terça-feira, 1 de maio de 2012

1.º de maio


e num dia assim, ainda ficamos mais descontentes e o que vale é logo, vai ser mais quentinho e amoroso.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

o mundo fantástico de antónio santos graça



"Na história local, a trajectória de Santos Graça é a de um voluntarismo musculado que atingiu a meta, desde muito novo sagazmente construída. Nascido num modesto clã de pescadores-banheiros, que na altura definiam a dupla actividade sócio-económica da praia da Póvoa, se não foi o mar o seu destino de filho de família da classe piscatória, nunca a defesa profiada de suas causas deixou de ser o objectivo cimeiro do seu combate político. A míngua de oportunidades e recursos, para receber uma escolaridade perfeitamente ao alcance do seu inato talento, não o impediu de obter a pulso, pela via árdua do autodidactismo, a literacia surpreendente que á sagacidade veio mostrar possuir: o convívio social, ligado à profissão de lojista; a prática de desportos náuticos: o associativismo; a lide político-partidária republicana; o contacto com intelectuais como Rocha Peixoto e Leonardo Coimbra; o jornalismo, qual tarimba de toda a hora, doutrinário e polémico; a experiência parlamentar; o apego identitário à idiossincracia do pescador poveiro cujos genes recebeu e assumia - tudo isso acabou por ser fonte onde bebeu e caldeou a sua formação, de que a gama vária de seus escritor é eloquente testemunho."

João Francisco Marques


 
O meu caro Amigo Manuel Costa, Director da Biblioteca Municipal Rocha Peixoto (que segue bem as pisadas do mestre que cheguei igualmente a conhecer, ficando por ele igualmente fascinado, claro que se fala aqui de Manuel Lopes, apesar do meu contacto inicial não ter sido dos melhores), ofereceu-me recentemente não só o catálogo da exposição "António Santos Graça - Vida e Obra", comemorando-se, assim, os 130 anos do nascimento da ilustre figura poveira, como igualmente tive o privilégio da oferta "À Descoberta de António dos Santos Graça", este de cariz didáctico-pedagógico, ambos organizados e editados por si. A Biblioteca Municipal Rocha Peixoto continua, deste modo, a comemorar os seus vinte anos de existência que dignifica a comunidade a que pertence.


A exposição, assim como o próprio catálogo, que ainda se encontra patente ao público até 31 de Maio do corrente ano, encontra-se dividida em oito temáticas, a saber: i, Infância e Juventude; ii, A Família; iii, A Obra; iv, O Quotidiano; v, O Etnógrafo; vi, O Político, vii, O Jornalista; viii, Cronologia (1882-1956). Uma exposição que retrata bem a citação do texto que transcrevemos de João Francisco Marques, que prefacia o catálogo. Para além de profusamente ilustrado, o catálogo contém textos não só do homenageado, como igualmente de João Francisco Marques, Manuel Lopes, Flávio Gonçalves, Ernesto Veiga Oliveira, António Medeiros, Armando Marques ou de Victor de Sá para uma compreensão maior da importância de António santos Graça nas suas múltiplas actividades, cívicas, culturais e políticas. Paralelamente, surge-nos no catálogo uma "História dos Documentos", a qual nos vai informando das suas tipologias documentais, passando pelo tratamento técnico. E o escrevinhador destas linhas pede apenas desculpa a Manuel Costa pela digitalização da imagem da República, diga-se, até por sinal, uma República bem simpática e sugestiva, encantando mais gente cá por Vila Nova, pelo Museu Bernardino Machado. Aliás, o nosso Bernardino Machado também estaria e ficaria encantado com aquela imagem da República, de linhas estéticas simples e de sensualidade admiratitativa (os olhos não enganam), quase como que questionando o mundo que olha. Para além disto, também se gostou da sigla da família, o que nos colocou a pensar qual será a nossa. Falo, é claro, do livro didáctico-pedagógico "À Descoberta de António dos Santos Graça", que já deve ter encantado quer miúdos e graúdos, pela documentação e pelas curiosidade que incorpora. Apenas um grande abraço de amizade fraterna para o meu caro Amigo Manuel Costa e o meu agradecimento por estas duas ofertas.



domingo, 29 de abril de 2012

bourbon e menezes e bernardino machado

na passagem de mais um aniversário do falecimento de bernardino machado, este texto de bourbon e menezes publicado no jornal de "notícias de huíla", em 26 de junho de 1944. para o dr. manuel sá marques, com o meu abraço afectuoso de amizade fraterna.



