quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Bernardino Machado: cronologia pedagógica (1882-1890) - II


Indiscutivelmente, para o Dr. Manuel Sá Marques, com o meu abraço fraternal de amizade.

 
1882
·         Em 19 de Janeiro, casa com Elzira Dantas, filha do conselheiro Miguel Dantas Gonçalves Pereira.
·         “Discurso Comemorativo do Marquês de Pombal”.
·         “O Estado da Instrucção Secundaria entre nós: officio ao Senhor António Augusto Soares de Sousa Cirne Inspector da 3.ª Circunscrição Académica”.

1883

·         Voto de louvor da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, por ter patrocinado, como deputado, a dotação de um conto de réis para o novo hospital de Coimbra.
·         É nomeado Director-Interino do Observatório Metereológico da Universidade de Coimbra.
·         O Conselho da Faculdade encarrega-o temporariamente da disciplina de Física.
·         Em Janeiro, discursa na Câmara dos Senhores Deputados sobre “A Política do Ensino”, em resposta ao discurso da Coroa.
·         Em Março, discursa na Câmara dos Senhores Deputados sobre o “Orçamento da Instrução Pública” e a “Reforma da Instrução Secundária” no âmbito da discussão parlamentar do Orçamento de Estado; sobre o “Projecto de Reforma do Ensino Secundário em 1883” e realiza umas observações sobre o “Ensino Comercial”, a propósito do Projecto do Ensino Comercial em Lisboa.
·         Na sessão de 6 de Abril, na Câmara dos Deputados, apresenta o Projecto-Lei referente à concessão de terrenos à Sociedade de Instrução do Porto.
·         Em 14 de Maio, apresenta o Projecto-Lei para o aumento do vencimento anual do Professor do Curso Superior de Letras.
·         Em 16 de Maio, na Câmara dos Deputados, apresenta a proposta da consignação de uma verba, que é aprovada, para explorações zoológicas, botânicas e mineralógicas, a qual será incorporada no orçamento de despesa da Faculdade de Filosofia.
·         Na Câmara dos Deputados, em 8 de Junho, propõe a “Criação do Ensino de Antropologia”.
·         Apresenta um Projecto-Lei que concede à Sociedade Martins Sarmento (Guimarães) o edifício de Santa Rosa de Lima, para se estabelecer uma Biblioteca Popular e Pública.
·         “Allocução e Discurso Proferidos na Cidade do Porto no dia 9 de Julho de 1883”.
·         Em Novembro, deixa de reger a cadeira de Agricultura, passando a ser titular da 2.ª cadeira de Física, que acumula com a 1.ª.
·         É Eleito Sócio da Sociedade de Instrução do Porto.
·         Profere a primeira Oração de Sapiência.

1884

·         O Conselho da Faculdade de Filosofia presta um voto de agradecimento pelos esforços que Bernardino Machado prestou, junto do Parlamento, enquanto deputado, para ser concedido uma dotação para explorações de História Natural.
·         Realiza vários discursos na Câmara dos Deputados: Sobre “A Liberdade de Ensino”, no âmbito da reforma constitucional; sobre a “Educação Profissional, na discussão parlamentar do orçamento Rectificado do Estado e sobre o “Concelho Superior de Instrução Pública” no contexto dos discursos da discussão parlamentar.

1885

·         Apresenta o Projecto-Lei, sendo promulgado, que substitui as cadeiras de Agricultura, Zootecnia e de Economia Rural pelas de Antropologia, Paleontologia Humana e Arqueologia Pré-Histórica. Cria também o Museu de História Natural.
·         Profere a Oração de Sapiência” denominada “A Disciplina Académica”, referente ao ano lectivo de 1885-1886, no dia 16 de Outubro.
·         Voto de agradecimento do Conselho Escolar da Faculdade de Filosofia de Coimbra pela cooperação da conversão em lei do projecto-lei que substitui a cadeira de Agricultura pela de Antropologia.
·         Apresenta o parecer e o Projecto-Lei para o Governo adquirir 500 exemplares da obra “Garrett, Memórias Biográficas”, de Francisco Gomes de Amorim.
·         Propõe a fusão das Faculdades de Matemática e de Filosofia na Faculdade de Ciências.
1886
·         “Necessidade de um Ministerio de Instrucção Publica”.
·         Viagem à Suíça em Setembro.
·         Em Outubro começa a reger a cadeira de Antropologia, antes a cargo de H. Teixeira Bastos (1885-1886). Dirige a secção de Antropologia e Arqueologia Pré-Histórica do Museu de História Natural.
1887
·         É nomeado Sócio-Protector, em 20 de Abril, da Associação Auxiliar dos Inabilitados do Trabalho.
 
