terça-feira, 17 de abril de 2012

salvador coutinho, prenda mais, morro por ti


É sempre um prazer receber um novo livro, e ainda por cima de oferta, e com dedicatória, do Dr. Salvador Coutinho, que acaba de publicar mais um livro de poesia, com o título "Prenda Mais, Morro Por Ti". Se no ano passado publicou a ficção "Um Dia Há Tanto Tempo no Mundo", este ano oferece aos seus leitores este livro de poemas, o qual vai ser apresentado no próximo dia 12 de Maio, às 18h00, na FNAC Norte Shopping, C. C. Norte Shopping, Rua Sara Afonso, 205, Loja 206, Senhora da Hora. Se, por um lado, nos deparamos com uma metafísica do real, por outro lado, temos neste novo livro de Salvador Coutinho o seu ritmo poético a que já nos tem familiarizado, povoado por aliterações e repetições, e também por aquilo que designo na sua obra poética pela "independência da palavra", isto é, a palavra individualizada no próprio verso, com identidade e vivência, as quais nos elevam enquanto leitores. Vejamos este exemplo retirado daquilo a que se poderá chamar o "ciclo do poema" - temos outros, caso, por exemplo, "ciclo do café", subtítulos que imagino -  neste novo livro:




qual é o poema que ocupou o tempo preguiçoso de vivo
e não tomei apontamento precipitado em qualquer distraído
e agora (agora) (agora) (agora) só
aos trambolhões
escadaria caracol prédio velho sem elevador mas corrimão
agrarro-me às esquinas da memória
procuro o cerne e
nem sequer sou capaz d edescobrir a fralda
era um poema novo
matéria condimentos presigo novo
túnicas a disfarçar as formas de guerreiro de antanho
e de avesso tudo havia de ser entendido
porque é possível que haja há mesmo
certo como a fala certo como o mar
certo como o além dos céus
que começamos a tratar tu cá tu lá
e que é completamente diferente do que quer a monotonia dos
                                                                            conformes






segunda-feira, 16 de abril de 2012

bernardino machado, eleições locais, 1909


para o dr. manuel sá marques, com o meu abraço cordial de amizade fraterna

Estamos nas vésperas das eleições locais.
Se vivêssemos sob um verdadeiro regime monárquico-liberal, tão conservador como progressista, se a Monarquia Liberal entre nós fosse, como devia ser, uma transição contínua e segura do absolutismo para a República, ninguém hesitava em ir à urna. Todos caminharíamos juntos dentro da lei.
Eleger é a obrigação que normalmente se impõe a todo o cidadão livre. Enquanto se não puder fazer o Governo directo do povo pelo povo, como até na sua confederação já vai fazendo a Suíça pelo direito de iniciativa e de referendum, a eleição é a única origem legítima da autoridade. E, assim como o Governo do Estado, só representando geuinamente a opinião pública, conquista a confiança e o respeito de nacionais e estranhos, assim também o governo local necessita para ter força, perante os seus governados e perante o Governo central, de se basear no voto popular.
Eleições e leitos para o Governo local preparam e habilitam mesmo eleições e eleitos para o Governo central. Façamos a República local, que assim iremos fazendo a nacional. E nas localidades onde vencermos a eleição ou onde obtivermos maioria, aí teremos já oficialmente proclamada a República. Os grandes Estados Unidos da Austrália dão-se mesmo por lei esse nome dentro da tradicionalista mas liberal Monarquia inglesa.
Mas, se o regime governativo se torna ditatorial, é ele mesmo que, suprimindo a eleição livre, precipita a revolução.
Quando vim para o Partido Republicano, ainda a revolta contra a ditadura do engrandecimento do poder real, de [18]94 a [18]97, sobreexcitava os ânimos e, por isso, persistia dele uma forte corrente anti-eleitoral. E agora, depois da última ditadura do engrandecimento do poder real, de 1906 a 1908, alguns correligionários tomam os trabalhos eleitorais como um arrefecimento condenável, quase diríamos uma capitulação.
Não há tal.



