prof. Sérgio Neto falou-nos, partindo do início da carreira militar, da primeira experiência colonial (na Índia, em Goa), na qual Norton de Matos chegou a escrever um “Manual do Agrimensor”, na medida em que foi director dos serviços de Agrimensura na Índia, estabelecendo a demarcação dos prédios urbanos e rurais, criando serviços de raiz, recrutando locais. Até à República, o percurso de Norton de Matos ficaria estabelecido pela nomeação de outras comissões, considerando, mais tarde, que na Índia “a minha vida foi uma iniciação”. Aderindo ao Partido Democrático em 1911, Norton de Matos seria nomeado Governador Civil de Angola (1912), iniciou-se na Maçonaria (1912), Ministro da Guerra (1914), realizando o “milagre de Tancos” na organização do C. E. P., mesmo com os seus defeitos. O segundo consulado em Angola, desta vez como Alto-Comissariado (1920-1921), Norton de Matos ressalva o seu projecto, que era essencialmente, nas suas palavras, “uma obra verdadeiramente económica”. A base desenvolvimento seria a agricultura, depois desta o comércio e, finalmente a indústria. O projecto modernizador e descentralizador para Angola passou pela criação de um quadro de funcionários, acabar com a exportação e degradados, fomentar a emigração, o desenvolvimento das vias rodoviárias, o desenvolvimento da educação e da instrução, a proibição das armas e das bebidas alcoólicas, sendo Angola vista na sua ideia como o prolongamento de Portugal, entre outras ideias, para que a posse civil do território fosse uma realidade. Embaixador de Portugal em Londres (1924-1926), o programa de Norton de Matos para o desenvolvimento de Angola seria criticado entre o despesismo e a prepotência, caindo, na ideia do Prof. Sérgio Neto, em algumas contradições, caso da ideia mística imperial, retomada pelo Estado Novo, ou mesmo, já na fase final, a ideia paternalista e a ideia de proteccionismo face às colónias. Se Norton de Matos foi o criador do império português, por outro lado, assistiu igualmente à destruição, como foi com o caso da Índia.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Norton de Matos


O orador convidado para a próxima conferência do Ciclo “Ideias e Práticas do Colonialismo Português” é o professor Sérgio Neto, com o título “De Goa a Luanda: pensamento e acção de Norton de Matos”. A conferência, que se realiza no Museu Bernardino Machado (V. N. de Famalicão) no próximo dia 4 de Abril pelas 21h30, é de entrada livre e os participantes receberão o certificado de presença. O professor Sérgio Neto é licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (2000), tendo-lhe sido então atribuído o prémio Eng.º António de Almeida. Investigador do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX (CEIS20), concluiu o Mestrado em História Contemporânea (2007) e encontra-se inscrito no Doutoramento em Altos Estudos Contemporâneos (Universidade de Coimbra), com uma dissertação que versa o pensamento colonial de Norton de Matos, aguardando a marcação das provas públicas. Professor do ensino básico e secundário, lecionando presentemente no Agrupamento de escolas Domingos Sequeira (Leiria), Sérgio neto tem vindo a desenvolver investigação sobre a história político-cultural de Cabo Verde desde 2001, ganhando o prémio “Estímulo à Investigação”, do Serviço de Ciência da Fundação Calouste Gulbenkian. Publicou “Colónia Mártir, Colónia Modelo. Cabo Verde no pensamento ultramarino português (1925-1965) (Coimbra, 2009), obra que foi distinguida com uma Menção Honrosa do prémio Victor de Sá de História Contemporânea para Jovens Investigadores (Universidade do Minho).

