segunda-feira, 12 de novembro de 2012

A Conferência do Prof. António Reis no Museu Bernardino Machado



PALAVRAS-CHAVE

Maçonaria. Grande Oriente Lusitano. Mundo. Portugal. Estado Novo. Oposição Democrática. Internato S. João. 25 de Abril. Maçonaria Dogmática Regular. Grande Loja Regular de Portugal. Grande Loja Legal Regular de Portugal. Grande Loja Tradicional de Portugal. Grande Loja Feminina de Portugal. Grande Oriente Ibérico. Grande Loja Simbólica de Portugal. Grémio Hebraico. Grande Loja de Inglaterra. Grande Oriente do Brasil. Confederação Maçónica do Brasil. Maçonaria Liberal e Adogmática. Liberdade de Consciência. Grande Oriente de França. CLIPSAS. O Segredo e o Sigilo Maçónico. Ética. Civismo. Laicidade. Humanismo. Fraternidade. Universalidade. Liberdade. Igualdade. Cidadania. Tolerância. Respeito. Direitos Humanos


RESUMO

No encerramento do Ciclo de Conferências “A Maçonaria em Portugal”, uma atividade do Museu Bernardino Machado, o Dr. Paulo Cunha,Vice-Presidente da Câmara Municipal de V. N. de Famalicão e Vereador da Cultura, salientou o carácter “assombradamente atuais” das ideias pedagógicas e políticas de Bernardino Machado. Por seu turno, o conferencista, o Prof. António Reis, felicitou a “Câmara pela intensa atividade cultural, que há muito tem perseguido, ainda bem, para todos nós, para o povo deste concelho.”
Na sua conferência, o Prof. António Reis traçou uma panorâmica da Maçonaria nos dias de hoje em Portugal (verificando-se uma tendência para a fragmentação e um crescente interesse) e no Mundo (existindo uma Maçonaria Liberal Adogmática que cresce razoavelmente, pela inclusão da liberdade de consciência dos seus membros e pela inclusão das mulheres, em relação à Maçonaria Regular, a qual se encontra num processo de estagnação), traçou o desenvolvimento e os aspetos mais importantes da Maçonaria em Portugal no pós 25- de Abril e efectuou uma reflexão da mesma instituição  perante o mundo de hoje, evidenciando não só os obstáculos que a ela se colocam (caso do segredo e do sigilo e das suas relações com o poder político e económico), passando pelo sentido, pela utilidade e da necessidade da mesma instituição, assim como evidenciando os seus valores mais carismáticos (a saber, a trilogia liberdade, igualdade e fraternidade, à qual o prof. António reis pretende formar uma pentalogia, com o valor da laicidade e da cidadania).





Vice-Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão
Vereador da Cultura
Dr. Paulo Cunha

Começo por cumprimentar o Prof. António Reis que nos honra muito com a sua presença, no momento em que encerramos este Ciclo de Conferências. Felicito o sr. Prof. Norberto Cunha, que muito brilhantemente tem coordenado, de ponto de vista científico, este nosso Museu Bernardino Machado. Agradeço também a presença dos que aqui estão hoje, no momento em que vamos, como dizia há pouco, encerrar um ciclo que trouxe a este nosso Museu um tema de grande interesse, e que muito envolveu a nossa comunidade que maciçamente tem participado na iniciativa que aqui temos vindo a realizar.
Este nosso Museu Bernardino Machado procura, através de iniciativas como esta, atingir a maturidade, solidificar-se do ponto de vista daquela que é a sua função, uma função marcada pela redescoberta daquelas que são as virtudes e foram as obras do nosso patrono, Bernardino Machado, e temos procurado ao longo destes anos trazer para o presente, para a actualidade, aqueles que foram os seus feitos, aqueles que foram os seus trabalhos, aqueles que são os mais importantes legados que deixou ás gerações vindouras.
Temos dito que muitos dos seus trabalhos, muito das suas áreas, são hoje perfeitamente atuais, diria até, são assombradamente atuais, e cumpre-nos, eis a nossa missão, de honrar esta memória, esta nossa história, é isso que procurámos fazer no dia a dia neste nosso Museu; e este Ciclo de Conferências é mais uma etapa nesse mesmo processo.







Coordenador-Científico Museu Bernardino Machado
Prof. Norberto Cunha

Manifesto, antes de mais nada, o agradecimento da parte do Museu, pelo apreço que tem por esta casa, que é sua evidentemente, e nós partilhámos, e pelo apoio incondicional que sempre lhe tem dado. É um sinal, diria quase contrário aos tempos não só de Portugal, mas desta Europa cada vez mais definhada, e que secundariza a cultura; mas a verdade é que o sr. Vereador, ao arrepio de tudo isso, procura manter estas instituições, digamos assim, tonifica-las, não só com a sua palavra, como também com o seu apoio, e sem o apoio igualmente do sr. Presidente da Câmara, dificilmente tais instituições seriam insustentáveis. Penso que é bom que estas casas se mantenham abertas, pelo serviço que prestam. A este respeito, um exemplo: a nossa exposição das caricaturas, que esteve patente na Fundação Mário Soares, na altura da inauguração estavam cerca de 20 a 30 pessoas, e confesso então a Mário Soares que estava pouca gente; e ele diz-me que “a casa está muito bem composta!” O que significa que a oferta cultural por Lisboa é muito grande, e que, digamos assim, dá mais argumentos para a insistência a e continuidade de projetos como este em que o sr. Vereador e o sr. presidente da Câmara tanto têm apostado e em boa hora.
Meu colega das lides académicas, ao Prof. António Reis quero agradecer imenso de ele ter vindo aqui. Deixou-me um curriculum exíguo, mas permitam-me que diga algumas coisas, não politicamente, não vou falar do tempo em que ele foi co-fundador do Partido Socialista, vou só falar no âmbito académico. O Prof. António Reis tem trabalhos notáveis sobre o Portugal Contemporâneo. Destacava o seu trabalho sobre Raul Proença, que é uma referência incontornável, e penso que Raul Proença é uma figura emblemática não só pelo seu projeto intelectual, mas igualmente pela sua coerência de ideias e de práticas, apreciando-o muito mais pessoalmente do que António Sérgio; e quem quiser conhecer um homem dessa estatura intelectual, tem de ler os trabalhos do Prof. António Reis. Mas não ficou por aí: a obra sobre o “Portugal 20 anos de democracia”, na qual tem os textos “A Revolução do 25 de Abril”, “O processo de Democratização” e “O Poder Central”, na qual colaborou o Prof. Sousa Franco, é uma obra que é uma referência para conhecer o Portugal pós 25 de Abril de 1974; e esperámos que também venha a ser uma referência o Dicionário sobre o 25 de Abril, que atualmente o Prof. António reis está a coordenar.
Para além do curriculum normal, e mais propriamente com a conferência de hoje, o Prof. António Reis foi Grão-Mestre do GOL (2005 a 2011) e actualmente é o Presidente do CLIPSAS, que é a maior organização mundial da Maçonaria Liberal a Adogmática, eleito para o mandato 2011 a 2014. É uma pessoa digamos assim apta, para nos falar do que poderá vir a ser, deve ser ou será a Maçonaria no seu futuro.





O Convidado
Prof. António Reis

Começo por cumprimentar o sr. dr. Paulo Cunha, Vereador da Cultura da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, e felicito a Câmara pela intensa actividade cultural, que esta Câmara, aliás, há muito tem perseguido, e ainda bem, para todos nós, para o povo deste concelho.
Agradeço o convite do Prof. Norberto Cunha e dizer-vos que é com muito gosto que me encontro perante vós, não apenas para dissertar, durante algum tempo, sobre esta conferência que encerra o Ciclo, conferências sobre a Maçonaria, mas também para dialogar convosco para ouvir as vossas dúvidas, as vossas contestações e, eventualmente, os vossos pontos de vista, e tentarei esclarecer todas as questões que me vierem a colocar.
Ao reflectir sobre o tema que o Prof. Norberto Cunha me entregou, pensei que a melhor forma de dissertar sobre ele era, por um lado, traçar uma panorâmica da situação da Maçonaria em Portugal e no Mundo nos dias de hoje, ou seja, a Maçonaria em Portugal depois do 25 de Abril, a Maçonaria nos vários continentes e em todo o Mundo, nas suas diferentes organizações, e não ficar por aqui, porque acho que uma temática destas implica, sobretudo, uma reflexão sobre a atualidade da Maçonaria. É a Maçonaria algo de atual, algo que faz sentido nos dias de hoje, algo que faz sentido no mundo de hoje? O que é que dentro da Maçonaria pode justificar o interesse por ela nos dias de hoje? E é por isso que numa segunda parte, vou procurar responder a estas questões, por um lado, tentando identificar os motivos que há para hoje também se desconfiar da Maçonaria, do segredo da Maçonaria, que, por vezes, levanta grandes polémicas, como ainda recentemente aconteceu na comunicação social, mas também tentar ver até que ponto a Maçonaria tem uma mensagem que, de alguma maneira, suscite apetência, atracção, interesse no mundo de hoje. É, portanto, uma missão algo ambiciosa aquela a que me proponho hoje, aqui, trazer.