É certo que, em toda a parte onde a massa republicana, não tendo alcançado ainda o predomínio, a força incontrastável de que já dispõe sobretudo em Lisboa e Porto, não desarma as cabalas reaccionárias, a eleição é desde o recenseamento até ao escrutínio final uma fraude. A própria lei eleitoral, que viola o direito ou antes a obrigatoriedade do sufrágio universal, o é. E, mesmo que o Partido Republicano vença a eleição, como vai sucedendo, enquanto ele não obtiver a maioria no Parlamento, a centralização de todas as corporações no Estado e do Estado no seu Chefe, oprime, cerceia e chega muita vez a anular toda a acção legisladora e administrativa dos eleitos do povo. Não há dúvida!
Mas a prova da virtude da eleição é que, nem assim, os governos reaccionários vivem tranquilos com o parlamento e as corporações locais de sua lavra. Eles bem os afeiçoam à própria imagem; apesar, porém, da deturpação da sua origem, o seu título electivo introduz-lhes um tal fermente de revolta, que os torna incompatíveis com eles e eles não têm remédio senão dissolvê-los. É a história do último reinado em Portugal.
E tanto a eleição, ainda sob as maiores pressões, é suspeita aos monárquicos, que adiam-na, sempre que podem. Fogem dela como o diabo da cruz. Tivemos agora um exemplo frisantíssimo disso. Sabem-no!



O Governo neo-liberal, presidido por João Franco, tinha adiado indefinidamente as eleições locais, e na época em que as localidades deviam pelo seu voto renovar as suas corporações dirigentes, substituiu-as por comissões administrativas de nomeação régia. Era a ditadura em toda a sua insolência! E que fazem em seguida os partidos liberais históricos? Restabelecem as antigas corporações eleitas, que eram em geral da sua feição política, e não apenas interinamente, até haver outras novamente eleitas que lhes sucedessem de direito, mas indefinidamente, porque deixam ao mesmo tempo de pé o adiamento sine die das eleições. Isto é, à ditadura franquista da nomeação das comissões administrativas segue-se a ditadura rotativa da prorrogação do poder às velhas corporações eleitas, transformadas desta arte em outras tentas meras comissões administrativas também. Ficou, portanto, tudo na mesma, mudado apenas o pessoal do Governo local do franquista para rotativo, e nem isso sequer realmente, porque as clientelas não têm dono certo, pertencem ao poder, e muitos rotativos se haviam já, por esse país fora, feito franquistas, como ultimamente vários franquistas se têm tornado rotativos. E ainda por fim os dois partidos históricos monárquico-liberais, assestando as baterias da funambulesca escolástica com que quase por toda a parte encobrem a sua falência intelectual e moral, inventaram para prolongar essa ditadura uma opinião jurídica, que é perfeitamente típica. Tendo submetido o decreto ditatorial do adiamento das eleições locais ao veredictum do Parlamento, deixaram-no lá pendente, e, uma vez encerrado o Parlamento, declaravam-se, em atenção a ele, coactos e impossibilitados de proceder às eleições locais, como ordena a lei. É até onde se pode levar a mistificação! Para que é que a estes pseudo-liberais servem as prerrogativas da representação nacional? Para cobrir à ditadura, que é a sua violação flagrante. Os escrúpulos da legalidade são para manter a ilegalidade.