1888
·         É nomeado, por unanimidade, Professor Honorário da Institución Libre de Enseñanza, em 17 de Julho.
·         “Affirmações Publicas: 1882-1886 – I”.
·         Publica no jornal “O Repórter” o texto “As Reformas do Ensino Secundário de 1886 e 1888”.
“Publicamos em seguida a proposta apresentada ontem no conselho de instrução superior pelo digno e ilustre membro, dr. Bernardino Machado. / Este documento, que é, a todos os respeitos notável, como não podia deixar de ser, atendendo às altas qualidades de inteligência do seu autor, e aos conhecimentos especiais que tem destes assuntos, deve abrir um período de seguros melhoramentos na nossa instrução pública.”
“Instrução Publica” [material gráfico]. In O Repórter (16 Out. 1888). [1 recorte de imprensa].
1889
·         É nomeada a Comissão, presidida por Bernardino Machado, do processo de Sindicância ao Liceu Central de Lisboa. A comissão era constituída por Jaime Constantino de Freitas Moniz, José Cardoso Magalhães Coutinho, Tomás de Carvalho, António Maria de Amorim, Inácio Francisco Silveira da Mota e António José Teixeira.
·         Em 29 de Maio, profere na Academia de Lisboa o discurso “Universidade de Coimbra”, na sessão solene celebrada em honra de Antero de Quental.
·         Participa no Congresso Internacional de Ensino Livre (Paris) com a conferência “ Nota Sobre as Sociedades Particulares em Portugal”, em representação da Sociedade das Escolas Móveis pelo Método de João de Deus, Sociedade de Geografia de Lisboa, Sociedade de Instrução do Porto, Ateneu Comercial do Porto e Sociedade Martins Sarmento.
1890
·         Presidente da Liga da Educação Nacional. Elabora os seus estatutos.
·         É Presidente da Academia de Estudos Livres.
·         “Instrucção Pública”. Discurso a propósito da organização do Ministério da Instrução Pública e a centralização do ensino oficial, especialmente do ensino primário.

 “A Revue de L`Enseignement Secondaire et Superieur, que se publica em Paris, no seu último número consagra um longo artigo bibliográfico sobre o livro Afirmações Públicas do sr. dr. Bernardino Machado. / Depois de citar trabalhos que na Bélgica, na Itália, no Brasil, em Espanha e em França, se têm realizado nestes últimos anos, o articulista ocupa-se de Portugal. Refere-se que alguns ministros entre nós têm feito em favor da instrução e acrescenta: / Mas a palavra mais autorizada e mais ardente que se fez ouvir em todas as discussões no parlamento e nas solenidades relativas ao ensino público é, sem dúvida, a do sr. Bernardino Machado, professor da Universidade de Coimbra e deputado.» Referindo-se particularmente ao livro Afirmações Públicas diz: / «Não é sem encanto e sem proveito que se ouve esta voz competente, convicta, ardente, apaixonada até pelas questões de um tão elevado e tão geral interesse. / Sente-se, ao ler este livro, que se não tem diante dos olhos, o discurso dum orador que fala para a galeria, mas a obra maduramente meditada dum homem profundamente versado em tudo o que se relaciona com a instrução pública, que trata do bem de cada um, do interesse de todos e do futuro da pátria.» / Citando o trecho dum discurso do dr. Bernardino Machado exclama o articulista: / « Pode mostrar-se melhor e com mais calor e convicção, os benefícios e a necessidade da instrução, do que pela maneira por que o faz o sr. Machado?» / E a este propósito, confrontando-o a Jules Simon, aponta que o seu espírito vai mais longe do que o ilustre publicista francês na apreciação dos benefícios que emanam da educação: / O artigo conclui do seguinte modo: «Estes extractos bastam para dar uma ideia do livro e para se conhecer os elevados sentimentos do autor. Quem o ler, facilmente compreenderá os serviços que estas diversas alocuções poderão prestar á causa liberal da educação num povo que nos ligam laços naturais tão íntimos. É o caso de dizer: as palavras valem o que vale o homem!»

“Bernardino Machado” [material gráfico]. In Novidades (24 Fev. 1890). [1 recorte de imprensa].

“O colégio científico elegeu, como vemos noutro lugar, seus representantes na Câmara dos Pares os srs. Oliveira Monteiro, Francisco António Rodrigues de Azevedo, Augusto José da Cunha, Bernardino Machado e Jaime Moniz. / Estes nomes são geralmente conhecidos, e não necessitam de encómios supérfluos. / O sr. Oliveira Monteiro representa nesta eleição, não só o seu valor pessoal, mas uma homenagem aos direitos adquiridos; pois o seu deslocamento da cadeira de deputado pelo Porto dá lugar a ter assento no parlamento o ex-ministro sr. Beirão, o que era de justiça; o sr. Rodrigues de Azevedo, decano da faculdade de teologia, é conhecido não só pela sua grande ilustração, mas pelos seus princípios liberais, manifestados em estrénuas lutas de princípios, sustentadas com raro vigor e denodo; o sr. Augusto José da Cunha, que há pouco saiu dos conselhos da coroa, é dos homens mais sérios e mais conceituados pelo seu saber na especialidade científica que professa e pelo seu carácter; o sr. Bernardino Machado é um dos membros mais ilustres do nosso professorado, e, em questões de ensino, a que se tem dedicado especialmente, de uma grande competência incontestável; e, finalmente, o sr. Jaime Moniz, professor e académico, votado de coração aos assuntos de instrução pública, à qual tem prestado relevantes serviços no conselho superior de instrução, a que tão notavelmente preside, mostra nessa renovação da sua eleição que não desmereceu dos créditos que conquistara já nas corporações científicas do país, quando da outra vez fora escolhido para seu representante.

[“Colégio Científico”] [material gráfico]. In Jornal do Comércio. Lisboa (15 Abr. 1890). [1 recorte de imprensa].

·         É nomeado Delegado da Faculdade de Filosofia ao Colégio Especial para a Eleição dos Pares do Reino pelos estabelecimentos Científicos

“O digno par do reino, se. Bernardino Machado, pronunciou ontem na Câmara dos Pares um magnífico discurso, em que louvou a criação deste ministério, embora num ou noutro ponto discorde do projecto que trata da sua organização. /Foi tão notável a oração parlamentar do ilustrado lente da Universidade, que o nosso colega o Século, naturalmente mais propenso a censura que ao elogio, escreve que o dr. Bernardino Machado, cedo ou tarde, num dia de justiça, tem de ser chamado a exercer a sua poderosa acção científica na orientação das nossas escolas.”
“Ministerio de instrucção publica” [material gráfico]. In A Tarde (17 Jul. 1890). [1 recorte de imprensa].