Em relação à situação atual da Maçonaria, qual é a paisagem das organizações maçónicas hoje em dia em Portugal e no Mundo? Sabemos que na altura da Revolução do 25 de Abril de 1974, devido à repressão ocorrida durante o Estado Novo, a Maçonaria estava quase extinta em Portugal. No dia 25 de Abril de 1974 haveria, no máximo, e com alguma boa vontade, embora os números variem, uma centena de maçons relativamente ativos em Portugal. Digo relativamente ativos porque era muito difícil, nas circunstâncias em que se vivia no Estado Novo, os maçons assumirem-se como tal, não podiam. Mas é também muito difícil para eles praticarem o seu trabalho em loja, fazerem sessões maçónicas em condições normais. O velho Grão-Mestre Luís Rebordão, ao longo do Estado Novo, transportava um pequeno templo maçónico numa maleta, com a qual se dirigia a vários pontos do país, onde havia alguns maçons, e colocava os instrumentos normais no templo, as duas colunas, que naturalmente serial mini-colunas, o tapete a fingir de chão maçónico de losangos pretos e brancos, ou quadrados, e as velas, alguns paramentos, pouco mais do que isso, em casa de particulares, normalmente, se organizavam algumas sessões, rituais maçónicos. Era qualquer coisa de verdadeiramente artesanal, mas que carregava, ao mesmo tempo, todo o peso da clandestinidade. Os maçons encontravam-se, sobretudo, na vida profana, ou seja, empenhados no combate político contra a ditadura, dentro do movimento da corrente republicana, da oposição democrática à ditadura. Era aí que eles se viam mais, entravam em jantares de confraternização, nos momentos eleitorais que o regime concedia com muita parcimónia, e aí, então, os maçons estavam presentes na primeira linha de combate, como aconteceu normalmente, sobretudo, desde o MUD a partir dos anos quarenta, logo a seguir à II Guerra Mundial até ao 25 de Abril.
Durante o período marcelista, assiste-se a uma certa atividade de maçons, nomeadamente nas associações para-maçónicas existentes em Lisboa e no Porto. Em Lisboa, o Internato S. João, fundado por José Estêvão, há 150 anos, aliás, precisamente este ano comemoram-se os 150 anos da fundação do mesmo internato, fundado em 1862, para apoiar as filhas de família desvalidas, nomeadamente órfãs, numa altura em que o Estado Providência não existia. Também no Porto, a partir de 1917, se funda outro internato de S. João para os filhos das mesmas famílias e ainda hoje existem, permanecendo atuantes. Têm hoje o estatuto de instituições particulares de solidariedade social e atravessaram ininterruptamente os tempos da ditadura que nunca ousou extingui-las, e essa era também uma das formas de os maçons se encontrarem, de se entreajudarem e, de alguma maneira, procederem a novas iniciações. Para além desta instituições, o mesmo acontecia na chamada Escola Oficina n.º 1, no Largo da Graça, em Lisboa, uma instituição de ensino extremamente avançada pelos seus métodos pedagógicos para a época, e que também se subsistiu ao longo das décadas da ditadura, que muitas vezes procedia-se a iniciações de novos maçons. Era assim que a cadeia ia sendo prosseguida ao longo dos anos. Lembro, por exemplo, que o Prof. Oliveira Marques, distinto historiador, foi iniciado nos anos 70 antes do 25 de Abril precisamente na Escola Oficina n.º 1. Não é por acaso, no meio de tudo isto, que o Primeiro-Ministro do 1.º Governo Provisório, a seguir ao 25 de Abril de 1974, o prof. Adelino de Palma Carlos, que era Maçon, acabou por ser Primeiro-Ministro. Isto deve-se ao facto, apesar dos maçons serem poucos, da existência da rede de solidariedade entre os maçons; verificava-se, ao mesmo tempo, que havia algumas figuras com prestígio, académicos, por um lado, oposicionistas, por outro, e que essa rede, de alguma maneira, acabasse por apresentar o nome do Prof. Adelino Palma Carlos como candidato a Primeiro-Ministro no 1.º Governo Provisório.



Com o 25 de Abril, a Maçonaria Portuguesa, o Grande Oriente Lusitano (GOL), que era a única instituição maçónica existente em Portugal nessa altura, conseguiu recuperar os seus bens, nomeadamente o velho palácio maçónico da Rua Grande Lusitano, em Lisboa, no Bairro Alto, um palácio comprado em 1869 ao pai de José Relvas, e que ainda hoje é a sua sede, e que esteve ocupada pela Legião Portuguesa desde 1937, na sequência do célebre decreto, ou da Lei de 1901 que extinguia as sociedades secretas, motivo para extinguir a Maçonaria. Essa Lei foi revogada e abolida pelo Decreto-Lei n.º 594/74, de 7 de Novembro de 1974, a qual legalizou a Maçonaria Portuguesa, nomeadamente a Associação que lhe dá cobertura cívica e jurídica, que é a Associação do Grande Lusitano, com sede no palácio referido. Não foi tão fácil quanto isso. No início, com aquela confusão caótica do processo revolucionário, logo a seguir ao 25 de Abril, o palácio esteve em risco de ser ocupado por uma comissão de moradores do Bairro Alto, que ali queria instalar a sua sede. Foi preciso a intervenção das Forças Armadas, graças à atuação de alguns maçons que havia dentro das Forças Armadas, ao mais alto nível, que evitou que o palácio fosse vítima dessa ocupação selvagem.
Mas os primeiros tempos do GOL da Maçonaria nessa altura não foram nada fáceis. Não se pense que acorreram pessoas em massa a candidatarem-se a membro do GOL perante a libertação com o 25 de Abril. Apareceram, sem dúvida, os velhos maçons, mas a captação de novos membros decorreu com bastante parcimónia e dificuldade naqueles primeiros anos a seguir ao 25 de Abril. Estou certo de que os primeiros anos não terá havido mais do que algumas escassas centenas de maçons que vieram engrossar as já estritas fileiras do GOL. Em 1976, evidentemente, ocorreu outro facto histórico e significativo, que foi a indemnização que o primeiro Governo Constitucional, sob a chefia de Mário Soares, deu ao GOL, que permitiu reconstruir o palácio, o qual tinha sido bastante danificado e devastado pela presença da Legião Portuguesa. A reconstituição foi um considerável impulso para que o GOL passasse a ter uma atividade mais livre, mais regular, com maior frequência das suas instalações, verificando-se o crescimento que vai ocorrendo, muito paulatinamente ao longo dos anos 70 e mesmo ao longo dos anos 80. No final dos anos 80, mesmo assim, o número de membros do GOL não ultrapassava os 500, os 600! Muito poucos, tendo em conta, relativamente aos tempos de hoje, há mais de dois mil maçons no GOL. Mas, como disse, até ao final dos anos 80 é muito paulatino e deve-se, a meu ver, em primeiro lugar, ao facto, na sequência do 25 de Abril, os grandes protagonistas serem os partidos políticos, os quais são a grande novidade da época. Mais facilmente se acorria às sedes dos partidos políticos, do que evidentemente a uma instituição como a Maçonaria com as suas características muito próprias, que era vista, nesta altura, como algo muito presa ao passado, com um certo sabor arqueológico, que ainda hoje passa para alguns, sendo mais visível naquela altura.
Isto mostra bem, portanto, a dificuldade de crescimento da Maçonaria em Portugal nesta primeira década  a seguir ao 25 de Abril, sendo que a meio dos anos 80 ocorre uma cisão no GOL. Que leva a que cerca de um terço dos seus membros tenha ido constituir outra obediência maçónica, a chamada Grande Loja Regular (GLR), depois de uma cisão ocorrida em 1984 dirigida por um Maçon do GOL, o dr. Fernando Teixeira, distinto médico analista, e que, primeiro, funciona como uma Grande Loja Distrital Portuguesa e depois em 1991 como Grande Loja Regular de Portugal e que em 1996, com convulsões internas, algumas delas transmitidas pela imprensa, se irá converter em 1996 na Grande Loja Legal Regular de Portugal (GLLRP), tendo nessa altura algumas centenas escassas de membros e que hoje em dia é a segunda grande organização maçónica portuguesa, caracterizada pela sua obediência à chamada Maçonaria regular, protagonizada pela Grande Loja Unida de Inglaterra e pelas grandes lojas norte-americanas, que são, sem dúvida, a organização maçónica internacional com mais lojas e com maior número de maçons iniciados. Isto foi um golpe dentro do GOL, obviamente, mas foi também um estímulo para que, através de alguma concorrência que é saudável através destas duas obediências maçónicas, tanto uma como a outra se empenhassem mais no recrutamento de novos membros; e a partir daí podemos dizer que a Maçonaria vai crescendo bastante por efeito desta saudável concorrência, de tal forma que a GLLRP, nestes últimos 20 anos tivesse multiplicado o número dos seus membros e anda atualmente à volta de 2000, pouco mais ou menos que o GOL tem nesta altura.
Para além destas duas obediências maçónicas, nós vamos encontrar hoje mais algumas, uma série delas, muitas delas resultantes de cisões, nomeadamente da GLLRP, que representa a chamada Maçonaria Regular ou Dogmática ligada à Inglaterra e aos Estados-Unidos da América. É o caso da Grande Loja Tradicional de Portugal (GLTP), fundada em 2001, com a obediência à Maçonaria Regular, por razões que tem a ver com a questão das mulheres, porque a Grande Loja Regular não admite mulheres, e esta GLTP, embora partilhando outras características da Maçonaria Regular, nomeadamente a crença do Grande Arquiteto do Universo e a necessidade de acreditar numa verdade revelada, no entanto, entendia que as mulheres podiam fazer parte da Maçonaria e, por isso, separou-se da GLRP, com o nome GLTP. Criou-se também a Grande Loja Feminina de Portugal (GLFP, 1996), uma vez que o GOL, por tradição histórica, não aceitava a presença de mulheres, embora aceitasse convidar mulheres  maçonas para frequentarem os seus templos e aceitasse também participar no trabalho de lojas femininas, como vem a ser o caso depois da constituição da GLFP. Para além destas obediências, existe hoje ainda a trabalhar em Portugal um Grande Oriente Ibérico (GOI), uma obediência espanhola, particularmente galega, fundada na Corunha, que tem algumas lojas a funcionar em Portugal e igualmente a Grande Loja Simbólica de Portugal, também uma obediência mista, tal como o Grande Oriente Ibérico, e que pratica um rito algo estranho e muito esotérico, rito antigo egípcio de Memphis e Misraim, praticada em todo o mundo, mas tendo um número reduzido de maçons. Esta GLSP constitui-se como Grande Loja a partir de 2011; e posso falar-vos também de uma pequena obediência, muito pouco conhecida, chamada Grémio Hebraico, que só aceita judeus, fundada em 2008, com membros reduzidíssimos, creio que não terão mais de 50.
Como vêm, a Maçonaria, nestes últimos vinte anos, por um lado, aumenta substancialmente o número dos seus membros, mas, por outro lado, tem uma certa tendência para uma progressiva fragmentação. Não deixa de ser, apesar de tudo, uma prova de que há um crescente interesse pela Maçonaria, incluído nas jovens gerações, e que leva a esta multiplicação obediencial e, por outro lado, a esta multiplicação de membros.