segunda-feira, 17 de março de 2014

Aires Ornelas, o estratega


O Prof. Jorge Paulo Fernandes, na última conferência, intitulada “As Ideias Colonialistas de Aires de Ornelas”, realizada no dia 14 de Março do corrente ano no Museu Bernardino Machado, iniciou por evidenciar se faria hoje sentido em recuperar as ideias colonialistas de Aires de Ornelas. Figura chave portuguesa nos finais do século XIX e nos princípios do século XX, será com Aires de Ornelas que o império colonial se tornou na chave política portuguesa até 1974. Pertencendo à geração colonialista de 1895, o Prof. Jorge Paulo Fernandes evocou Aires de Ornelas em três perspectivas: o homem, a experiência africana e as ideias colonialistas. Aliás, estas mesmas começaram a ser difundidas pela imprensa, nomeadamente em dois títulos, nomeadamente enquanto director do “Jornal das Colónias” e na “Revista do Exército e da Armada”, fundada por Aires de Ornelas. Numa fase inicial, Ornelas incorporou no movimento, sem sucesso e numa “fantasia sem preocupação”, nas palavras do Prof. Jorge Paulo Fernandes, que pretendia restaurar Portugal através de uma ditadura militar, numa altura em que o rotativismo estava a ser fortemente criticado pelos republicanos. Em 1906, perante a dissidência do Partido Regenerador, Ornelas ficará ao lado de João Franco, será Ministro da Marinha e do Ultramar no governo de 1906 a 1907. Estará, assim, com o príncipe Filipe na viagem a África, indo, logo a seguir à implantação da República, para o exílio, chegando a chefiar a revolta militar de Monsanto em 1919. A questão a saber para o Prof. Jorge Paulo Fernandes é se Aires de Ornelas é um reacionário, tradicionalista ou uma figura do tradicionalismo monárquico. Fiel monárquico, Ornelas nunca nega a ordem pela monarquia constitucional. Será, enquanto conselheiro do Rei D. Manuel em Londres, uma figura de cautela e de moderação, conselhos que incutia no próprio Rei. No seu contacto com África, Ornelas será o que irá definir a estratégia militar em África, numa altura em que o Estado português irá possuir o armamento mais moderno e completo da época. Desta forma, com um investimento em tecnologia militar e médica, melhor preparação técnica, permitiram tais condições uma série de vitórias africanas, novas proezas que farão olhar para África de forma diferente. Defendia Ornelas para África a soberania portuguesa pela soberania das armas, assim como o darwinismo social (isto é, a reacção musculada). Ao mesmo tempo, Ornelas defendia igualmente uma reacção nacionalista africana, reclamando uma política administrativa para as colónias. Defensor de uma descentralização administrativa, projectando a municipalização (ideia que já vinha de Mariano de Carvalho, uma autonomia administrativa realizada pelos portugueses de Moçambique, não da metrópole), na prática tais ideias não tiveram a sua consequência; e se esteve ao lado dos vencedores, acabou, nas palavras do Prof. Jorge Paulo Fernandes, um derrotado: o império pelo qual sonhou, terá ganho na sua importância estratégica, enquanto que as ideias descentralizadoras não tiveram o seu seguimento.





segunda-feira, 10 de março de 2014

Aires Ornelas

O Professor Paulo Jorge Fernandes é o próximo conferencista convidado do VII Ciclo de Conferências, para a realização do terceiro encontro do mesmo, tendo a conferência o título “As Ideias Colonialistas de Aires de Ornelas”. Esta conferência realizar-se-á no Museu Bernardino Machado, em V. N. de Famalicão, no próximo dia 14 de Março do corrente ano, pelas 21h30, sendo a entrada livre e tendo os participantes o respetivo certificado de presença. Professor Auxiliar da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Paulo Jorge Fernandes tirou o Doutoramento em História Institucional e Política Contemporânea (2007) e o Mestrado em História dos Séculos XIX e XX (1997) na mesma Faculdade onde leciona, tirando, contudo, a licenciatura em História na Universidade Autónoma de Lisboa (1991). Se a área de atividade científica do professor Paulo Jorge Fernandes se focaliza na História dos Séculos XIX e XX, o seu domínio de especialização centraliza-se na História de Portugal (século XIX) e na História Institucional e Política (século XIX), tendo como interesses de investigação as temáticas o “Longo Século XIX”, a História Política (Estado, Elites, Partidos, Eleições e Parlamento), a História da Imprensa e a História Colonial Comparada. Tendo já participado em várias atividades científicas de extensão universitária (como foi o caso de ter sido o curador da exposição “Os Refugiados do Holocausto e Portugal” em 2012 na Fundação Calouste Gulbenkian), tem participado em projetos de investigação e realizado várias conferências quer em Portugal e no estrangeiro. Para além dos livros já publicados, a saber “As Faces de Proteu” (1999), em coautoria “Reis de Portugal: D. Luís I” (2009), “Mouzinho de Albuquerque: um soldado ao serviço do império” (2010) e “Mariano Cirilo de Carvalho” (2010), o Professor Paulo Jorge Fernandes tem colaborado em inúmeras revistas portuguesas e estrangeiras, nomeadamente, a título de exemplo, “Stvdia Historica”, “Metapolitica”, “e-Journal of Portuguese History”, “Tempo”, “Historia y Politica”, “The International Journal of regional and Local Studies”, “Africana Studia” ou na “Revista da História das ideias”. Tem a Menção Honrosa do Prémio Defesa Nacional 2010 com o livro “Mouzinho de Albuquerque”, atribuído pela Comissão Portuguesa de História Militar-Ministério da Defesa Nacional.