sexta-feira, 4 de maio de 2012

o outro lado da nação

"Este livro explora a história do uso da força por parte do Estado nos conflitos colectivos portugueses, desdee a vitória liberal de 1834 até á consolidação da democracia, em finais do século XX. E fá-lo tendo em conta duas dimensões...: primeiro, a capacidade de o Estado se afirmar no território e construir uma ordem pública, uma administração respeitada que conhece a população e o território, que cobra impostos e que assegura a vigilância da lei e o respeito pelas sentenças judiciais; segundo, os dilemas políticos implícitos no uso da força por parte do Estado e na sua justificação por parte dos governantes, sobretudo quando a coerção se abate sobre pessoas mobilizadas que pretendem defender os seus direitos, situação em que a violência do Governo é atacada ao nível da opinião pública enquanto ilegítima." (14-15)

Diego Palacios Cerezales

quarta-feira, 2 de maio de 2012

do pessimismo que o não é





"... a solução, estando nós já na Europa, não pode agora senão estar em nós..."

Miguel Real







A edição, por si só, do texto de Manuel Laranjeira "Pessimismo Nacional", censurado no Estado Novo, é de ralçar não só pelo contexto nacional, europeu e mesmo internacional em que se vive, como igualmente, por outro lado, pela significação que em si comporta perante a época em que foi publicado, nomeadamente no jornal "O Norte", entre 24 de Dezembro de 1907 e 14 de Janeiro de 1908, e a época em que actualmente vivemos, num contexto de desorientação social, cívica, económica e politicamente. E, neste sentido, a análise contextual e épocal entre os princípios do século XX e o princípio do século XXI que Miguel Real realiza, apesar de ser perigoso uma tal análise relacional, é notável, aconselhando a leitura não só do texto de Laranjeira, como o prefácio de Miguel Real, denominado "A Actualidade de Manuel Laranjeira". Paralelamente, a republicação do texto de Miguel de Unamuno "Portugal Povo de Suicidas", retoma não só o projecto inicial do próprio autor, que pretendia escrever um livro único sobre Portugal, amigo de Laranjeira e este o seu máximo correspondente sobre a realidade mental e social portuguesa de então, revela o estado social e perigoso da sociedade portuguesa (aliás, às vezes, quando leio os textos de Bernardino Machado, tiro a conclusão prática de que Portugal, em termos mentais e educacionais, assim como políticos, falando igualmente do mesmo período histórico dos textos dee Laranjeira, e até à Implantação da República, parece não ter evoluído muito!) Quando somos governados por, realçando a expressão de Miguel Real, «jovens turcos», os quais substituiram os pais fundadores da democracia portuguesa, com políticas economicamente erradas para a sociedade portuguesa, os quais em vez de realçarem a esperança, encontram-se num estado volúvel e de sem sentido em termos governativos; em vez de exercerem uma justiça de equidade fiscal, proclamam hipocritamente que todos os portugueses, salvo seja, têm de pagar o que lhes é devido, criando assim uma sociedade pública e privada; quando os «jovens turcos» se tornam Pilatos, como tem sido o caso das pontes do Carnaval ou da Páscoa, reina simplesmente o estado amoral; quando os desempregados já passam a fasquia dos 15%, os nossos governantes, em vez de criarem politicas alternativas, avisam com ar de satisfação, que o país vai ter níveis de desemprego que nunca viu e assim também não podemos esperar nada de um estado que em vez de incentivar o trabalho, para criar riqueza, promove a emigração. Aliás, conforme a metáfora da multiplicação dos pães, tal como ouvi ontem no programa da SIC contra-corrente, a divisão para a multiplicação, não parece ser uma ideia a partilhar, na medida em que como pode haver multiplicação sem divisão (e fala-se, claro está, uma vez mais, na problemática da equidade fiscal)? E o fenómeno Pingo-Doce revela o estado social português: falta de civismo, de respeito e de educação de uns pelos outros, e, por ter sido a primeira vez que uma tal promoção aconteceu em Portugal, revelou-se a anarquia social entre o cidadão consumidor que a sociedade civilizacional promoveu e o cidadão que pretende envolver-se na cidadania, assim como as dificuldades económicas em que se vive, até porque uma promoção do género não é de perder, acaba por ser um fenómeno natural, assim se criando deuses sem o serem: pois, como dizia um cidadão, no telejornal de hoje, os políticos é que estão de olhos fechados, e o dono do Pingo-Doce é que é amigo dos pobres! Aos poucos, para pecado nosso, a teocracia, já em desenvolvimento, suplanta uma democracia que está a perder a sua consciência histórica e cívica, conforme a ditam os «jovens turcos», que, em alguns passos, estão a seguir a esquerda que governou antes deles. Na expressão de Laranjeira, tudo isto não passa por ser senão uma "ficção política". Em suma, se os dois textos, o de Miguel de Unamuno e o de Manuel Laranjeira surgem num contexto social e político avassalador, o que temos de ler em ambos esses textos é uma mensagem de esperança, ler nas entrelinhas e saber interpretá-los para que a sociedade portuguesa encontre um novo caminho. Termino com Laranjeira: "Há aí incalculáveis energias armazenadas; há aí muita vida, muita saúde, à espera de aplicação útil. Aproveitem-se, canalizem-se. Há ainda alma para refazer todo um Portugal novo." E se a solução está em nós, devemos estar com os olhos postos na Europa e no Mundo.