“O digno par do reino, sr. Bernardino Machado, pronunciou ontem na Câmara dos Pares um magnífico discurso, em que louvou a criação deste ministério, embora num ou noutro ponto discorde do projecto que trata da sua organização. /Foi tão notável a oração parlamentar do ilustrado lente da Universidade, que o nosso colega o Século, naturalmente mais propenso a censura que ao elogio, escreve que o dr. Bernardino Machado, cedo ou tarde, num dia de justiça, tem de ser chamado a exercer a sua poderosa acção científica na orientação das nossas escolas.”
“Ministerio de instrucção publica” [material gráfico]. In A Tarde (17 Jul. 1890). [1 recorte de imprensa].
“Inaugurou-se hoje o Congresso Geográfico. Entre outros estrangeiros foram nomeados presidentes honorários Pinheiro Chagas, Ramalho Ortigão, Teles de Vasconcelos, etc. Para Vice-Presidente, foi nomeado Bernardino Machado. / Os cavalheiros portugueses tourearão na corrida oferecida a SS. MM., bois desembolados. / Pinheiro Chagas, na abertura do Congresso, pronunciou um discurso brilhante, produzindo no auditório, que era escolhidíssimo, a mais extraordinária impressão. Também falou muito bem Bernardino Machado.”

[“Congresso Geográfico”] [material gráfico]. In Correio da Manhã (19 Out. 1890). [1 recorte de imprensa].
 
·         Participa no Congresso Geográfico de Madrid, tendo sido nomeados Presidentes Honorários Pinheiro Chagas, Ramalho Ortigão, Teles de Vasconcelos, entre outros. Bernardino Machado foi o seu Vice-Presidente.
·         É eleito Par do Reino pelos Estabelecimentos Científicos.

domingo, 28 de julho de 2013

Bernardino Machado: cronologia pedagógica (1851-1881) - I



Para o Dr. Manuel Sá Marques, com o meu abraço de fraterna amizade.
 

“Este jovem professor da Universidade tem uma reputação estabelecida de grande talento e vasta erudição. É um dos mais celebrados representantes do novo professorado da jovem academia, em dissidência, quase em revolta com o velho e decrépito instituto. É citado como um dos tipos mais perfeitos do erudito moderno, prófugo do metafisismo universitário, retórico e caturra, versado em toda a história do experimentalismo das novas escolas na ciência, na filosofia e na literatura, possuindo na ponta da língua o seu Augusto Comte, o seu Darwin e o seu Haeckel, a física de Helmholtz, a  química de Wurtz, a biologia segundo Huxley, de Bain, de Hartmann, de Schopenhauer e de Proudhon, e toda a literatura dos escritores naturalistas. Magro,s eco, nervoso. Larga testa poderosa, sorriso fino, olhar penetrante, e toilette escrupulosíssima.”
Ramalho Ortigão
1851
·         Bernardino Luís Machado Guimarães nasceu em 28 de Março no Rio de Janeiro (Brasil), filho de António Luís Machado Guimarães, imigrante português, abastado comerciante, e de Praxedes de Sousa Ribeiro Guimarães, brasileira.
1859
·         Faz, com aproveitamento, a instrução primária no Liceu Comercial do Rio de Janeiro.

1860

·         Vem para Portugal com os pais no navio «Oneida», estabelecendo a família residência em Joane (concelho de V. N. de Famalicão) e, mais tarde, no centro da então Vila. Vai estudar para o Porto, para o Colégio Podestá.

1862

·         Em 1 de Julho, faz o exame de instrução primária no Liceu Nacional do Porto, sendo aprovado.
1866

·         Em Outubro, matricula-se no 1.º ano da Faculdade de Matemática da Universidade de Coimbra.

1867

·         Matricula-se no 1.º ano da Faculdade de Filosofia.

1868

·         É premiado em Matemática (Prémio Partido).

1869
·         Em Julho, fica distinto em Química Orgânica.

1870

·         Publica-se a revista “Estudos Cosmológicos”, da qual não só é co-redactor, como igualmente colabora, com António Maria de Sena e Francisco Augusto Correia Barata.

1872

·         Atingindo a maioridade, declara, na Câmara Municipal de V. N. de Famalicão, optar pela nacionalidade portuguesa.
·         Em Julho, é premiado em Filosofia (1.º Accessit, em Botânica), ficando distinto em Física.

1873

·         É admitido, em 5 de Março, como Sócio no Instituto de Coimbra.
·         Em Julho, conclui o curso, saindo bacharel em Filosofia e em Matemática. É premiado em Filosofia (2.º Accessit).
1875
·         Em 14 de Janeiro, licencia-se em Filosofia com a tese “Theoria Mechanica da Reflexão e das Refracção da Luz”.
1876
·         Em Janeiro, concorre a uma das vagas de professor substituto da Faculdade de Filosofia com a tese “Theoria Mathematica das Interferencias”.
·         Em 9 de Junho, defende conclusões magnas em Filosofia.
·         Em 2 de Julho, doutora-se em Filosofia com a tese “Deducção das Leis dos Pequenos Movimentos Periódicos Próprios da Força Elástica”. O diploma tem a data de 27 de Outubro.
1877
·         Em Fevereiro, é nomeado professor substituto da Faculdade de Filosofia, encarregado da cadeira de Agricultura.
·         Em 8 de Março, toma posse do cargo de lente substituto. É indicado para Fiscal de Filosofia (até Julho de 1878).
·         É Vice-Director da Classe de Literatura e Belas-Artes do Instituto de Coimbra, até 1880.
1878
·         “Theses de Philosophia Natural”.
1879

·         É nomeado, em 17 de Abril, Lente Catedrático da Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra. Toma posse em 22 de Abril.