Ainda bem que o Sr. Ferreira do Amaral não adoptou semelhante hermenêutica. E mão teve para isso de formar qualquer pacto com republicanos, bastou-lhe formá-lo com a sua consciência. Pena foi que não derrogasse logo de princípio toda a obra ditatorial que encontrou, e, que por o ser, toda devia ser logo declarada irrita e nula. Havia já direitos adquiridos? Não há nenhum senão pelo império da lei, dissessem sem embargo o contrário alguns juízes a quem infelizmente está confiada a sua guarda. Era mesmo o justo castigo infligido a quantos se haviam servilmente aproveitado da ditadura, tornando-se seus cúmplices. E ficava de escarmento e lição para futuro.
Mas o procedimento dos franquistas e rotativos contra a eleição denuncia claramente o medo que têm dela!
E a prova também da virtude eleitoral está em que, onde há um eleitorado valoroso e onde ele triunfa nas suas lutas, parcialmente que seja, em minoria, já o regime tem forçosamente de reprimir a arbitrariedade dos seus desmandos ditatoriais. A morte do franquismo começou no dia em que ele expulsava do Parlamento dois Deputados republicanos. Que é que sustenta o actual Parlamento contra as ameaças rotativas e o defende das suas investidas? É, mais que tudo, a presença lá dentro dos representantes legítimos da Nação, dos nossos representantes populares, embora só sete. E porque é que o Presidente do Conselho, com o seu são naturalismo, venceu agora a escolástica jurídica dos rotativos? Porque há hoje um eleitorado, principalmente em Lisboa, consciente dos seus direitos, que, custe o que custar, os quer fazer valer.



A força que neste momento o Presidente do Conselho possui incontestavelmente sobre todos os outros monárquicos, que mais dependem dele do que ele deles, o seu prestígio político provem-lhe da força que lhe tem dado o seu maior respeito pelas liberdades parlamentares, pelas liberdades locais e pelas liberdades de imprensa e de reunião, o que vale o mesmo que dizer pelo princípio electivo e pelo eleitorado. Pode viver com uma oposição parlamentar republicana, não receia viver com vereações republicanas, e não teme mesmo pôr-se em contacto com o povo, senão em comícios republicanos, em reuniões onde os republicanos se acham em grande maioria. A força que isto lhe dá é tamanha, que quebrou em parte as desconfianças de militarismo com que foi recebido à entrada para o Governo; e tudo, o artigo 5.º ao adiantamentos, o incremento clerical, até as tremendas chacinas de 5 de Abril, tudo por isso a opinião atribui muito menos a ele do que à reacção que o cerca e ilaqueia.
Em minoria que estejamos no poder, fiscalizamo-lo; e assim se começa a tomar conta dele. E, ainda mesmo que percamos uma e outra eleição, não há nunca esforço perdido. Quando um corpo cai sobre outro, pode não o despedaçar, mas aquece. Também em todas estas lutas cívicas aquecemos e vamos mais e mais excitando em nós o espírito revolucionário.



Sim! Todos os republicanos portugueses somos revolucionários, não o podemos deixar de ser, somo-lo por necessidade.
A revolução é o conflito fatal entre um regime que se torna cada vez mais reaccionário e uma sociedade que se torna cada vez mais avançada. Não podendo operar-se o progresso da Nação pelo progresso das instituições, opera-se em luta contra eles; e, não podendo, portanto, chegar-se à República pela evolução do poder, tem de chegar-se lá pela revolução popular. É inevitável. E é o que tem de acontecer entre nós, porque nos últimos anos a nação portuguesa incessantemente progrediu e o regime incessantemente retrogradou.
Mas não será possível ainda renovarem-se liberalmente os velhos partidos monárquicos? Respondem por nós que não as moções com que nas assembleias rotativas foram há pouco abafadas pelos chefes as vozes dos partidários independentes; e isto no transe em que essa afirmação de independência era o único sustentáculo da vida desses partidos contra a invasão franquista. E a resposta é peremptória. Não! Rotativismo quer dizer reacção política, como franquismo quer dizer reacção clerical. E com homens ou em volta de homens saídos desses partidos não serão viáveis novos partidos liberais? A experiência com João Franco, que era um temperamento e um carácter despótico, falhou; mas vingará com Ferreira do Amaral, que é, pelo contrário, de temperamento e carácter liberal? O Sr. Ferreira do Amaral, quem é, pelo contrário, de temperamento e carácter liberal? O Sr. Ferreira do Amaral já está no poder há nove meses, e que é do seu partido? Dentro da Monarquia é possível organizarem-se novos partidos reaccionários, como se organizou o franquista, como se vai organizando o nacionalista; mas um partido liberal, não! Aí têm a tentativa do grupo alpoinista! São longo os próprios monárquicos que o não deixam viver.