sexta-feira, 27 de abril de 2012

d. manuel clemente e bernardino machado - breves reflexões

para o dr. manuel sá marques, com o meu abraço de amizade fraterna e saudoso




Saiu este ano o livro de D. Manuel Clemente com o título "Igreja e Sociedade Portuguesa: do Liberalismo à República", o qual tem sido um prazer de ler inquestionável, assim como o foi "Porquê e Para Quê? Pensar com esperança o Portugal de hoje" (lembrando-me, muitas vezes, do jesuíta Manuel Antunes). Rui Ramos, logo no início do seu texto, como uma espécie de introdução ao livro de D. Manuel Clemente, "O Liberalismo Português como Problema Religioso", salienta que "os estudos e intervenções reunidos neste volume abrem uma porta fascinante sobre a história contemporânea de Portugal. Não era uma porta fechada, mas era uma porta que precisava de ser aberta assim, com este saber e largueza de vistas." Nestes textos agora reunidos de D. Manuel Clemente, encontramos "a relação da Igreja com o Estado durante a época do Liberalismo, entre o princípio do século XIX e o princípio do século XX. Mas estão também incluídas aqui importantes e sugestivas investigações e reflexões sobre a vida paroquial em Lisboa no século XX, as esperanças e as angústias de Raul Brandão num «mundo anticristão», ou a «nova religião» desejada por alguns líderes da I República, como Bernardino Machado." Aliás, o texto que D. Manuel Clemente agora publica é a sua conferência realizada nos I Encontros de Outono organizados pelo Museu Bernardino Machado no já ido ano de 1998 então denominado "O Homem, O Cientista, o Político e o pedagogo". A fotografia que aqui publico é, precisamente, desses mesmos "Encontros de Outono". Contudo, as simpáticas reflexões de D. Manuel Clemente perante o pensamento "religioso" de Bernardino Machado, e outras, merecem uma especial atenção, uma atenção informativa e axiomática. Ora, em termos informativos, Bernardino Machado não foi "ministro regenerador entre 1882 e 1895", foi, isso sim, em 1893 no governo de Hintze Ribeiro; e, em 1914, não foi Ministro dos Negócios Estrangeiros: em 1914 foi Primeiro-Ministro, como o afirma de seguida D. manuel Clemente! Surge o primeiro problema reflexivo e de ordem axiomática, ao citar Elzira Machado Rosa, para a qual Bernardino Machado "transitou de um ideário pedagógico para um ideário político"! Respeitando esta opinião, tanto o ideário pedagógico e o ideário político não se encontram separados, antes pelo contrário: em Bernardino Machado o ideário pedagógico complementa-se no ideário político, porque o primeiro se desenvolve institucionalmente no segundo: disto tinha consciência Bernardino Machado. Mas o problema que surge antes deste, é quando D. Manuel Clemente, citando Oliveira Marques, pretende colocar Bernardino Machado na Geração de 70: um mito que Marques construiu: Machado é da geração de João Penha, Alberto Braga, entre tantos outros, e que ficariam amigos de Machado para além da Universidade. Finalmente, a terceira reflexão pessoal a acrescentar às reflexões pessoais de D. Manuel Clemente, que, numa primeira fase do pensamento de Bernardino Machado, o coloca ao lado do Cristianismo e do Catolicismo, e, num segundo momento do seu texto, nos evoca uma "religião totalmente humanizada" em Machado. Antes pelo contrário: se enquanto em 1914 a República com Bernardino Machado acaba por ter um papel mais moderado, apesar de alguns conflitos, como em Coimbra, podemos estabelecer, tal como o fez D. Manuel Clemente, duas perspectivas em Machado: em primeiro lugar, a ruptura, no caso do pedagogo e do cientista, e mesmo do maçónico, com a sociedade oitocentista: é o caso, em algumas situações, no texto das "Notas Dum Pai", no qual, em alguns momentos, surge-nos uma linguisticidade de espírito maçónico com o "olho" de Deus na transcendência terrena, finita, isto é, da transcendência teológica para a transcendência do mundo, de uma cosmologia teológica para uma antropologia - eis o novo paradigma para uma nova secularização do mundo. Acima de tudo, um humanismo imanente e sociabilizador para o progresso de uma cidadania mais plena. Deste modo, o que está em causa para os republicanos e para Bernardino Machado é o ideal roussouniano da «religião cívica». E, se de facto, os republicanos, e o próprio Bernardino Machado não colocavam em causa o próprio Cristianismo, é porque, como nos diz Machado, "nós somos tolerantes para todas as religiões, mas não consentimos que, em nome de Deus, ou de Cristo, venham atiçar ódios contra os que predicam um ideal de bondade e de amor aos seus concidadãos." A mudança de paradigma, de uma verdade teológica para uma verdade antropológica,  registo-a na seguinte citação das "Notas Dum Pai": "Todos os sistemas Morais se podem, logicamente e também cronologicamente, reduzir a duas categorias, conforme colocam o centro da vida fora ou dentro do universo. Os primeiros geram-se na meditação melancólica dos que descrêem do reinado da justiça sobre a terra e apelam para as perspectivas duma estância melhor, onde ela triunfe eternamente; mas, pregando o sacrifício de todos, a sua doutrina, para extirpar o mal, ameaça tudo destruir. Filha do amor, quantas veze sse converte em instrumento de ódio e cobre os campos de cadáveres e os corações de luto! Inspiradora não só do desprezo das grandezas terras e da própria mortificação, mas até do desapego do trabalho útil e das legítimas afeições, ela cria um egoísmo de beatificação, que, rompendo a solidariedade de cada homem com as outras criaturas, excita-o, numa febre niilista, a espalhar diante de si o extermínio, como que em busca, através das ruínas e da morte, das regiões gloriosas de além-túmulo. / Para outros, o reino do Senhor é o deste mundo. E, contanto que ninguém incorra, orgulhosamente, no erro antropocêntrico de supor que tudo conviria em seu proveiro, não há doutrina mais salutar. Melhorar o mundo, torná-lo cada vez mais habitável e habitado por almas livres, eis o verdadeiro ideal de paz e de amor. O fim do homem é a criação, não a mortificação." (itálico meu) O problema, é que a República criou, em alguns casos, as mesmas intolerâncias mortificantes que no Liberalismo e no seio do próprio Cristianismo inquisitorial e a pacificação, entre o público e o privado, nas mudanças de mentalidade, leva o seu preço temporal. E se os republicanos, tal como Bernardino Machado, acreditavam que a mudança mental e social passava pelas instituições, tal não sucedeu: o caso de Vila Nova de Famalicão, e provavelmente como um pouco por todo o País, foi sintomático: os adesivos é que tomaram conta das instituições de solidariedade social, cívica e cultural e entravam nas comissões municipais, nascendo, entretanto, uma nova geração que, tal como os adesivos, se iriam encontrar no Estado Novo. Agradeço a D. Manuel Clemente estas breves reflexões.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