1880

·         Em 4 de Novembro, é-lhe confiada, por acumulação, a cadeira de Geologia.
1881
·         Em sessão de 21 de Fevereiro é nomeado Sócio-Correspondente da Sociedade de Geografia de Lisboa.
·         Em Outubro, passa a ser lente proprietário da 8.ª cadeira (Agricultura).

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Álvaro de Castelões (1859-1953): o cidadão

 Foi com o maior prazer que estive na apresentação da reedição do livro de Álvaro de Castelões "Beijos e Rosas", numa reedição da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, nas comemorações do 60.º aniversário do falecimento de Álvaro de Castelões. Sócio Honorário da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto e membro da Sociedade de Geografia, em Álvaro de Castelões encontrámos o africanista, o deputado progressista (que teve o apoio dos republicanos em 1897), o poeta, membro efectivo da comissão municipal de Vila Nova de Famalicão do Partido Republicano Português (1912), Director Fiscal do Caminho-de-Ferro de Mormugão, das Obras Públicas da Índia e Director dos Caminhos -de-Ferro do Minho e Douro, Álvaro de Castelões foi, acima de tudo, uma personalidade que reuniu concensos na comunidade famalicense. Falei do cidadão. Para além da minha presença, com a sala da Junta de Freguesia de Castelões bastante concorrida, estiveram presentes o Presidente da Junta de Castelões, Francisco Sá, o Vereador da Cultura e Vice-Presidente da Câmara Municipal de V. N. de Famalicão Dr. Paulo Cunha, a acarinhar a iniciativa, e o declamador-poetante Alcino Monteiro. Foi um momento bem agradável.
 
 






quinta-feira, 27 de junho de 2013

Delfim Santos, Filósofo e Pedagogo



PALAVRAS-CHAVE
Existencialismo. Cientificismo. Positivismo. Behaviorismo. Psicanálise. Existencialismo. Fenomenologia. Vivencialidade. Dasein. Cooperação. Diálogo. Angústia. Antropologia
Conforme o programado, decorreu no dia 1 de Junho, pelas 21h30, no Museu Bernardino Machado, a conferência da Prof.ª Cristiana Soveral (da UTAD), integrada no Ciclo de 2013 “A Pedagogia os Pedagogos em Portugal”, com o título “Delfim Santos e a Pedagogia Existencial”. A Prof.ª Cristiana Soveral não só falou da pedagogia propriamente dita em Delfim Santos, como igualmente deu a perceber que ele é o interlocutor com o movimento existencialista, particularmente o alemão. Não foi só o primeiro que traz as ideias pedagógicas do respectivo movimento, como é também aquele que escreve de uma forma mais persistente e consistente sobre o assunto em Portugal. Aliás, Delfim Santos assume-se como um existencialista, fazendo uma grande divulgação da obra de Heidegger. Acrescente-se a facilidade do Prof. Delfim Santos ter aprendido alemão, podendo assim traduzir as obras dos existencialistas alemães, passando assim esta corrente ser difundida em Portugal. A Prof.ª Cristiana Soveral dividiu a sua conferência em 4 partes: i) como, quando e porquê surgiu o movimento existencialista e quem são os seus principais representantes, ii) até onde a filosofia existencialista vai ter reflexos na pedagogia (na prática pedagógica do professor, o que será um pedagogo existencialista), iii) biografia de Delfim Santos e iv) as ideias de Delfim Santos sobre o existencialismo. A Prof.ª Cristiana Soveral, que organiza e anota, ofereceu ao Museu Bernardino Machado o III volume das Obras Completas de Delfim Santos, editadas pela Fundação Calouste Gulbenkian.




Em que contexto surge o existencialismo? Nós sabemos que na primeira metade do século XX há uma crise profunda com duas guerras, dando a segunda um desgaste do ser humano no sentido da desgraça que daí adveio, não só pela quantidade de judeus que foram perseguidos e mortos no campo de concentração, como a selvajaria que aconteceu com deficientes físicos, colocando-se muito então a questão de que o que é que o ser humano quer, que vida é esta. A guerra traz uma revolução social enorme na vida das pessoas. Nesta primeira metade do século XX não só a Europa entra em guerra, como arrasta o resto do mundo, primeiro com a entrada dos Estados Unidos e de pois da América do Sul; e as velhas questões da Filosofia do final do século, também entram em crise. O homem, desamparado, vive sentimentos de vazio que a guerra traz, de angústia, de solidão, solidão de desespero, factores que mobilizam um sentido de reflexão sobre a própria existência, de uma busca de sentido para a vida. Estas foram as preocupações que marcaram o movimento existencialista por diferentes sentidos, mas esta noção de buscar um sentido para a existência e de partir da ideia de que o homem tem e precisa de reflectir sobre a própria vida na busca de um sentido que faça sentido para a sua vida foi, digamos, uma tábua comum em todos os existencialistas.
Toda a Europa, e Portugal não era excepção, vivia este movimento como uma crença, no uso da ciência, um cientificismo e um positivismo  que lhe estava associado e que ganha as suas raízes mais fundas no modelo experimental que vem de Galileu e de Newton. O panorama que temos é este: por um lado, a ciência ganhando força, um positivismo forte e, por outro lado, a crise que leva a uma reflexão existencial que faz com que haja uma camada de pessoas que digam sobre o que é que vale a pena pensar. A realização exclusiva do método experimental com base no positivismo, a crença no progresso indefinido da ciência e da tecnologia e a convicção de alguns de que por seu intermédio os reais problemas humanos poderiam ser solucionados (a ciência soluciona tudo, é capaz de tudo) e ainda a absorção da psicologia pela sociologia, e a valorização máxima desta ciência, estão na base da ideologia cientificista e positivista; e ainda, o positivismo foi mais do que uma corrente filosófica: foi todo um movimento cultural que se espalhou pela Europa durante a segunda metade do século XX. Assumiram a postura anti-metafísica, opôs-se a uma concepção divinista e espiritualista da natureza, negando a existência de elementos apriorísticos do conhecimento. O mundo da experiência tem sido ou marca o mito da razão, como fonte única do saber.