O aparecimento ou desaparecimento dum homem, Chefe do Estado ou Ministro, não altera nunca profundamente o curso dos acontecimentos ao ponto de, com esse homem, desaparecer um regime ou aparecer outro.
Morto o Rei e exilado o seu Primeiro-Ministro, que mudou? Dum lado prossegue o movimento republicano da sociedade portuguesa, do outro o movimento absolutista do regime, e as duas correntes seguem logicamente o seu curso, caminhando uma contra a outra. Que conseguiu a opinião liberal? Sempre conseguiu manter aberto o Parlamento com os Deputados republicanos; conseguiu nele a votação do orçamento e a discussão dos adiantamentos ilegais; e conseguiu dele um subsídio para os monumentos a [Marquês de]Pombal e a [Joaquim Augusto]Aguiar. Foi muito pouco, mas foi já alguma coisa. E a reacção? Ai! A corrente do engrandecimento do poder real, se não engrossou, persiste, ainda não foi sustada. O gabinete, com o Sr. Ferreira do Amaral na presidência, é não de restauração liberal mas de concentração monárquica, de modo que a obra do engrandecimento do poder real foi pela velocidade adquirida ainda além do que era com o Sr. João Franco, porque então ele só se atreveu a querer compor o ministério do Rei com progressistas, e nem com esse pode inteiramente, agora são progressistas e regeneradores todos juntos que voluntariamente o constituem. E, para maior ser a semelhança, é ainda o partido progressista, talvez o mais enfraquecido dos dois pelas suas apostasias, que principalmente lhe dispensa a sua cooperação. Assim se vão dissolvendo irremissivelmente os partidos históricos, convertidos em desdobramentos do poder, em clientelas, e o absolutismo do chefe do estado substitui-se ao dos chefes dos partidos. Nada mais lógico: é a história que se repete.


Quem pode ser liberal a dentro da Monarquia? Uivam-lhe logo em torno os mais cruéis doestos. Vejam como os seus paladinos tratam o Sr. [Ferreira do]Amaral! Quando o não chamam demente, acusam-no de traidor à Monarquia, chamando-o sarcasticamente o delegado do Partido Republicano junto do trono. E assim são eles próprios, os monárquicos, que fazem com que liberal seja sinónimo de republicano e por conseguinte com que só um Governo republicano possa hoje em Portugal ser um Governo liberal.
Não! Já não é lícito confiar na regeneração do regime. E ninguém imagina encontrar no povo português a quantidade de boa fé simples, ingénua, de que falava Oliveira Martins. Os desenganos dolorosos, tão repetidos, extinguiram-lha. O único recurso de salvação nacional é, não há outro, a revolução.
Mas revolução não quer dizer subversão geral. Será, pelo contrário, apenas o abalo momentâneo indispensável para arrancar a nação às causas de desordem que, dia a dia, a minam e subvertem, e restabelecer nela para sempre a ordem e a paz, harmonizando as instituições com a sociedade.