Como é que estamos relativamente à Maçonaria no Mundo? Temos as duas grandes tendências, as duas grandes famílias maçónicas, a da Maçonaria Regular que não reconhece a indicação maçónicas às mulheres, não as aceita, que acredita num Grande Arquiteto do Universo e, sobretudo, exige aos seus membros a prática de uma determinada religião, qualquer que ela seja, e assente numa verdade revelada, mantendo a tradição da primeira organização maçónica no mundo, fundada em 1717 em Londres, a Grande Loja de Inglaterra, que tem cerca de um milhão e duzentos mil membros no Reino Unido, na Grã-Bretanha, cerca de 22% do seu total; a Maçonaria norte-americana, dividida pelos diferentes estados, com três milhões e duzentos mil membros, cerca de 58% do seu total, que tem também uma forte presença no Brasil, com cerca de cento e cinquenta mil membros, 2, 7%, 4700 lojas legais. Maçonaria no Brasil que está dividida em três grandes confederações, digamos assim, a primeira Grande Oriente do Brasil (GOB), funda logo a seguir à independência, e que foi Grão-Mestre logo nos primeiros tempos o imperador D. Pedro I (D. Pedro IV de Portugal). Contém ainda o Brasil uma Confederação de Grandes Lojas, uma por cada estado brasileiro, e com a chamada Confederação Maçónica do Brasil, que é uma dissidência do GOB, com a qual o GOL tem relações privilegiadas, apesar de não ser uma obediência reconhecida pela Maçonaria anglo-saxónica. Para além desta Maçonaria Dogmática Regular existente no mundo, há uma Maçonaria Liberal e Adogmática, na qual o GOL se integra, e que é uma Maçonaria que baseia toda a sua filosofia no princípio da liberdade absoluta de consciência e que, por esse motivo, admite também agnósticos e ateus nas suas fileiras. Isto vem decerto modo pela cisão da Maçonaria mundial operada em 1877 pelo Grande Oriente de França, que estabeleceu essa regra da liberdade de consciência. Dessa maneira, esta Maçonaria começou a estender-se, nomeadamente pela Europa latina (Portugal, Espanha, França e Itália), e tem vindo a crescer regularmente, Em breve também chegou a constituir-se como uma Maçonaria aberta à inclusão das mulheres e é, por isso, hoje uma Maçonaria que, liberta dos dogmas da Maçonaria Regular e da discriminação do género, tem tendência a crescer bastante mais depressa do que a Maçonaria Regular. Esta, quer nos Estados Unidos quer na Inglaterra, está num processo de estagnação e de envelhecimento pela idade média dos seus membros e, sobretudo, pela não abertura à presença das mulheres no seu seio. A Maçonaria Liberal e Adogmática foi tentando criar as suas próprias organizações internacionais (Já no século XX, o nosso Sebastião de Magalhães Lima pertenceu a uma dessas associações internacionais)) e a partir da II Guerra Mundial esta Maçonaria foi criando novas bases, até que em 1961 na cidade francesa de Strasbourg resolveu criar a sua associação internacional, CLIPSAS – Comité de Ligação e de Informação das Potências Maçónicas Signatárias do Apelo de Strasbourg. Apelo que baseado na primazia da liberdade de consciência, o grande valor oficial maçónico. Desde aí, este CLIPSAS tem-se desenvolvido: foi fundado por cerca de uma dezena de obediências maçónicas europeias e hoje em dia conta com 74 obediências, divididas pelos vários continentes, com uma forte presença europeiqa, sul-americana (Brasil, Argentina, Chile e Colômbia), alguns países africanos (Marrocos e Congo) e no Médio-Oriente (particularmente no Líbano). O crescimento da Maçonaria Liberal hoje em dia é bem maior do que a Maçonaria Regular e Dogmática.




Está aqui traçada a maçonaria em Portugal e no Mundo, mãos do ponto de vista quantitativo do que propriamente filosófico, e acho que é altura de passar precisamente a uma reflexão sobre, por um lado, os obstáculos que hoje se colocam à sua credibilidade e prestígio, as ameaças sobre a sua imagem e, por outro lado, a uma reflexão sobre o sentido que faz hoje a Maçonaria, qual a sua utilidade, qual a sua necessidade.
Creio não me enganar muito, se disser que os principais obstáculos ao prestígio e à credibilidade da Maçonaria são aqueles que têm a ver com a cultura do segredo, sobretudo numa sociedade democrática e aberta como deve sé hoje em dia a nossa, e, por outro lado, aquela que tem a ver com as suas relações políticas e económicas, que igualmente levantam muitas desconfianças e muitas reservas.
O segredo maçónico o que é? O segredo maçónico tem várias dimensões. Há um segredo maçónico que incide sobre o próprio ato da iniciação do maçon (porque a Maçonaria é uma ordem iniciática), sobre os ritos, sobre os símbolos. Contudo, estamos perante um segredo relativo, porque hoje a internet trás tudo, já que vemos lá muita coisa sobre os ritos, os símbolos da Maçonaria. Mas atenção: uma coisa é conhecer os símbolos e os ritos da Maçonaria pela internet, outra coisa é conhecê-los e vivê-los através de um ato vivencial da iniciação e do próprio trabalho em loja que envolve toda uma vivência interior que é dificilmente transmissível pela internet, já que tem a ver com o foro de cada um de nós.
A segunda dimensão do segredo maçónico tem a ver com o sigilo que os maçons assumem relativamente à condição de maçon, já que nenhum maçon pode revelar a identidade dos seus membros.
A terceira dimensão tem a ver com o direito de cada maçon se identificar a ele próprio ou não como maçon. Isto deve ficar á consciência de cada um.
Do mesmo modo em relação à política, já que são os maçons que individualmente como tal que devem, e têm muitas vezes, e infelizmente, uma intervenção política ativa e militante. Não é a Maçonaria como organização que tem essa intervenção: a Maçonaria não é uma organização de massas como o são os partidos políticos, não pode nem deve ter enquanto instituição essa intervenção. A Maçonaria procura, sim, situar-se num espaço ético-cívico, suprapartidário, proclamando os valores humanistas e fraternalistas. Os maçons não obedecem, no plano da ação política, a nenhuma central de comando. A ordem maçónica assume-se, sobretudo, como escola de formação de homens, como sociedade intermédia entre o indivíduo e o Estado através da defesa de uma série de valores éticos, morais e sociais, de recorte iluminista, como os que levaram á abolição da escravatura e da pena de morte, e à implantação da democracia e das suas conquistas, no plano dos direitos humanos, com destaque para a laicidade e o desenvolvimento cultural. É só neste sentido que a Maçonaria se reveste na sua dimensão política, mas não enquanto máquina organizada com vista à conquista e conservação do poder.
E assim chegamos ao terceiro e último ponto da minha intervenção: que sentido faz hoje a Maçonaria, qual a sua utilidade, qual a sua necessidade.





Penso que o sentido e a necessidade hoje da Maçonaria tem a ver com as suas dimensões essenciais. Primeira dimensão: o seu carácter de vanguarda ético-cívico como escola de formação, como já acentuei. Em segundo lugar, o seu carácter de ser uma espiritualidade laica, não religiosa, mas também anti-religiosa. É através destas duas dimensões que a Maçonaria pode, ainda hoje, exercer atração e fascínio sobre as pessoas. A Maçonaria, como vanguarda ética e cívica, portadora de um conjunto de valores de uma ética humanista, fraternalista e universal, os quais os maçons procuram implantar por diversos meios e caminhos, é uma vanguarda ética e não política, não atuando como organização política, porque o único e superior poder que busca é dos ideais e valores da moral universal que preconiza, a saber, a conhecida trilogia liberdade, igualdade e fraternidade, mas à qual acrescento sempre, para fazer desta trilogia uma pentalogia, também o valor da laicidade e o valor da cidadania. E é evidente que a Maçonaria, sejam quais forem as obediências, procura ser a consciência da reserva moral da República e é, por isso, que os maçons não podem desertar do combate, cabendo-lhes resistir, onde outros claudicam, e dar o exemplo de determinação e coragem no empenhamento em causas cívicas. Por que meios? Através naturalmente da atuação do empenhamento individual dos seus membros em organizações de carácter cívico, político, cultural e de solidariedade social, através das atividades da própria ordem, das suas lojas viradas para o mundo profano (muitas lojas organizam encontros, colóquios, conferências, publicações, através da palavra pública do Grão-Mestre em determinadas circunstâncias também).
Isto enquanto vanguarda ético e cívica. Enquanto espiritualidade laica: espiritualidade porquê? Porque o maçon parte da experiência da incompletude e da falha e da imperfeição de cada um para o conduzir na via do progressivo autoaperfeiçoamento moral e do autoconhecimento em busca do sentido e da verdade, estando aqui patente o privado ético do espírito sobre a matéria. Espiritualidade não-religiosa porquê? Porque não aceita dogmas, não é um sistema de pensamento com pretensões de totalidade, ou de fabrico de uma imagem completa do homem e do mundo, porque não revela uma verdade superior, nem constitui uma doutrina por vias da revelação de um profeta, é antes uma organização com vida, à busca desinteressa da verdade e do sentido, embora partilhe com as religiões uma linguagem simbólica e práticas rituais como forma de difusão e de vivência da sua filosofia e espiritualidade. A Maçonaria é esse lugar em que permanecemos livres de acreditar ou não um Deus, e de darmos a esta palavra o sentido que quisermos. Através da Maçonaria, tanto podemos encontrar o inferno a partir do agnosticismo, como fazer o caminho inverso para uma procura desligada de qualquer laço a uma revelação. É essa também a riqueza da Maçonaria. Mas espiritualidade não anti-religiosa porquê? Porque admite no seu seio crentes de diversas religiões, na base do princípio da liberdade absoluta de consciência, exaltando a virtude da tolerância, entendida como respeito pelas todas as crenças e no direito de exprimi-las livremente, na senda filosófica de um dos maiores maçons da história, Voltaire.
Perseguida pela Igreja Católica durante alguns séculos, pelo menos até ao Concílio Vaticano II, olhava com desconfiança para outras religiões, nem por isso a Maçonaria deixou ao longo da sua história de conquistar adeptos das mais diversas crenças religiosas e a partir, sobretudo, dos finais do Século XX de agnósticos e de ateus. No trabalho em loja, todos se uniam na preocupação de realizar esta ética universal, reforçando a cadeia de união fundada na fraternidade e no respeito pela liberdade da crença de cada um. E é sobejamente conhecido o papel que os maçons desempenharam nos últimos três séculos no combate pela liberdade de consciência da religião, como condição para a paz no mundo e na defesa do princípio da laicidade como garantia jurídico-constitucional do exercício efetivo dessa mesma liberdade religiosa. Nesse combate, os maçons não tiveram apenas que enfrentar os fundamentalismos de natureza religiosa, mas também, como é sabido, os totalitarismos políticos de base ideológica, fossem os fascistas ou os comunistas, e se estes acabaram por ser derrotados em quase todo o mundo, o certo é que aqueles, os fundamentalismos de natureza religiosa, apesar da nítida evolução da Igreja Católica a partir do Concílio do vaticano II, continuam a ressurgir um pouco por todo o lado, mas com especial acuidade no neo-evangelismo protestante americano e em determinadas correntes radicais do islão, com as consequências dramáticas que se conhecem, ou seja, a inclusão de práticas violentas, guerreiras e terroristas, exercidas em nome de crenças de natureza religiosas com objetivos de natureza política. O que torna por vezes difícil discernir se é o poder político que manipula os sentimentos religiosos, ou se é a religião que se serve do poder político para impor como verdade única e absoluta, ou se ambas as situações se potenciam uma à outra.