O existencialismo surge como uma tomada de posição de alguns pensadores europeus frente a este movimento cientificista. Não se trata de negar o papel da ciência, mas de limitar esse papel. Tratava-se fundamentalmente de discutir os fundamentos da ciência enquanto ciência do homem. Perguntavam os existencialistas: a aplicabilidade dos conhecimentos científicos seria adequada para o conhecimento do ser humano? O método científico, utilizado nas ciências naturais, remete o homem para a mesma categoria dos outros seres: estudá-lo através da observação, da classificação, através da generalização, é desprezar a categoria fundamental do ser humano: a liberdade. À época, a ciência da psicologia tinha como objecto de estudo o homem e os seus comportamentos e expressava-se fundamentalmente em duas correntes teóricas opostas que valorizam o ser humano em perspectivas completamente diferentes: por um lado, tínhamos o behaviorismo, que valoriza o racionalismo através das relações causais, entre o estímulo e a resposta. Estas relações causais manifestavam-se através de comportamentos relativos ao mundo exterior. Por outro lado, tínhamos o movimento da psicanálise, iniciado no final do século XIX, com Freud, e que valoriza o subjectivismo da mente, a psique, e a dimensão do inconsciente. Estas duas correntes usavam-se como alternativa para o conhecimento do homem. O existencialismo propõe encontrar outros postulados para o conhecimento do homem, considerando o seu contexto histórico, a sua realidade e as circunstâncias que movem para viver no mundo com os outros. Para os existencialistas, o homem só pode ser compreendido através da sua experiência de vida. O homem não é um ser abstracto, é um ser concreto, que deve ser compreendido no seu existir concreto, no seu mundo e na sua vida.
A proposta do movimento existencialista é a de fazer uma reflexão profunda sobre as características essenciais do ser humano e a partir dela estabelecer uma metodologia adequada ao seu conhecimento, capaz de compreender a existência concreta do homem em situação, do homem no mundo, do homem em trânsito. Para os existencialistas, o homem não é apenas um ser dotado de racionalidade, inteligência. Não é pura racionalidade nem pura subjectividade. O homem é uma experiência vivida da qual só ele constrói os sentidos da sua vida, o homem é transcendência, no sentido em que tem uma história que não é linear nem acabada, mas é construída em espiral, pois o homem lembra, associa a partir daquilo que viveu. O homem é percepção totalizante. Seu corpo, sua mente, a sua alma formam uma unidade indivisível. O homem percebe o mundo, junta-se a si e aos outros, valora, tem hábitos, tem manifestações e formas de viver para compreender as coisas que não são produtos daquele momento, mas que são produtos de toda uma vivência que ele tem, de toda uma experiência que tem. A ciência natural, pelo modo como se constrói, tem tendência em transformar o homem em pequenos departamentos, em pequenos estratos, pegando em cada aspecto por si e torna incapaz de alcançar o homem pelo seu vivido, a sua experiência vivida. A vivência é a base fundamental da construção do conhecimento sobre o homem, pois o homem está sempre em relação com os outros. Um homem situado no mundo, mas o mundo não é só o mundo material, o mundo são os outros e o homem não se percebe sozinho, percebe-se sempre entre a sua comunicação e nessa vivência, nessa sua experiência: nós somos aquilo que a nossa vida faz de nós. E das experiências que temos da vida. Eis o postulado existencialista. O homem não tem um corpo: ele é um corpo que abarca o seu mundo, as suas significações. O homem age, pensa, julga pela intencionalidade. Ele vive no seu vivido, o homem é homem porque existe, porque é capaz de vivenciar, de experienciar, de transformar os seus próprios sentidos de vida.