terça-feira, 1 de maio de 2012

1.º de maio


e num dia assim, ainda ficamos mais descontentes e o que vale é logo, vai ser mais quentinho e amoroso.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

o mundo fantástico de antónio santos graça



"Na história local, a trajectória de Santos Graça é a de um voluntarismo musculado que atingiu a meta, desde muito novo sagazmente construída. Nascido num modesto clã de pescadores-banheiros, que na altura definiam a dupla actividade sócio-económica da praia da Póvoa, se não foi o mar o seu destino de filho de família da classe piscatória, nunca a defesa profiada de suas causas deixou de ser o objectivo cimeiro do seu combate político. A míngua de oportunidades e recursos, para receber uma escolaridade perfeitamente ao alcance do seu inato talento, não o impediu de obter a pulso, pela via árdua do autodidactismo, a literacia surpreendente que á sagacidade veio mostrar possuir: o convívio social, ligado à profissão de lojista; a prática de desportos náuticos: o associativismo; a lide político-partidária republicana; o contacto com intelectuais como Rocha Peixoto e Leonardo Coimbra; o jornalismo, qual tarimba de toda a hora, doutrinário e polémico; a experiência parlamentar; o apego identitário à idiossincracia do pescador poveiro cujos genes recebeu e assumia - tudo isso acabou por ser fonte onde bebeu e caldeou a sua formação, de que a gama vária de seus escritor é eloquente testemunho."

João Francisco Marques


 
O meu caro Amigo Manuel Costa, Director da Biblioteca Municipal Rocha Peixoto (que segue bem as pisadas do mestre que cheguei igualmente a conhecer, ficando por ele igualmente fascinado, claro que se fala aqui de Manuel Lopes, apesar do meu contacto inicial não ter sido dos melhores), ofereceu-me recentemente não só o catálogo da exposição "António Santos Graça - Vida e Obra", comemorando-se, assim, os 130 anos do nascimento da ilustre figura poveira, como igualmente tive o privilégio da oferta "À Descoberta de António dos Santos Graça", este de cariz didáctico-pedagógico, ambos organizados e editados por si. A Biblioteca Municipal Rocha Peixoto continua, deste modo, a comemorar os seus vinte anos de existência que dignifica a comunidade a que pertence.


A exposição, assim como o próprio catálogo, que ainda se encontra patente ao público até 31 de Maio do corrente ano, encontra-se dividida em oito temáticas, a saber: i, Infância e Juventude; ii, A Família; iii, A Obra; iv, O Quotidiano; v, O Etnógrafo; vi, O Político, vii, O Jornalista; viii, Cronologia (1882-1956). Uma exposição que retrata bem a citação do texto que transcrevemos de João Francisco Marques, que prefacia o catálogo. Para além de profusamente ilustrado, o catálogo contém textos não só do homenageado, como igualmente de João Francisco Marques, Manuel Lopes, Flávio Gonçalves, Ernesto Veiga Oliveira, António Medeiros, Armando Marques ou de Victor de Sá para uma compreensão maior da importância de António santos Graça nas suas múltiplas actividades, cívicas, culturais e políticas. Paralelamente, surge-nos no catálogo uma "História dos Documentos", a qual nos vai informando das suas tipologias documentais, passando pelo tratamento técnico. E o escrevinhador destas linhas pede apenas desculpa a Manuel Costa pela digitalização da imagem da República, diga-se, até por sinal, uma República bem simpática e sugestiva, encantando mais gente cá por Vila Nova, pelo Museu Bernardino Machado. Aliás, o nosso Bernardino Machado também estaria e ficaria encantado com aquela imagem da República, de linhas estéticas simples e de sensualidade admiratitativa (os olhos não enganam), quase como que questionando o mundo que olha. Para além disto, também se gostou da sigla da família, o que nos colocou a pensar qual será a nossa. Falo, é claro, do livro didáctico-pedagógico "À Descoberta de António dos Santos Graça", que já deve ter encantado quer miúdos e graúdos, pela documentação e pelas curiosidade que incorpora. Apenas um grande abraço de amizade fraterna para o meu caro Amigo Manuel Costa e o meu agradecimento por estas duas ofertas.