Simultaneamente, a difusão de uma cultura pós-moderna, assente no individualismo perante o relativismo dos valores, lançou novos desafios ao personalismo humanista e da ética universal dos direitos humanos que inspira filosoficamente a ordem maçónica. A Maçonaria encontra-se hoje perante um duplo desafio do recrudescer dos fundamentalismos religiosos, mas também da emergência de uma cultura materialista e consumista alheia a uma hierarquia de valores, mas na qual a “morte de Deus” não deixa de favorecer em compensação a libertação dos indivíduos da autoridade das esferas religiosas. Este é um dos grandes paradoxos do mundo financeiramente globalizado, mas atravessados, ao mesmo tempo, por nítidas contradições de natureza cultural. Um mundo marcado tanto pelo regresso do religioso, infelizmente nas suas formas mais perversas, como pela referida “morte de Deus”, com a sua ambivalente consequência, libertação as consciências, mas também perda de referências morais e a alienação do ser no ter. Ira bem, não surpreende por isso que nos últimos anos se tenha vindo a assistir no mundo ocidental a inclusão de diversos movimentos e correntes de pensamento em busca daquilo que poderíamos chamar uma espiritualidade laica ou sem religião, desenvolvendo-se uma arte de viver que dispensa a inspiração ou a tutela das religiões instituídas, em nome daquilo a que poderíamos chamar uma sabedoria laica.
Neste contexto, a própria Maçonaria já vem beneficiando do crescente anseio por uma alternativa espiritual laica, capaz de conjugar uma síntese criativa, um conjunto de dimensões que dificilmente vemos reunida nas outras espiritualidades laicas. Quais são estas dimensões? A Maçonaria consegue organizar uma síntese criativa. Em primeiro lugar, o aprofundamento da vida interior e da busca do aperfeiçoamento moral, em diálogo com o outro, em ambiente de grande tolerância e de respeito pela pluralidade de crença das ideias. Segunda dimensão: a satisfação da sede do simbólico, com a exigência de um suplemento de alma, que nos liberta dos limites e dos constrangimentos de uma visão materialista do universo e da vida. Terceira dimensão: a defesa dos valores de uma ética racionalista universal, inserida na tradição histórica de combate pela sua implantação na sociedade. Quarta dimensão: um investimento em prática operativa de solidariedade social.
É a meu ver esta capacidade para juntar tão diversas dimensões que dá hoje à Maçonaria ter um espaço próprio e de ser uma força atrativa especial, perante outra espiritualidade ou simples organizações de natureza política, cultural ou estritamente filantrópica. É também esta capacidade que a torna apta a responder aos desafios complexos do mundo de hoje, bem como satisfazer os anseios de todos aqueles que não se contentam com as tradicionais formas institucionais. A Maçonaria, hoje, permite-nos, além disso, preencher o vazio as grandes narrativas ideológicas e utópicas de legitimação, essas filosofias deterministas da história agora em crise, tal como são o positivismo, o marxismo ou o neo-liberalismo.






quinta-feira, 8 de novembro de 2012

A Maçonaria Hoje



Para o encerramento do V Ciclo de Conferências, dedicado este ano à temática “A Maçonaria em Portugal: do século XVIII ao século ao século XXI”, a Câmara Municipal de V. N. de Famalicão e o Museu Bernardino Machado convidaram o Prof. António Reis. A conferência do Prof. António Reis com o título “Maçonaria Hoje” irá decorrer no próximo dia 9 de Novembro, pelas 21h30, no Museu Bernardino Machado. Com a entrada livre, recebendo os participantes certificado de presença, estas conferências são acreditadas pelo Conselho Científico de Formação Contínua de Professores, nomeadamente para os professores das disciplinas de História, Filosofia e de Sociologia.
Professor Auxiliar Aposentado da Universidade Nova de Lisboa, o Prof. António Reis, licenciado em Filosofia pela Universidade de Friburgo (Suíça), é Doutorado em História Cultural e das Mentalidades Contemporânea e investigador do Instituto de História Contemporânea da referida Universidade. Com vários livros e dezenas de artigos publicados na área da História Contemporânea (a saber, “O Marxismo e a Revolução Portuguesa”, 1979 ou “Raúl Proença: biografia de um intelectual político republicano”, 2003, entre outros, e em coautoria e de direção, nomeadamente “Portugal: vinte anos de democracia”, 1994), o Prof. António Reis foi Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano-Maçonaria Portuguesa entre 2005 a 2011 e, mais recentemente, foi eleito Presidente do CLIPSAS, a maior organização mundial da Maçonaria Liberal e Adogmática, para o mandato entre 2011 a 2014. Destaca-se igualmente o facto de ter sido redator da revista “Seara Nova”, entre 1969 a 1974, e mais tarde foi diretor-adjunto da revista “Finisterra”.
Com uma atividade social e política relevante e de mérito, antes e pós-25 de Abril de 1974, o Prof. António Reis, para além de ter sido um dos cofundadores do Partido Socialista, foi agraciado em 25 de Abril de 2004 com o Grau de Grande-Oficial da Ordem da Liberdade. Atualmente, integra o Comité de Especialistas escolhidos pelo Parlamento Europeu para orientar a criação da casa da História Europeia.
Recordamos que esta não é a primeira vez que o Prof. António Reis vem a V. N. de Famalicão: em 1999 esteve presente nos II Encontros de Outono (“Política Cultural”), em 2005 no I Ciclo de Conferências Os Presidentes da República (“Soares Presidente: a magistratura de influência”) e, finalmente, em 2006, nos VII Encontros de Outono (“O Exílio Socialista Organizado: da ação socialista ao Partido Socialista”). Acrescento, igualmente, que o Prof. António Reis esteve presente nas Comemorações dos 75 Anos da Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco, em 1988.




terça-feira, 6 de novembro de 2012

Bernardino Machado e a Agricultura


Esta é a surpresa que prometi ao Dr. Manuel Sá Marques. Espero que goste. Com o meu abraço fraternal de amizade e de saudade.

“E a agricultura portuguesa convenceu-se de que para o seu desenvolvimento precisava, sobretudo, de se instruir…”
Bernardino Machado




Uma das primeiras referências de Bernardino Machado relativamente à agricultura, vem já do ano de 1883, intervindo na Câmara dos Deputados a propósito dos discursos pronunciados dos “senhores deputados a favor da cultura do tabaco no Douro”. Em representação da então Comissão de Defesa do Douro, Bernardino Machado pretende que o governo de Fontes Pereira de Melo apresentasse um projecto lei sobre a cultura do tabaco na região do Douro. Considerando que “o estado do país vinhateiro era angustioso”, registando-se a “falta de trabalho, a emigração e a diminuição do consumo”, causas que representavam o decréscimo da “indústria e do comércio do vinho”, a proposta de Bernardino Machado e da respectiva Comissão é que se não pretendesse “estabelecer definitivamente no Douro a cultura do tabaco”, mas sim estabelecê-la de forma transitória.
Em 1893, no governo de Hintze Ribeiro, e Ministro do Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, entre Fevereiro a Dezembro (Ministério que tem como seus sucessores Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, Ministério da Economia e da Inovação e Ministério da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas), Bernardino Machado propôs várias medidas de desenvolvimento, as quais podemos retirar segundo uma resenha do próprio, no discurso que então pronunciou no Congresso Vitícola Nacional de 1895:





Sr. presidente, durante a minha gerência ministerial, entendi que devia acompanhar este movimento para fomentar a intensidade da produção, e fiz, pela primeira vez, a distribuição de adubos e de preparados cúpricos garantidos. Seguindo o pensamento do meu ilustre antecessor, o sr. Visconde de Chanceleiros, eu pela primeira vez pude adquirir plantas exclusivamente dentro do país para a renovação dos nossos vinhedos; e acrescentei o número de viveiros oficiais, ao norte e ao sul do país.
Para fomentar o aperfeiçoamento do fabrico, tendo visto os resultados obtidos pela Companhia Vinícola do norte do país, resultados realmente credores de todo o aplauso, entendi que devia, ao sul, subsidiar uma outra companhia, também credora de todas as simpatias, a União Vinícola e Oleícola de Viana do Alentejo, para ela poder levar a efeito a construção dum lagar e adega sociais.
Igualmente, dei a mão ao movimento associativo, e apoiei no parlamento e no meu ministério a proposta para a formação de sindicatos agrícolas, apresentada pelos srs. deputados Alfredo Barjona de Freitas e Dinis Moreira da Mota. Estimo deveras ter ensejo de prestar homenagem, diante de um, a ambos esses deputados, que foram os primeiros a exemplificar a importância do princípio associativo, organizando, um, um sindicato no continente e o outro um sindicato nas ilhas.
E, como a grande mola é a instrução, eu, de mais a mais, na minha antiga e nunca esquecida qualidade de professor, procurei impulsar o ensino agrícola, reformando as escolas de viticultura, no sentido de as tornar verdadeiramente práticas para prepararem capatazes vitícolas e mestres de adegas, e dotando o Instituto Agrícola com mais tempo lectivo para o ensino da viticultura e com uma quinta anexa para campo de experiências. Mas, como o ensino não se faz unicamente nas escolas, e o ensino não é só para os adolescentes, é também para os adultos – honrado pela colaboração dos srs. Jaime Batalha Reis e Cincinato da Costa, iniciei no país conferências  para a vulgarização dos melhores processos de cultura da vinha e de fabrico dos nossos vinhos, bem como das prescrições que os comerciantes deviam seguir para a colocação dos vinhos no estrangeiro. E, sr. presidente, além do ensino dado na escola, além do ensino dado pela palavra oral, pude fundar uma biblioteca agrícola, destinada a espalhar pelo país as melhores publicações agrícolas, e, portanto, também sobre viticultura.