O existencialismo surge assim como uma terceira tendência que procura olhar o homem do modo integrado, global e não comportamentado, dando-lhe uma nova concepção.
Este novo movimento surge para recolocar o homem na sua morada original: a sua existencialidade. Uma das questões controversas para os existencialistas é a tendência anterior de procurar compreender o homem das suas relações com o mundo, tendo-o como um deus de causa e efeito, onde tendem a explicar as generalidades, a classificar, a rotular, não considerando o homem experienciado. A experiência vivida é particular, é pessoal e intransferível. Os existencialistas pretendem questionar o homem na sua vivência, o homem situado no mundo, situado numa situação do mundo concreto. Isto é muito importante para os professores. Não é possível procurar e encaixar o homem em sistemas teóricos que o analisam a partir de sintomas e de comportamentos quantificáveis, mensuráveis. O vivido é descrito pela vivência do dia a dia, interligando presente, passado e futuro. O existencialismo propõe para reflectir bases que sustentam o conhecimento do homem, considerando a sua existência nas suas várias manifestações. O homem é um ser de possibilidades. Como é que será o homem na sua estrutura ontológica? Outra questão que os existencialistas colocam: quais os fundamentos que contemplam o existir e os sentidos desse existir? Reflectir sobre o ser humano, discutir e estabelecer uma visão de homem e do mundo, foi a grande contribuição do método fenomenológico existencial, que se propõe assentar os fundamentos da filosofia enquanto um caminho rigoroso, pois escolhe pensar e alinhavar o método constitutivo do homem para considerar a sua experiência vivida, o seu contexto histórico, cultural e social.
A fenomenologia considera o homem e todos os outros entes são unidades inseparáveis, pois só o homem é capaz de existir, dando significado, manifestando, dispersando a sua linguagem nas várias formas de a dizer. A fenomenologia é uma atitude de reflexão sobre o fenómeno que se mostra para nós na relação que estabelecemos com os outros no mundo. A concepção fenomenológica foi criada pelo filósofo Edmund Husserl, o qual apresenta-nos um conceito central para a filosofia fenomenológica: o conceito de intencionalidade da consciência. Toda a consciência é voltada para alguma coisa, mas nem sempre podemos abarca-la completamente. Mesmo quando penso na reflexão, pensamos o pensamento já pensado. A consciência é sempre intencional. Na nossa relação com o mundo, partimos do princípio de que tudo o que nós pensamos,  somos capazes de expressar nas diferentes formas de viver. Desde logo, a fenomenologia tem por tarefa, a partir das possibilidades para compreender o que simplesmente se revela a partir das nossas vivências intencionais. O homem está sempre perante alternativas, das quais deve fazer escolhas. A escolha traz inquietação e a angústia que se faz presente porque o homem sabe que não pode tomar duas direcções. Diante das alternativas da vida, ele deverá eleger uma e essa eleição irá comprometer o seu destino, para assumir todos os seus inter-relacionamentos e desdobramentos frente ao seu projecto existencial; e esta angústia de ter que escolher um caminho e saber que está nas nossas mãos o nosso destino e as nossas escolhas são importantes para a nossa própria vida, gerando uma certa angústia e é neste processo que os existencialistas acham que o homem deve ser educado para fazer escolhas conscientes.





Não querendo falar dos autores existencialistas, mas que de alguma maneira, para que se saiba de quem está a falar, fazemos uma rápida referência aos existencialistas europeus mais expressivos e às máximas e aos pensamentos que lhe são mais caros. Comecemos pela afirmação de Heidegger de que a vida é existência e que enquanto tal é contingente, frágil e premiada pela angústia que causa náusea e repugnância, como nos afirma Jean-Paul Sartre. A existência é uma maneira de ser, própria do ser humano; assim, o homem é o único ser que existe, pois a sua essência é existência. É ser aí para si, o mundo, é Dasein, isto é, sendo homem no mundo, aí reside no facto de o homem ser um ser em constante auto-criação e projecto em constante devir, sempre inacabado, que nos lembra Gabriel Marcel. No entanto, esse processo de auto-criação só é possível na vida em liberdade. O homem só é livre, ele só é livre na sua liberdade. Se, por um lado, o existencialismo dá ênfase à experiência pessoal, por outro lado, ele põe em evidência a comunhão do homem com o mundo, particularmente com os outros homens, com o TU, segundo Buber, ou com a existência, o Dasein de Heidegger, a comunicação de Jaspers.
Neste tronco comum, decorrem as seguintes sub-teses: o homem, enquanto ser no mundo, é o ponto de partida e é o ponto de chegada de toda a reflexão existencialista. No existencialismo, a ciência fundamental é uma antropologia aplicada. A abordagem existencialista segue o caminho que leva da existência para a essência, antes de ser, existo. O homem faz o que vier a ser, diz Sartre. É na intencionalidade do existir que a realidade se revela. Isto pode ser ao mesmo tempo aterrador, desafiador. O homem é um ser responsável do ser que é e do que será, fundamento da liberdade. Afinal, o seu destino é somente seu, luta de sua escolha individual e a verdade é a liberdade de escolher. Quando escolho, projecto-me no futuro, dou existência àquilo que era possibilidade, o homem é homem de acções, eternamente em trânsito. O momento maior da liberdade é o encontro do EU com o TU, o diálogo para Buber e para Gabriel Marcel a presença.
Quais as implicações que estas preocupações existencialistas trazem para a prática pedagógica, para a nossa prática pedagógica enquanto professores? As teses do pensamento existencialista, consideradas fundamentais, decorrem não pelas implicações para a reflexão e para a prática pedagógica (prática de sala de aula). A primeira, é o respeito pela individualidade do aluno. Cada um é um. Não existe o aluno abstracto, o chamado aluno médio, para o qual é tantas vezes dirigida a fala do mestre. Fala para um aluno que não existe, para o meio-termo, este não existe. O que existe são alunos concretos, todos eles diferentes. Existem, sim, alunos diferentes uns dos outros, dotados cada um com elementos da sua individualidade que lhe é essencial. Na segunda consequência, é a convicção do conhecimento que não pode ser transmitido, mas é decorrente da apropriação por parte do aluno, do saber enquanto problema e das respostas possíveis ou as mais adequadas ao problema em questão. A acção dialógica entre o mestre e o aluno implica o constante questionamento que leva à descoberta de cada um. E é só aí que ele aprende. O diálogo é fundado na honestidade, não é um diálogo artificial. Só o primeiro diálogo é pedagógico, é o que gera conhecimento intelectual. Assim, para o educador existencialista, o método pedagógico por excelência é a pedagogia do diálogo, num quase retorno à maiêutica socrática, não é o ensino que importa, mas a aprendizagem, num processo que tem que ser realizado com cada um de forma individualizada. O terceiro aspecto ressalta da relação entre o aluno e o mestre, a não imposição. O mestre respeita o interesse do aluno, as suas curiosidades, as suas preocupações, sempre que possível não sacrificando a curiosidade do aluno ao programa, mas o programa às curiosidades e aos interesses das crianças, doas adolescentes, dos adultos. Acima do livro, está a pessoa. Daí que a pedagogia do projecto seja muito adequada à pedagogia existencialista. O estudante não é um espectador do processo de aprendizagem, ele é o actor do processo. O conhecimento não se faz por saberes estanques, divididos, por disciplinas, é transdisciplinar. A pedagogia do projecto ajuda a fazer esse cruzamento, transdisciplinar ou interdisiciplinar.