tomás da fonseca, o republicano


Com textos retirados dos jornais "A Pátria", "O Mundo" ou "Alma Nacional", ou de livros como a "Cartilha Nova", o "Ensino Laico" ou o mais do que famoso "Sermões da Montanha", esta nova antologia de Tomás da Fonseca, organizada e prefaciada por Luís Filipe Torgal, o qual analisa o positivismo anticlerical e ateu, o republicano socialista e o educador popular que foi Tomás da Fonseca, permite ao leitor de hoje viver e sentir de uma forma ímpar os tempos conturbados em termos mentais, sociais e culturais da I República em Portugal.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

abril sempre

Abril de Abril

Era um Abril de amigo  Abril de trigo
Abril de trevo e trégua e vinho e húmus
Abril de novos ritmos novos rumos.

Era um Abril comigo  Abril contigo
ainda só ardor e sem ardil
Abril sem adjectivo Abril de Abril.

Era um Abril na praça  Abril de massas
era um Abril na rua  Abril a rodos
Abril de sol que nasce para todos.

Abril de vinho e sonho em nossas taças
era um Abril de clava  Abril em acto
em mil novecentos e setenta e quatro.

Era um Abril viril  Abril tão bravo
Abril de boca a abrir-se  Abril palavra
esse Abril em que  Abril se libertava.

Era um Abril de clava  Abril de cravo
Abril de mão na mão e sem fantasmas
esse Abril em que Abril floriu nas armas.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

camilo no dia mundial do livro

e no dia mundial do livro, este simpático volumezinho de camilo castelo branco com o título encomiástico e saborosamente camiliano "vingança d`um rhinoceronte d`amor", publicado inicialmente em folhetim no jornal do porto "o portuense". republicado em 1990 pelas edições do tâmega, com uma espécie de introdução por antónio josé queirós e com um pósfácio de pedro alvellos, podemos dizer que a colaboração de camilo inicou-se logo nos primeiros números do jornal "o portuense", até à altura em que ingressou em "O Porto e a Carta". O que não deixa de ser curioso é que Camilo através de um dos seus pseudónimos de guerra, O Antigo Juíz das Almas de Campanhã assina um folhetim em que responde a uma crítica às "Folhas Caídas Apanhas na Lama", isto já em Janeiro de 1854. para além desta "vingança", destaca-se da colaboração de camilo em "o portuense" ainda "a caveira", incluída em "cenas contemporâneas" e "agonia de vinte dias", que com o título "vinte dias de agonia" irá aparecer depois em "um livro". e mais um apontamento para a faina jornalística de camilo, salienta-se que "o portuense" foi fundado por camilo e ricardo guimarães. do folhetim, "pias leitoras e pios leitores, começa o romance, em nome da moralidade, do decoro e dos interesses materiais... da família", surge a literatura na sua dimensão ética, que será transportada para a ficção.