Neste discurso, publicado mais tarde na brochura “Os Vinhos Portugueses” (1897), realça-se a preocupação pela reorganização dos estabelecimentos de ensino, como foi o caso do Instituto de Agronomia e Veterinária, a protecção à agricultura, tentando promovê-la através da educação e de uma instrução prática, tendo em vista o desenvolvimento económico da mesma, assim como com o comércio dos nossos vinhos, planeando, ao mesmo tempo, a sua propaganda, ou o seu respectivo marketing, no mercado estrangeiro. A este propósito dirá Bernardino Machado que “não basta fazer a propaganda dos nossos vinhos, não basta demonstrar a sua valia, as suas qualidades”, sendo “indispensável defendê-los dentro do país e fora dele.” E continua: “Para os defender dentro do país temos um meio, que é o imposto de importação”; por seu turno, o outro problema, defender os nossos vinhos no estrangeiro, tal situação promove-se pela edificação de tratados comerciais, para evitar assim que as falsificações, as quais promovem a concorrência “desleal”.
E se a “grande mola é a instrução”, Bernardino Machado vai criar em 30 de Junho de 1893 a Biblioteca Nacional Agrícola, para promover a instrução às populações rurais e “vulgarizar os factos que a ciência e a experiência têm colhidos e são, sem dúvida, a base dos novos métodos de cultura e de fertilização das terras.” Para além desta situação, e para desenvolver a “lavoura nacional”, esta Biblioteca Nacional Agrícola tem como um outro objectivo estimular a criação de obras, na medida em que se reconhece a “ausência de livros” para uma “imediata utilidade prática”. A Biblioteca Nacional Agrícola divide-a Bernardino Machado em quatro partes ou secções: i) secção de ensino primário e agricultura; ii) secção do cultivador, estando destinada ao ensino elementar para uma agricultura prática; iii) a secção do lavrador, a qual poderia servir para o ensino superior de uma agricultura prática e, finalmente, a secção do ensino primário, a qual compreende os livros que estavam destinados a desenvolver nos estudantes de instrução primária o gosto pela agricultura.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Lopes de Oliveira e Bernardino Machado



Para o Dr. Manuel Sá Marques, as relações de amizade entre Lopes de Oliveira e Bernardino Machado, aqui bem patenteadas nesta correspondência, com o meu abraço de fraterna amizade saudosa









domingo, 22 de julho de 2012

P. Benjamim Salgado e Camilo Castelo Branco




A Fundação Cupertino de Miranda publicou recentemente a 2.ª edição deste livro do P. Benjamim Salgado, "Camilo em Datas, Factos e Comentários", que teve recepção no "Diário de Notícias", de 21 de Janeiro de 1973 (ver mais abaixo). Homem forte do Estado Novo no concelho de Vila Nova de Famalicão e no distrito de Braga, a autarquia famalicense tem valorizado a sua acção na cultura. Da "Nota Breve" de Pedro Álvares Ribeiro, Presidente do Conselho da Administração da Fundação Cupertino de Miranda, para além da relação desta instituição com Vila Nova de Famalicão no plano da cultura, realçam-se as palavras de memória relativamente ao Dr. Manuel Simões, que a Fundação e Vila Nova de Famalicão tanto deve! Por seu turno, o prefácio desta 2.ª edição, de Aníbal Pinto de Castro, alia a cultura e o homem de fé, que foi o P. Benjamim Salgado, para além do político. Esta segunda edição não reproduz o desenho de Amândio Silva do P. Benjamim Salgado, que aqui se coloca. A capa de Amândio Silva, assim como o desenho do P. Benjamim Salgado, da primeira edição, poderiam ter sido reproduzidos num fac-simile, tal como a Fundação realiza exemplarmente com Mário Cesariny.





"Com um capa do pintor Amândio Silva, que nos dá uma visão dramática e serena do autor de «A Brasileira de Prazins», publicou a Fundação Cupertino de Miranda, de Vila Nova de Famalicão, o volume «Camilo em Datas, Factos e Comentários», obra de muito valimento, assinada pelo rev. padre Benjamim Salgado, director da Casa-Museu de Camilo (S. Miguel de Seide), do «Boletim da Casa de Camilo» e, mais recentemente, da Biblioteca da Fundação Cupertino de Miranda. / O volume em referência, com as suas 150 páginas, é constituído por uma primeira parte («Datas e Factos»), abrangendo a lista dos acontecimentos ligados, por ordem cronológica, à vida doe scritor; relação de todas as suas obras, feita também por ordem cronológica e com novas ordenações, de acordo com os géneros literários a que pertencem, os próprios textos literários (poesias, traduções, ficção, jornalismo, ensaios, críticos, etc.). Obras inéditas, obras que mudaram de nome, obras projectadas mas não publicadas, encerrem este primeiro capítulo,a  que se segue um outro, de «Comentários». Neste são encarados problemas genealógicos: transcritos textos autobiográficos, referentes aos casamentos, às polémicas literárias, à tragédia da cegueira e da loucura dos filhos, à glorificação e, por fim, excertos de críticas, consagrando-o, feitas por grandes nomes das letras portuguesas, brasileiras e espanholas e outros que, não o sendo, igualmente o admiram. / Numerosos documentos relativos ao nascimento, morte, baptismo, matriculas, casamentos, etc., aqui são transcritos, tornando este livro extremamente útil a quem pretenda, rapidamente, obeter uma resposta sintética às perguntas sobre a vida e a obra do grande escritor. / Mas, além desta importante contribuição, o rev. padre Benjamim Salgado dá ainda, na obra, reprodução de alguns dos melhores retratos de Camilo, em desenho, pintura e escultura, assinados por Dórdio Gomes, J. Correia, Júlio Resende, Bordalo Pinheiro, Amândio Silva, Cristiano de Carvalho, Abel Salazar, teixeira Lopes (um magnífico esboceto agora fundido em bronze e que figura na Fundação Cupertino de Miranda), Raúl Xavier, Diogo de Macedo, Barata Feio, Maria Irene Vilar e, por fim, José Rodrigues que apresenta dois impressionantes desenhos (dobrado já o escritor perante o fantasma da morte). / Eis, pois, um volume bem escrito, bem pensado e bem sentido por um camilianista apaixonado, que presta a Camilo, mais do que uma homenagem, ums erviço a favor dos seus admiradores."

sábado, 21 de julho de 2012

José Hermano Saraiva e Vila Nova de Famalicão


Esta é a minha homenagem a um historiador polémico e à sua participação cívico-política (Ministro da Educação em 1969, encontrando-se ligado às famosas greves académicas), e à sua relação com Vila Nova de Famalicão. Quando em 2005 o escutei no Congresso Famalicão Com História, realizado no Auditório do Centro de Estudos Camilianos, em S. Miguel de Seide (no qual participei com a comunicação "Literatura & Imprensa: do local ao global") numa comunicação sobre Famalicão, revelou não só o seu poder comunicativo, assim como igualmente um outro lado, o seu requintado humor, suspendendo o auditório, o qual, no final, lhe conferiu uma fantástica ovação. Uma outra sua participação com Famalicão relaciona-se com estes "Dramas de Camilo", gravado por terras camilianas para o programa "A Alma e a Gente" e transmitido na RTP em 5 de Abril de 2003. Contudo, a sua primeira vinda a Vila Nova de Famalicão, e numa viagem temporal-histórica, remonta-se ao ano de 1969, numa altura em que conferiu a Secção de Vila Nova de Famalicão do Liceu Nacional de Braga (isto em Agosto), bandeira do deputado Dr. Luís Folhadela de Oliveira, visitando Famalicão em Outubro. O Presidente da Câmara Municipal de então, Dias Costa, vai-lhe conferir o título de "Cidadão de Honra Famalicense".


segunda-feira, 16 de julho de 2012

os fundamentos filosóficos do maçonismo moderno

Palavras-Chave:
Iluminismo. Humanidade. Homem. Livre-Pensamento. Libre-Discussão. Deísmo. Teísmo. Mecanicismo. Soberania. Tolerância Civil. Secularização. Cosmopolitismo. Pluralismo. Filantropia. beneficiência.
Coloco aqui a capa de alguns dos livros, da minha biblioteca, da garagem-filosófica, citados pelo Professor Fernando Catroga
Conferência gravada.