domingo, 29 de abril de 2012

bourbon e menezes e bernardino machado

na passagem de mais um aniversário do falecimento de bernardino machado, este texto de bourbon e menezes publicado no jornal de "notícias de huíla", em 26 de junho de 1944. para o dr. manuel sá marques, com o meu abraço afectuoso de amizade fraterna.



sexta-feira, 27 de abril de 2012

d. manuel clemente e bernardino machado - breves reflexões

para o dr. manuel sá marques, com o meu abraço de amizade fraterna e saudoso




Saiu este ano o livro de D. Manuel Clemente com o título "Igreja e Sociedade Portuguesa: do Liberalismo à República", o qual tem sido um prazer de ler inquestionável, assim como o foi "Porquê e Para Quê? Pensar com esperança o Portugal de hoje" (lembrando-me, muitas vezes, do jesuíta Manuel Antunes). Rui Ramos, logo no início do seu texto, como uma espécie de introdução ao livro de D. Manuel Clemente, "O Liberalismo Português como Problema Religioso", salienta que "os estudos e intervenções reunidos neste volume abrem uma porta fascinante sobre a história contemporânea de Portugal. Não era uma porta fechada, mas era uma porta que precisava de ser aberta assim, com este saber e largueza de vistas." Nestes textos agora reunidos de D. Manuel Clemente, encontramos "a relação da Igreja com o Estado durante a época do Liberalismo, entre o princípio do século XIX e o princípio do século XX. Mas estão também incluídas aqui importantes e sugestivas investigações e reflexões sobre a vida paroquial em Lisboa no século XX, as esperanças e as angústias de Raul Brandão num «mundo anticristão», ou a «nova religião» desejada por alguns líderes da I República, como Bernardino Machado." Aliás, o texto que D. Manuel Clemente agora publica é a sua conferência realizada nos I Encontros de Outono organizados pelo Museu Bernardino Machado no já ido ano de 1998 então denominado "O Homem, O Cientista, o Político e o pedagogo". A fotografia que aqui publico é, precisamente, desses mesmos "Encontros de Outono". Contudo, as simpáticas reflexões de D. Manuel Clemente perante o pensamento "religioso" de Bernardino Machado, e outras, merecem uma especial atenção, uma atenção informativa e axiomática. Ora, em termos informativos, Bernardino Machado não foi "ministro regenerador entre 1882 e 1895", foi, isso sim, em 1893 no governo de Hintze Ribeiro; e, em 1914, não foi Ministro dos Negócios Estrangeiros: em 1914 foi Primeiro-Ministro, como o afirma de seguida D. manuel Clemente! Surge o primeiro problema reflexivo e de ordem axiomática, ao citar Elzira Machado Rosa, para a qual Bernardino Machado "transitou de um ideário pedagógico para um ideário político"! Respeitando esta opinião, tanto o ideário pedagógico e o ideário político não se encontram separados, antes pelo contrário: em Bernardino Machado o ideário pedagógico complementa-se no ideário político, porque o primeiro se desenvolve institucionalmente no segundo: disto tinha consciência Bernardino Machado. Mas o problema que surge antes deste, é quando D. Manuel Clemente, citando Oliveira Marques, pretende colocar Bernardino Machado na Geração de 70: um mito que Marques construiu: Machado é da geração de João Penha, Alberto Braga, entre tantos outros, e que ficariam amigos de Machado para além da Universidade. Finalmente, a terceira reflexão pessoal a acrescentar às reflexões pessoais de D. Manuel Clemente, que, numa primeira fase do pensamento de Bernardino Machado, o coloca ao lado do Cristianismo e do Catolicismo, e, num segundo momento do seu texto, nos evoca uma "religião totalmente humanizada" em Machado. Antes pelo contrário: se enquanto em 1914 a República com Bernardino Machado acaba por ter um papel mais moderado, apesar de alguns conflitos, como em Coimbra, podemos estabelecer, tal como o fez D. Manuel Clemente, duas perspectivas em Machado: em primeiro lugar, a ruptura, no caso do pedagogo e