Vamos agora ver o papel de Delfim Santos na pedagogia existencialista portuguesa. Delfim Santos é considerado como sendo o principal introdutor do pensamento existencial, principalmente alemão, em Portugal. A sua acção difunde pela transmissão académica, já que Delfim Santos era o único catedrático de pedagogia no país, o mesmo pensamento, como também pela escrita. Vejamos, então, em linhas genéricas quais as posições filosóficas de Delfim Santos e como este pensamento é discussão existencialista. Comecemos pelo entendimento do que é a filosofia para Delfim Santos. Para Delfim Santos a filosofia é fundamentalmente a busca do conhecido, da existência concreta de cada um. Delfim Santos, como Heidegger, parte do homem situado no mundo, do homem da existência, da Dasein, ou ser-no-mundo, o sente. Este é o ponto de partida de toda a sua reflexão filosófica e é também, em simultâneo, ponto de chegada. O homem, ao tomar consciência da sua existência, percebe-se como ser finito, por mais que nos custe nós sermos finitos, somos um ser-para-a-morte. O homem tem em si mesmo a dimensão do absoluto, porque existe de forma gratuita, no próprio acto da existência. O homem tem em si a dimensão que o transcende e é nessa tensão entre o finito e o infinito que o homem permanece. Assim, diz-nos Delfim Santos que a existência remete-nos para a transcendência. O homem existe situado no mundo, na realidade dada ao homem, da qual ele não pode fugir. Está no mundo a estabelecer relações com as coisas, com os outros e consigo próprio. Essas relações têm com o mundo a preocupação, o homem preocupa-se com as coisas, buscando o sentido da sua utilização. O mundo é que é para mim. Preocupa-se com os outros, buscando um sentido para a sua cooperação, para a sua ligação com os outros e preocupa-se consigo mesmo, buscando um sentido para a sua existência. Esta preocupação pode manifestar-se autêntica ou inautêntica. Na existência inautêntica, o homem perde-se no mundo, vive a angústia de ser solitário, de ser diferente do outro e opta por ser por todos e acaba a viver a sua vida vivendo a vida dos outros. Ao contrário, a existência autêntica é aquela que resulta da plena consciência da personalidade, mas nesta o homem vive igualmente a angústia e o medo de se perder na massa anónima. A angústia está sempre lá presente: ou que eu tenha a angústia de ser diferente, ou que se tenha a angústia de não conseguir ser diferente. A angústia é aqui um valor positivo, estando para a própria condição da existência do homem. A existência é a contínua possibilidade de optar pela autenticidade, ou pela inautenticidade. É aqui que o nosso filósofo conclui pela predominância da educação, se esta for entendida como, a um tempo, palavra, para conduzir o aluno a uma actividade libertadora. Nós temos que aprender a ser autênticos. Ao perceber-se no mundo, o homem quer incorporar-se no mundo e é pelo conhecimento que o pode fazer-se. Estabelece-se aqui a primeira relação, uma relação de incorporação. Aqui Delfim Santos coloca três questões centrais. Conhecer o quê? Conhecer como? E conhecer para quê?