Prof. Norberto Cunha, Coordenador Científico do Museu Bernardino Machado
Apresentação do Conferencista

Com a conferência de hoje do Professor Fernando Catroga, que vai falar-nos sobre os fundamentos filosóficos da maçonaria, do maçonismo, fechamos a primeira parte do ciclo de conferências sobre a Maçonaria, que vai ser retomado em Setembro. Só queria dizer algumas palavras sobre o Prof. Fernando Catroga, não muitas. Só queriam que soubessem que o Prof. Fernando Catroga é uma das referências da nossa cultura portuguesa contemporânea pela sua originalidade, escreveu imensas obras, imensos trabalhos, desde Voltaire à secularização, o republicanismo, sobre a historiografia, a teoria da história. São trabalhos que valem a pena ler e revisitar, não só pela frescura intelectual, até pelo prazer de o lermos, porque quando o lemos temos sempre algumas perplexidades, são trabalhos que suscitam problemas, interrogações, e, por isso, tornam-se particularmente interessantes. Penso que isso se deve a uma matriz filosófica da sua escrita; e entre todos os livros que escreveu, trouxe este, que se chama “Entre Deuses e Césares: secularização, laicidade e religião civil”. É um livro interessantíssimo, do melhor que se publicou neste país nos últimos anos, e tudo o que o Prof. Fernando Catroga escreve deve-se ao seu pensamento original e ter uma visão muito sui géneris, muito própria deste país e da nossa cultura. Por isso, é um privilégio para este Museu, e para esta autarquia, tê-lo entre nós, nunca se escusando aos nossos convites.


Professor Fernando Catroga
É com muito gosto que mais uma vez aqui estou, nesta casa, é uma colaboração que já tem anos, e queria felicitar o Museu pelas suas múltiplas iniciativas e por ter trazido este tema, mas a mais sabendo que não foi a reboque da repentina actualidade que ele ganhou entre nós, já que já estava planificado. Às vezes são as coisas que vêm ter connosco, embora seja muito difícil convencer os outros de que foi o cruzamento das linhas do acaso.
Com o convite do Prof. Norberto Cunha, percebi a razão do mesmo, devido aos meus trabalhos sobre a Maçonaria, que ultiumamente não me tenho dedicado muito. Não sou maçon, julgo que é importante dizer isso. Digo isto, e não tendo nada contra a Maçonaria, para sabermos o lugar de onde falo e para também justificar a perspectiva que aqui vou privilegiar. É uma perspectiva que, talvez a expressão mais correcta, seja o conceito externalista, mesmo quando possa convocar afirmações, ou documentos, em que esta dimensão externa se repercute no interior da Maçonaria, particularmente, e, precisando um pouco melhor, no maçonismo, sem entrar numa querela que me parece que faz muitas consfuões a presuntismos ou a anti-presuntismos, saber quem é que está primeiro, isto é, se foi a maçonaria que produziu as coisas, ou se havia conjunturas que devem ser mobilizadas para explicar como é que a configuração de uma nova sociabilidade, a partir de um certo momento, vai perfilhar princípios, ideias e valores, que vai organizar-se como uma sociedade ritual, e que vai estar, de facto, num dos grandes momentos que nós podemos chamar de os momentos inaugurais da modernidade ocidental.


Não vou falar da Maçonaria portuguesa, não vou falar dos ritos maçónicos (sou um leigo nesta questão), não vou falar também das origens míticas da Maçonaria; e, por isso, falo da Maçonaria moderna, precisamente com esta ideia: a transmutação, que na linguagem da evolução neste tipo de organizações se costumam designar, e já ouviram falar noutras conferências, da passagem de uma Maçonaria operativa para uma Maçonaria especulativa. Sendo especulativa, é preciso saber o que é que eles entendiam por isso, sobre o que é que especulavam e quais eram os seus fundamentos e quais as finalidades dessa especulação e qual era a novidade quando confrontada com as chamadas dimensões corporativas de organização das profissões, como a dos pedreiros, que trabalhavam a pedra propriamente dita, e que vão agora decidir incorporar mais como metáfora numa nova Maçonaria, no que diz respeito à sua origem social, recrutamento, até aos dias de hoje. Assim, vou falar essencialmente desta Maçonaria especulativa, que vai ter o nome de franco-maçonaria. Ao contrário do que se pensa, não é porque ela vem de França, é, pelo contrário, o termo, a definição da palavra que parece designar uma espécie de assunção metafórica da Maçonaria operativa, no sentido de que dentro das lojas o homem, quando é iniciado, é como a pedra bruta, que precisa de ser trabalhada, de ser lapidada, e agora, neste novo horizonte, pressupondo a ideia de que deve ser uma espécie de ascensão, a caminho do auto-aperfeiçoamento, à luz dos princípios que remetem, quer queiramos quer não, para um fundo filosófico.
Não venho aqui defender que a Maçonaria é uma filosofia, mas há definições, até estatuárias dos grandes orientes, que defendem a Maçonaria, principalmente no século XIX, como uma associação filosófica, filantrópica, uma associação que visa, em última análise, o aperfeiçoamento dos seus membros, com o motor do aperfeiçoamento de uma outra identidade que é típica da conjuntura em que emergiu a Maçonaria especulativa, e que, de facto, está bem longe da dimensão das chamadas maçonarias operativas, cuja identidade chama-se “Humanidade”. Chama-se “Humanidade” ou chama-se “Homem”, definido numa perspectiva e há luz de uma certa dinâmica que, em última análise, para que possamos fazer depois o lançamento daqueles conceitos, fazer uma espécie de gramática de conceitos, que acabam por ser fundacionais dum percurso que não sendo uma filosofia, encitam a filosofar, e que está centrado em algumas ideias e alguns valores que, afinal, os fundadores acabam por bebê-los nos grandes movimentos de transformação mental que a Europa sofreu, particularmente a partir das guerras religiosas, da guerra dos 30 anos, enfim, todo o séculoXVII e o século XVIII, o impacto de novas filosofias, quer de carácter empirista, quer de carácter racionalista, na sua conjugação, o impacto da revolução científica moderna, particularmente com Newton, e, no fundo, a emergência de novos conceitos sobre o fundamento da política, do conceito de soberania, e a emergência também, de novas atitudes em relação ou as relações entre a sociedade política e o religioso, que vai colocar na ordem do dia, por exemplo, a ideia da tolerância, a tolerância civil. isto para dizer que este trabalho de esculpir a matéria a partir da pedra bruta e que vai carpintar, do ponto de vista metafórico, a Maçonaria especulativa, pressupõe quanto a mim fundamentos exteriores à própria Maçonaria, para que nós depois possamos também perceber, por exemplo, o próprio texto fundacional desta Maçonaria especulativa. Refiro-me às Constituições de Andersen, de 1723, que irei aqui ler duas ou três partes, e que irei comentar talvez de uma forma heterodoxa, que julgo que é uma das matrizes dessa modernidade que vem de Locke e dos seus discípulos, a questão e o exercício do livre-pensamento, conceito que vai, aliás, depois influenciar toda a Maçonaria.


Esta mutação, ou esta emergência de uma Maçonaria especulativa, está muito ligada à cultura britânica. Para alguns terá começado na Escócia, mas é evidente que é, sobretudo, em Inglaterra, e dentro da Inglaterra em Londres, que ela vai, de certo modo, instituir-se com a Loja de referência das chamadas maçonarias regulares, caso da Grande Loja de Londres (1717) e que depois, de facto, vai crescer: em 1725 já tinha 23 lojas e, em 1733, contava já com 126 lojas. E vai ter duas figuras preponderantes, que eram duas figuras religiosas, protestantes, um James Andersen, e que em colaboração com um inglês, filho de perseguidos religiosos franceses, que vão dar feição original, digamos, constitucional, a esta Maçonaria especulativa. Este descendente de filhos franceses que não é muito falado, Désaguliers, amigo de Newton, ele próprio um grande cientista, membro da Sociedade Real, onde se reuniam os grandes sábios, ligado á física experimental, e, simultaneamente, teólogo e um grande apologeta da nova ordem, de tal modo que a propagação da Maçonaria em outras regiões da Europa se deve ao seu activismo. Podemos dizer que foram estes os dois pais fundadores da Maçonaria especulativa, que tem, de facto, como pátria, a Inglaterra. É daí que ela depois se vai irradiar numa longa história, que vai ter as suas heterodoxias, que vai ter as suas divisões, mas que vai passar por Hamburgo (1727), Madrid (1728) – estou a falar das primeiras lojas –, Gibraltar (1729), Paris (1732) e Lisboa. Continua-se a discutir se a primeira loja constituída por britânicos é de 1727, mas pelo menos há alguma notícia dessa loja, segundo o registo da Inquisição, como sendo a Loja dos Hereges Mercadores, e que depois se regularizou, segundo notícia na Grande Loja de Londres, estando ligada muito esta às comunidades estrangeiras, sobretudo ligadas ao comércio, e que vão, enfim, dar origens a lojas como O Grande oriente Lusitano, a qual, com alguma estabilidade, e com o impacto dos oficiais britânicos nas guerras, nos finais do século XVIII e depois nas invasões napoleónicas, que essa Maçonaria se consolida em Portugal e que cada vez mais incorpora portugueses, ou então surgem por iniciativa de portugueses, sendo lojas estritamente nacionais. O impulso britânico marcou muito esta génese por razões que se prendem essencialmente com o desenvolvimento de um pensamento de carácter científico-experimental muito forte e que vai culminar com a nova visão do universo, chamada a visão mecanicista do universo, que é dada pela nova descoberta de Newton. Newton era um crente que tinha grandes dúvidas, por exemplo, do conceito da Santíssima Trindade, e esta ideia, que foi muito cultivada e que esteve muito subjacente ao pensamento europeu, sobretudo com o impacto das guerras religiosas, a maior de todas a Guerra dos Trinta Anos, mas depois também a guerra civil na Inglaterra entre os Tudors e a Casa de Hannover, as emigrações para a América, os grandes debates sobre a possibilidade uma paz civil e quais são os limites que se devem pôr ao religioso para que o político possa garantir a prossecução do bem-comum, sobretudo, quando se convocava Deus, um Deus que era um Deus teísta, isto é, um Deus antropormófico, um Deus do Cristianismo, um Deus interventivo, mas que com as várias leituras que começaram a ser feitas, e com os cismos do próprio Cristianismo, aquilo que deveria ser o fundamento da verdade, Deus uno e indivisível, passou a ser motivo de discórdia e a impossibilidade da paz civil nas comunidades politicamente organizadas. E, por isso, o debate sobre a tolerância, a partir de determinado momento, a tolerância que era em alguns teólogos uma tolerância religiosa, afinal, as religiões do livro deveriam tolerar-se umas às outras. Ora, o que acontece de novo, nesta contenda, que vai levar à emergência de uma série de ensaios marcantes, ainda hoje no pensamento ocidental, é a conotação que é dada à tolerância, e que tem a sua melhor expressão num refugiado, naquilo que era a pátria de todos os heterodoxos deste período, fossem católicos, huguenotes, anglicanos, na Holanda. É precisamente na Holanda que, estou a referir-me a Locke, que as suas célebres “Cartas sobre a Tolerância” devem ser lidas e articuladas com os seus ensaios políticos e com a sua teoria do conhecimento, de carácter empirista, interessando-nos aqui o uso do conceito da tolerância, para questão a tolerância civil, e que, de certo modo, vinculando algo que depois Voltaire, no seu ensaio sobre a Tolerância, uns anos depois, vai retomar, e que é, afinal, a necessidade de uma reorganização do político e do espiritual, de maneira a que a sociedade política possa ser garante da paz civil e, para isso, era preciso que o religioso refluísse para a esfera do privado, ou para a esfera do direito associativo para prática da crença, em suma, encontramos em Locke, pela primeira vez, e de uma maneira sistematizada, a defesa da necessidade da separação da Igreja do Estado.