do cientista, e mesmo do maçónico, com a sociedade oitocentista: é o caso, em algumas situações, no texto das "Notas Dum Pai", no qual, em alguns momentos, surge-nos uma linguisticidade de espírito maçónico com o "olho" de Deus na transcendência terrena, finita, isto é, da transcendência teológica para a transcendência do mundo, de uma cosmologia teológica para uma antropologia - eis o novo paradigma para uma nova secularização do mundo. Acima de tudo, um humanismo imanente e sociabilizador para o progresso de uma cidadania mais plena. Deste modo, o que está em causa para os republicanos e para Bernardino Machado é o ideal roussouniano da «religião cívica». E, se de facto, os republicanos, e o próprio Bernardino Machado não colocavam em causa o próprio Cristianismo, é porque, como nos diz Machado, "nós somos tolerantes para todas as religiões, mas não consentimos que, em nome de Deus, ou de Cristo, venham atiçar ódios contra os que predicam um ideal de bondade e de amor aos seus concidadãos." A mudança de paradigma, de uma verdade teológica para uma verdade antropológica,  registo-a na seguinte citação das "Notas Dum Pai": "Todos os sistemas Morais se podem, logicamente e também cronologicamente, reduzir a duas categorias, conforme colocam o centro da vida fora ou dentro do universo. Os primeiros geram-se na meditação melancólica dos que descrêem do reinado da justiça sobre a terra e apelam para as perspectivas duma estância melhor, onde ela triunfe eternamente; mas, pregando o sacrifício de todos, a sua doutrina, para extirpar o mal, ameaça tudo destruir. Filha do amor, quantas veze sse converte em instrumento de ódio e cobre os campos de cadáveres e os corações de luto! Inspiradora não só do desprezo das grandezas terras e da própria mortificação, mas até do desapego do trabalho útil e das legítimas afeições, ela cria um egoísmo de beatificação, que, rompendo a solidariedade de cada homem com as outras criaturas, excita-o, numa febre niilista, a espalhar diante de si o extermínio, como que em busca, através das ruínas e da morte, das regiões gloriosas de além-túmulo. / Para outros, o reino do Senhor é o deste mundo. E, contanto que ninguém incorra, orgulhosamente, no erro antropocêntrico de supor que tudo conviria em seu proveiro, não há doutrina mais salutar. Melhorar o mundo, torná-lo cada vez mais habitável e habitado por almas livres, eis o verdadeiro ideal de paz e de amor. O fim do homem é a criação, não a mortificação." (itálico meu) O problema, é que a República criou, em alguns casos, as mesmas intolerâncias mortificantes que no Liberalismo e no seio do próprio Cristianismo inquisitorial e a pacificação, entre o público e o privado, nas mudanças de mentalidade, leva o seu preço temporal. E se os republicanos, tal como Bernardino Machado, acreditavam que a mudança mental e social passava pelas instituições, tal não sucedeu: o caso de Vila Nova de Famalicão, e provavelmente como um pouco por todo o País, foi sintomático: os adesivos é que tomaram conta das instituições de solidariedade social, cívica e cultural e entravam nas comissões municipais, nascendo, entretanto, uma nova geração que, tal como os adesivos, se iriam encontrar no Estado Novo. Agradeço a D. Manuel Clemente estas breves reflexões.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

tomás da fonseca, o republicano


Com textos retirados dos jornais "A Pátria", "O Mundo" ou "Alma Nacional", ou de livros como a "Cartilha Nova", o "Ensino Laico" ou o mais do que famoso "Sermões da Montanha", esta nova antologia de Tomás da Fonseca, organizada e prefaciada por Luís Filipe Torgal, o qual analisa o positivismo anticlerical e ateu, o republicano socialista e o educador popular que foi Tomás da Fonseca, permite ao leitor de hoje viver e sentir de uma forma ímpar os tempos conturbados em termos mentais, sociais e culturais da I República em Portugal.