O primeiro problema desdobra-se em outros, cujo primeiro consiste em saber se o real é uno ou é múltiplo. Delfim Santos opta inequivocamente pela tese da multiplicidade do real e não pela sua unidade. Só na tentação do pluralismo ontológico, respeita a diversidade expressa do real; e, segundo Delfim Santos, o maior problema e a dificuldade das reflexões filosóficas ao longo da história do pensamento, dizem respeito à má determinação da realidade. Pensar, diz-nos Delfim Santos, exige preliminarmente a determinação da realidade, à qual as ideias pretendem retribuir-se. Esta é a primeira tarefa que cabe ao filósofo, a determinação ontológica da realidade. E segue-se uma outra igualmente fundamental: o assegurar cada uma dessa regiões o conhecimento que lhe é próprio. Partindo do princípio daquilo que Delfim Santos vai fazer, que não é nova, só que faz de uma maneira diferente, diz-nos que há estratos, regiões da realidade. Delfim Santos apresenta quatro: matéria, vida, consciência e espírito. Estas, por seu turno têm categorias ( a saber, causalidade, a matéria, a finalidade, a intencionalidade, a vida, a liberdade na consciência e o espírito) próprias e há formas de conhecimento adequadas ao conhecimento de cada uma dessas regiões ou estratos da realidade.
Na segunda questão, o problema coloca-se em saber que as formas de manifestação do real são coincidentes com as formas da apreensão do real, como é que o real se manifesta? Seremos dotados de capacidade de aprender as manifestações do real? Conseguimos pegar no real todo? Se conseguimos, a realidade é aquilo que nós conhecemos, ou a realidade é qualquer coisa e o que se conhece é uma parte da realidade? Quais são as nossas relações com a realidade? Há identidade entre as formas de manifestação do real ou não há identidade? E se há ou não, qual a parte idêntica e a que não é? O que queremos? Diz Delfim Santos que conhecer é sempre uma coisa de dois actos. O primeiro acto, que chama de transcensão, o sujeito sai de si mesmo para encontrar a realidade. No segundo acto, que ele chama de objecção (ou poderia ter chamado de objectivação) é quando o sujeito se torna a si mesmo. Portanto, o conhecimento é sempre subjectivo. A realidade é sempre alguma coisa independente de nós. O que nós conhecemos é o que nós conseguimos objectivar. Mas existe sempre algo que resiste ao nosso conhecer, que para Delfim Santos é trans-objectivo. E então qual é o processo da ciência da filosofia? É cada vez conseguir mais, fazer aquilo que nós não conseguimos objectivar para uma zona mais objectiva. Há muita coisa no real que nós não conseguimos perceber, há muita coisa ainda que não conseguimos objectivar.
O homem, quem é o homem, que é o que interessa à pedagogia. O homem é um ser que também tem esta camada, conseguindo fazer a síntese dessas três camadas. Mas o homem é um ser diferente da realidade. O homem também tem matéria, o homem também tem vida, o homem também tem consciência e o homem tem, para lá destas três, é o único ser que tem a quarta dimensão, o espírito. O homem faz a síntese desses estratos e esta síntese faz surgir algo de novo, a pessoa. O objectivo final do conhecimento é o conhecimento do próprio homem, o auto-conhecimento. O homem procura incansavelmente o conhecimento de si próprio para melhor entender a sua existência finita, na tensão entre o ser e o nada, entre o viver e o morrer, e com a consciência dolorosa da sua inevitável aniquilação. O homem é um ser-para-a-morte, que busca o outro pela comunicação e na cooperação pelo amor, numa fuga ao seu inevitável aniquilamento. Esta é a dimensão profundamente existencialista do pensamento de Delfim Santos. A filosofia, a ciência, todas as outras formas de saber, estão ao serviço da antropologia; e a pedagogia, para Delfim Santos, não é mais do que uma antropologia aplicada. Na sua relação e na sua intervenção, o homem percebe que conhecer o mundo não é apenas uma curiosidade, e o ser no mundo tem a finalidade de cooperar com o mundo, cooperar com o outro e o homem só pode ser na medida em que coopera com o mundo e esta cooperação faz-se através da comunicação, ou seja, poder encontrar o outro na identidade de comunicação cooperando com ele. A cooperação mais universal vai ser no plano da cultura. A cultura não é um produto individual, a cultura é um produto da nossa comunicação com o outro, daquilo que fica da nossa cooperação com toda a humanidade. É pela cultura, segundo Delfim Santos, que conseguimos vencer o nosso único fundamento, é quando nós deixámos alguma coisa, uma marca.




A obra mais importante de Delfim Santos, que vai ligar o pensamento existencial ao seu pensamento pedagógico, é a obra “Fundamentação Existencial da Pedagogia”. Aqui, a pedagogia, enquanto ciência, ainda não estabeleceu bem o seu estatuto epistemológico, ou seja, a pedagogia ainda continua a ser aquilo que Delfim Santos chama de “manta de retalhos”, A pedagogia como ciência autónoma e como método e objecto próprio ainda não se estabeleceu. Neste livro fala-nos também da questão da aprendizagem. Aqui, a aprendizagem surge como acto pedagógico, enquanto encontro e diálogo entre o docente e o discente. Da finalidade existencial da educação, dirá Delfim Santos que a tarefa principal dos mestres é levar os alunos a que pensem por si próprios, para chegarem a si próprios com mais autenticidade.

sábado, 15 de junho de 2013

Delfim Santos no Museu Bernardino Machado


No próximo dia 21 de Junho, pelas 21h30, no Museu Bernardino Machado (V. N. de Famalicão), realiza-se mais uma conferência do Ciclo temático “Pedagogos e Pedagogia em Portugal”. A convidada é Cristiana Soveral, Professora Associada com Nomeação Definitiva da Universidade de Trás-os-Montes e Alto-Douro, que vai proferir a conferência denominada “Delfim Santos e a Pedagogia Existencial”. A entrada é livre, encontrando-se as conferências do respectivo Ciclo acreditadas pelo Centro de Formação Científica/Educadores de Infância e Professores do Ensino Básicos e Secundário. Entrega-se certificado de presença.
Com a licenciatura em Filosofia pela faculdade de Letras da Universidade do Porto, mestrado em Educação/Filosofia da Educação pela Universidade Católica de Petrópolis e um Doutoramento em Ciências da Educação/Filosofia da Educação pela UTAD, Cristiana Soveral é actualmente em Portugal uma das maiores especialistas do pensamento de Delfim Santos. Para além de ter já publicado “A Filosofia Pedagógica de Delfim Santos” (2000), “Filosofia da Educação: principais linhas da filosofia moderna” (2001), assim como colaboração no V Volume da “História do Pensamento Filosófico Português” (2000), Cristiana Soveral tem no prelo alguns livros sobre Delfim Santos. Paralelamente, tem publicado e organizado, através da Fundação Calouste Gulbenkian, as Obras Completas de Delfim Santos.
Recorde-se que não é a primeira vez que Cristiana Soveral colabora com o Museu Bernardino Machado. Já esteve entre nós nos “Encontros de Outono “ de 2005 com a conferência “Reflexos do Pensamento Pedagógico de Delfim Santos no Sistema Educativo Português” e em 2009 nos Ciclos de Conferência “As Grandes Questões da I República”, falando então sobre “A Instrução e a Educação na I República”.