Em termos conceptuais, dizemos que isso é uma conjuntura onde se assiste ao fenómeno da secularização: vamos assistir à secularização da natureza, isto é, cada vez mais se reivindica a autonomia do entendimento humano, porque se acredita na autossuficiência da razão, ou que se acredita pela combinatória entre a razão e o mundo dos sentidos, o mundo da experiência, o homem consegue perceber a legalidade, as leis do próprio universo, esta crença de que o homem pode, no fundo, chegar às leis científicas, pode ter um saber totalmente seu sobre a natureza, a expressão é de Francis Bacon no seu “Organon”, tendo esta conjuntura, como pano de fundo, uma mudança nas elites intelectuais e muitos deles ligados à prática científica, aquilo que nós na linguagem técnica chamámos de Deísmo. O que é o Deísmo? O conceito de Deísmo é um conceito que tem a ver com o significado de religião natural. A crença de que o homem se basta a si próprio, é porque o homem é um ser naturalmente religioso e polissémico, é o modo como ele manifesta essa sua necessidade, embora se aceitasse que o Cristianismo tinha sido ou seria a forma superior de expressar essa necessidade, isso significa que o Cristianismo não poderia ser o exclusivo do monopólio da verdade. Mais: o seu estatuto, o Cristianismo como religião revelada, mas revelada por Deus a homens que por sua vez escreveram a revelação, o próprio livro deveria ser objecto científico. A natureza é um livro que está escrito em linguagem matemática, diz-nos Galileu; mas esta conjuntura também vai dizer algo, e que começa com Espinosa: os próprios livros religiosos, afinal, são históricos, na medida em que foram feitos pelos homens e, portanto, é necessária a historicidade, a través de um método histórico-filológico; e tudo isto conjugado com outros factores, ficava bem, sobretudo no pensamento anglo-saxónico, com repercussões imediatas em França, com fundo de Deísmo, não do Teísmo, porque o Deus criador do Teísmo é o Deus-pessoa, o Deus do Deísmo é mais um Deus-geómetra, é o Supremo Arquitecto do Universo, é o Deus que é logos, razão, e se é razão criou o homem à sua imagem e semelhança, e logo o homem também é à sua maneira Deus na terra, e a razão do homem consegue compreender a racionalidade que Deus inevitavelmente tinha que inscrever na ordem das coisas, como é o caso do princípio da razão suficiente de Leibniz, não só das coisas, mas da própria história. Há uma razão na História que a razão do homem pode compreender. E pergunta-se: e Deus não intervém na natureza, no terreno da história? Sim, o Deus da crença popular, o Deus das religiões, o Deus do Teísmo ainda acredita nisso. Só que o Deus do Deísmo é um Deus criador do universo, do homem, mas é um Deus indiferente em relação ao universo e ao homem, como quem diz, é o Deus que escreveu uma ordem das coisas, o homem à sua imagem e semelhança e, portanto, o homem tem em si a capacidade para compreender as coisas, porque elas têm uma lógica, elas têm uma racionalidade, sendo necessária a sua compreensão. E quando se pergunta que Deus é este, sem dúvida que, aparentemente, vê-se o Deus da religião do livro, mas já não é o Deus das igrejas, é o Deus que aceitou a sua transcendência e a sua indiferença ao mundo, é um Deus, de certo modo, da religião natural, que diz os modos diferentes de celebrar o sagrado. Em última análise, exprime-se este princípio unitário que está para além das religiões feitas propriamente ditas e que são da ordem da natureza. Deísmo, mecanicismo e outros conceitos, são chaves para que nós possamos entender o documento fundador da Maçonaria especulativa.

Aliás, as Constituições de Andersen, já o dissemos, foi um produto de conjunto, entre Andersen e Désaguilers, imbuídas de Deísmo e que as maçonarias irregulares que depois irão aparecer irão constituí-las como documentos de referência. O que vou tentar fazer agora é uma análise internalista e vou procurar fazer um exercício hermenêutico daquilo que está dito, o seu significado, mas o seu significado epocal, sem cair em anacronismos. O que é que verdadeiramente queremos dizer quando esta Constituição foi escrita? Diz ela: “Um maçon é obrigado pela sua condição a obedecer à lei moral; e se compreender correctamente a arte, nunca será uma teu estúpido, nem um libertino irreligioso”. Mas, embora nos tempos antigos, os maçons fossem obrigados em cada país, a serem da religião desse país, ou nação qualquer que ela fosse, julga-se agora mais adequado obriga-los apenas àquela religião na  qual todos os homens concordam, deixando a cada um as suas convicções próprias, isto é, a sempre homens bons e leais, honrados e honestos, quaisquer que sejam as denominações ou crenças que os possam distinguir. Por consequência, a Maçonaria converte-se no centro de união e no meio de conciliar uma amizade verdadeira em pessoas que podiam permanecer sempre distanciadas. O que é que aqui se vê? Uma referência ao horizonte das guerras religiosas, uma referência muito clara a um velho princípio que vem já da Idade Média e que depois teve várias traduções: a sua dimensão teológica, fora da igreja não há salvação e na sua dedução teológica política, a cada reino a sua religião: “Os súbditos têm que ter a religião do Rei”, ou ainda algo que ficou consagrado no Tratado de Vestefália, quando houve grandes movimentos de populações de maneira a procurar uma teórica homogeneidade entre as religiões e o político, e que os franceses foram os paladinos desta consignação na fórmula “Une Foi, Un Roi, Une Loi”. Bem, para não falarmos dos países do sul da Europa, onde o olho da Inquisição funcionava; e, por isso, esta Maçonaria especulativa, ela quer ser um lugar de pluralismo religioso, mas demarca-se simultaneamente do “ateu estúpido” ou do “libertino irreligioso” (e isto vai colocar a questão, tempos depois, se os ateus ou não devem ser incluídos na Maçonaria). É que a virtude da literatura sobre a tolerância do século XVII e mesmo no século XVIII, tem uma abertura tal de tolerância civil em relação às religiões, sendo uma tolerância que pressupõe um intolerante, ou uma intolerância fundamental (Locke), enquanto que um outro, perseguido e que estava em Amsterdão, Pierre Bell, vai contestar, dizendo, o ateu deve ser tolerante em relação ao ateu, assim como em relação aos católicos, aos papistas, porque obedecem ao Papa, logo não têm autodeterminação, e o ateu deve ser intolerante porque o ateu não acredita na essência de Deus e na imortalidade da alma, não pode dar garantias pelo fundamento da responsabilidade ética para sua própria acção; e porquê? Porque não tem medo do juízo final. Por isso, esta referências ao “ateu estúpido” relaciona-se muito com aquilo que vão ser  as premissas desta Maçonaria especulativa, sob o ponto de vista metafísico. Primeiro: a evocação do Supremo Arquitecto do Universo, um Deeus que é um Deus de todas as religiões, a exclusão dos ateus, precisamente porque o ateu não se sabia comportar, obedecer à lei moral porque não tinha mediação do juízo final para as suas acções. De qualquer modo, Já nesta conjuntura, Pierre Bell é o primeiro a dizer “sim”, já que o ateu pode ser eticamente tão responsável como o crente, porque “conheço ateus que só fazem o bem e conheço crentes que só fazem o mal”. Esta ideia de que o caminhar para uma sociedade que, em última análise, o princípio de homogeneidade do religioso com o político, que era uma condição metafísica que vinha da Idade Média, segundo a qual se acreditava que uma sociedade religiosamente pluralista iria prejudicar aqueles crentes na ressurreição final dos corpos, dessa dimensão colectivista; e, por isso, a ideia da homogeneidade do político e do religioso tinha justificação teológica e que ela se vai traduzir de facto nestes princípios e que é uma das bases das guerras religiosas no século XVIII.
Vejamos outro passo das Constituições de Andersen: “Um pedreiro é um súbdito tranquilo do poder civil, onde quer que resida o trabalho, e nunca deve promiscuir-se em planos e conspirações contra a paz e o bem-estar da Nação, nem contrapor-se indevidamente para com os magistrados inferiores. Porque, como a Maçonaria tem sempre sido prejudicada pela guerra, a infusão de sangue e a desordem, assim os antigos reis e princípios dispuseram a encorajar os artífices por causa da sua tranquilidade e lealdade, por meio das quais respondiam na prática às cabilações dos adversários e concorriam para a honra da fraternidade, sempre florescente em tempo de paz.”


Esta ideia de que nas lojas não se deve discutir política, mas sim discutir princípios que ajudem a elevação espiritual dos seus membros, isto está, de facto, na letra e no espírito nas Constituições de Andersen. Em suma, a Maçonaria especulativa, uma das faces daquele grande movimento da história das ideias que designamos por Iluminismo, estando em causa uma visão antropocêntrica do mundo, uma visão onde o teocêntrico, mesmo que esteja pressuposto, fica cada vez mais distante como critério invocar das acções práticas, ou mesmo do pensamento. Aliás, quando Kant responde á pergunta o que é o Iluminismo, responde que á a passagem da menoridade para a maioridade do homem, isto é, quando o homem faz um bom uso da sua razão, não obedecendo a algo que seja exterior aos imperativos da sua racionalidade, estando aqui o problema de uma moral autónoma, que se demarca de uma moral heterónoma, estando esta sujeita ao sujeito da autoridade. Por outro lado, a ideia de que a livre discussão pautada por critérios racionais traz a luz, ilumina.  Insto inscreve-se na velha tradição do pensamento ocidental da metáfora da luz, que a Maçonaria vai incorporar precisamente agora com estas mediações, mas também vai incorporar uma outra faceta, que é a ritualística, a ideia de que uma sociedade iniciática que acaba por reproduzir não só a metáfora da morte e da ressurreição, mas, no fundo, toda uma velha tradição da cultura ocidental, que talvez a alegoria da caverna de Platão seja o exemplo mais típico da escuridão, havendo a necessidade de fazer uma ascese, uma ascese por degraus, para que cada vez mais, através da luz, o homem se transformando a si próprio, transforma o mundo que o rodeia. Assim, a Maçonaria, do ponto de vista aos condicionamentos, toca, no conjunto daquelas correntes defensoras de uma visão mais antropocêntrica do mundo, crendo, não numa independência do homem em relação a Deus, porque não se trata ainda nem sequer de um quadro agnóstico, muito menos ateu, mas na ideia de que o homem através da capacidade do entendimento, na linguagem anglo-saxónica, através da razão, desde que não esteja coacto, isto é, que deixe que o pensamento seja livre, ele consegue verdades demonstradas pela ciência, consegue verdades deduzidas, através da racionalidade, e, portanto, consegue criar conhecimentos e são conhecimentos que podem ser postos ao serviço do aperfeiçoamento do próprio homem. Há quase uma dimensão mística na Maçonaria e ela vai nascer sob o impacto das ciências experimentais e, de qualquer modo, os seus fundadores vão produzir mecanismos mais ligados à reinvenção do passado que parece que vão entrar em contradição com a componente iluminista, projectando a ideia de pensadores-livres, estando patente aquilo a que nós podemos chamar de cultura liberal. A questão dos valores, como a do livre-exame e outros valores que vão estar consignados na cultura iluminista, e, também em alguns maçons de matriz anglo-saxónica, nos Estados Unidos, com a emergência das declarações, nomeadamente na Virgínia, dos direitos do homem, onde nós vamos encontrar consignados esta visão antropomórfica, baseada numa ideia de que há uma natureza humana que só por si é o paradigma mais unificante de que o próprio Deus das religiões propriamente ditas, porque este Deus tinha dado origem a guerras, e acreditava-se que como a natureza humana, a partir da inferência daquilo que lhe é natural, que lhe é essencial, como fonte inspiradora dos direitos positivos, das normas de uma moral autónoma, talvez a paz entre os homens fosse mais possível de garantir do que, afinal pela garantia que era da pelo peso dominante do religioso em relação ao político. E é por isso que a Maçonaria vai ser sensível a algo que surge nesta época, muito ligado ao princípio da tolerância, numa visão optimista sobre o homem, na capacidade do próprio homem ir-se aperfeiçoando, na metáfora do trabalho do pedreiro, e a ideia de que há uma natureza humana, havendo um desfasamento entre aquilo que é da ordem da natureza humana, com os seus aprioris definitivos, sendo colocada como fonte de inspiração das próprias constituições, mas ela própria como acção do homem, porque afinal o homem pode fazer-se a si mesmo, no sentido de que quanto mais ele se realizar historicamente daquilo que é da sua natureza, quanto mais ele conseguir racionalizar a ordem social, a ordem política, etc., mais humano se pode concretizar. Este optimismo antropológico vai ser expresso, por exemplo, numa espécie de utopia, uma utopia humanitarista, que se traduz, por exemplo, no projecto da paz perpétua, na possibilidade de um dia o homem conseguir controlar propriamente o seu destino, a guerra, mesmo existindo o conflito, ela era arbitrária (Abade Saint-Pierre), sobretudo Kant, fazem disto, afinal, a inscrição de uma visão optimista do homem, que tem como raiz o seu antropocentrismo, expressando um dos valores muito fortes da Maçonaria, que é a sua dimensão ao serviço da humanidade, e é preciso aqui dizer que a humanidade, esta expressão a “Humanidade” na cultura ocidental só passou a ser substantivo abstracto praticamente no século XVIII. É claro que se pode dizer que os históricos já falavam de uma espécie da identidade da natureza humana, ou que o Cristianismo, ao contrário do Judaísmo, já quis ser uma religião universal, só que o que agora se diz é que o homem é um ser auto-suficiente, filho de um Deus que já não intervém, órfão, não o traz pela mão. O homem é que é o responsável pelo seu próprio destino e, portanto, a aventura humana que tem o concreto, o particular, ao contrário do que se pensa, o Iluminismo não defendeu a homogeneidade, vai defender uma humanidade como uma espécie de identidade autossuficiente que tem como situações em espaços e tempos concretos, mas que se vai realizando em devir, a ideia de progresso, e da perfectibilidade humana. A plena realização só se pode dar em que a parte seja inserida num todo; e, por isso, o século XVIII, o maçonismo vai ser muito claro, vai ter uma palavra-chave, o cosmopolitismo, diferente dos nossos dias. Termo que começa a aparecer para no fundo dizer que os pressupostos do optimismo do homem se realizem no particular, a uma escala universal, que deve caminhar para a construção de um plano da cosmópolis e daí o sonho de uma república universal. Ora, as maçonarias não vão querer ter nacionalistas, defende a sua dimensão cosmopolita. Por outro lado, pergunta-se, como é que estes valores se irão concretizar, e que, em última análise, poderiam funcionar como uma espécie de guia, de uma agenda de especulação filosófica, inerente a uma sociedade de pensadores; mas a Maçonaria não quis ser, nem quer ser, uma sociedade de pensadores. Pelo contrário, foi uma associação que nasceu para transformar os seus membros de modo a que estes pudessem transformar o seu próprio meio, em termos que fossem alternativos àquilo que para eles era um fracasso da apologética das religiões e, em particular, o Cristianismo. E, por isso, nós hoje lemos praticamente nas Constituições do Oriente também a definição de que a Maçonaria é uma associação filantrópica e quando se diz isto, é porque ela é filantrópica (nos primórdios o que existia era a caridade, não havia sociedade de socorros-mútuo), e é indiscutível que a comunidade maçónica nasce para uma auto-protecção dos seus membros, e, portanto, muitas vezes confunde-se esse conceito exterior à própria Maçonaria, aparecendo com ênfase, aplicando-se também em ralação ao mundo exterior. Porquê? Porque a filantropia significa a amizade desinteressada pela espécie humana em toda a sua extensão.



É precisamente no século XVIII que a palavra filantropia aparece e é divulgada. Um outro termo que tem ênfase nesta conjuntura, é o termo beneficência, precisamente porque é um termo que se contrapõe ao termo caridade, prova de que estávamos suficientemente numa sociedade secularizada em relação aos próprios valores, porque beneficência é fazer o bem, e a palavra foi inventada pelo primeiro grande teórico da paz perpétua, Abade de Saint-Pierre. Mal de nós sabíamos o futuro deste conceito, que depois vai ser aplicado a sociedades que surgem para esses propósitos. No fundo, é esta a gramática dos conceitos fundamentais, que influenciariam a Maçonaria, e incorporados no próprio texto da Maçonaria, mas que esta Maçonaria especulativa, na sua fase inaugural, vai dar a sua elaboração própria e, mais, vai enquadrá-la numa dimensão ritualística onde há um outro tipo de cultura que parece que está em contradição com esta, tendo sido Désaguliers que incorporou essa faceta, com a Cabala. Não há, aliás, um Iluminismo puro, existe sempre uma dimensão sombra e de mistério, e para muitos historiadores, este tipo de Maçonaria, ainda antes de ser politizada no Século XIX e no século XX, os seus sucessos devesse ao facto de ter incorporado nos seus debates nas suas sessões, nos seus pressupostos de carácter, chamemos assim, mais iluministas, esta dimensão ritualística-simbólica. Aqui está o seu segredo, porque há o cultivo de algo oculto, e sendo misterioso acaba por ser atractivo. E daí esta pergunta muito polémica: em última análise, não será a Maçonaria uam religião? Aqui sigo um autor meu preferido, George Gustorf, que responde que sim. Mas que religião é essa? No fundo, pressupõe um Deus que é indiferente, frio, um Deus geómetra, é arquitecto, que planifica. Assim Deus terá feito o mundo. Mas a Maçonaria diz-nos que a razão não é auto-suficiente, só o é numa certa perspectiva, e ela precisa do símbolo, do rito, ela precisa da sensibilidade, da liturgia. E terá sido esta mistura, que no fundo é uma religião que não é uma religião, é uma religião que possibilita a coexistência e a coabitação de todas as religiões, excluíam os ateus, incluindo os católicos. A Maçonaria, aparecendo como uma sociedade de espiritualização dos seus membros, recoberta pelo seu secretismo, quando muito uma sociedade discreta, e, com esta dimensão, contra algumas das suas premissas possivelmente intelectualistas, a Maçonaria tinha o que as religiões não tinham, a crença da existência de uma divindade, como através dos seus graus e dos seus ritos, possibilitava uma carreira aberta, uma espécie de sacerdócio democrático em termos de loja, que de certo modo  funcionava como embrião das sociedades em via de democratização, porque a discussão era livre, fomentava-se a argumentação, a  retórica e, por outro lado, também, através dos empenhamentos do estudo, dos rituais, todos podiam ascender a todos os lugares, inclusive a lugares supremos. É neste sentido que há algo de religioso, uma religião secularizada, um sagrado não clerical, diz-nos Gusdorf, um sacerdócio secularizado.
Em suma, independentemente das histórias da Maçonaria, a história da Maçonaria também é a história das suas dissidências, das suas heterodoxias, das suas ligações ao mundo profano, os seus compromissos, do seu não comprimento dos seus próprios princípios, mas também dos seus próprios cumprimentos. Acasalando as matrizes fundamentais da modernidade, à volta dos conceitos fundamentais, deísmo, visão mecanicista do mundo, a edificação da humanidade, cosmopolitismo, filantropia, o antropocentrismo, beneficência, julgo que são valores chaves para explicar o maçonismo.