Não somos revolucionários por intemperança, como se o nosso partido fosse constituído por uma boémia juvenil, espécie demagógica de marialvas sempre propensa a distúrbios, fazendo da revolução um sport, ou só por bandos de revoltados da miséria, sempre em crispação de cólera, fazendo da revolução uma arma odienta de represálias sociais. Os novos estão certamente connosco, e nós estamos sempre de coração com todos os desgraçados, mas para os conduzirmos e disciplinarmos amoravelmente, não para sermos por eles arrastados nos desvarios das suas paixões. E, para os conduzirmos não precisamos de romantizar a sua exaltação, pondo-a em drama de capa e espada, não preconizando senão a conspiração misteriosa no ermo, nas trevas, com pistolas e espingardas escondidas. A conspiração que não é senão a propaganda armada feita clandestinamente, é decerto legítima, porém só para as justas reivindicações vitais que o despotismo violento do poder não permite fazer numa propaganda pacífica, à luz do dia. Uma não exclui a outra. E a propaganda franca de princípios é que é normalmente a nossa, porque nunca vamos até á violência senão para respondermos à violência. Há dentro do Partido Republicano profissionais, artistas da revolução, que acreditam que a revolução é como certos remédios que os médicos recomendam que se agitem antes de se tomar? O partido não os acompanha. Ele já não está na idade de confundir revolução com agitação teatral. Todos nós, republicanos, devemos dar a vida para defendermos a nossa causa, quando os nossos adversários, transformados em nossos inimigos, nos combaterem com as armas na mão; mas, assim como condenamos o duelo entre os indivíduos para julgamento de agravos pessoais, também por nossa vontade não levamos medievalmente o nosso ponto de honra político até lhe confiarmos o dos nossos pleitos partidários. É ao júri de honra, à sentença da opinião pública, que, por nossa parte, sempre queremos submeter.
Tão pouco somos uns fanáticos da revolução, que a adoremos em êxtase nirvânico, esperando que ela, por mercê especial à nossa invocação, desça um dia milagrosamente do céu até nós, sem nada fazermos por ela, como um beato que passe a vida inteira a rezar ao seu deus, deixando ocorrer à revelia toda a demanda dos seus mais sagrados direitos. Esses revolucionários parecem-se muito com as donas de casa que, a todo o momento, ameaçam as criadas com a expulsão: e elas vão ficando e fazendo quanto querem. Se os há entre nós, não são a massa do partido, cimentada pelo povo, que o trabalho educa no esforço paciente, serão apenas alguns intelectuais, a quem a família pôs para sua sustentação a mesa em casa, a quem a sociedade para a sua instrução pôs a mesa espiritual nas escolas, e que, saídos das aulas superiores, sem nunca serviram a ninguém, querem a toda a pressa que lhes ponham também para ali logo sobre a mesa o Governo do País. E, se lho não põem, amuam, como uns mimalhos. Raros deles, porém, têm a força do ânimo bastante para se conservar numa inacção ascética, à espera da revolução; a maior parte rendem-se logo de corpo e alma à reacção, que lhes acene com o poder. Raros, portanto, desses beatos revolucionários haverá dentro do Partido Republicano.



E muito menos ainda somos revolucionários como certos patrioteiros monárquicos, que enchem a boca com a autonomia e integridade da Nação, mas recusam-se ao serviço militar obrigatório e dão homens por si, substitutos para a defender. Nós não declinamos a defesa do nosso ideal no exército, que não desejamos que seja nem do Partido Republicano, nem do partido do Rei, mas da lei. Só num caso compreendemos e justificamos a insurreição militar, então mesmo julgamo-la até obrigatório, é quando o regime queria fazê-lo sem partidário servil, seu escravo. Ah! Então, se é legítima a violência contra a violência, quanto mais não o é, quando o poder intenta fazer do cidadão, por ser militar, pior do que a vítima, o algoz dos seus direitos!
A revolução redentora há-de estalar subitaneamente um dia, mas há-de ser preparada perseverantemente, laboriosamente, todos os dias, a cada minuto. O poder não evoluciona liberalmente para a República – não contemos com isso! – mas evolucionemos nós sem tréguas para ela pelo incessante exercício e progressivo desenvolvimento das nossas virtudes cívicas. Não há somente a evolução dos dirigentes, do regime, há também a evolução dos dirigidos, do povo, da consciência pública. Aquela evita a revolução, esta prepara-a para quando ela se torne necessária. Que é um soldado da República? É um cidadão acabado, perfeito, que, sem desumanidade para com ninguém, a não ser para consigo mesmo no ardor da refrega, todos os seus bens, até a própria vida, é capaz de dar heroicamente pela liberdade.
Esta capacidade de abnegação, de sacrifício pessoal, é que é necessário acender nas almas; e ninguém a adquire no isolamento, só na vida associativa se acendra e tempera. Por isso a segurança da nossa vitória final está fundamentalmente, está radicalmente na solidariedade cada vês mais perfeita da nossa organização partidária. Cada vez somos mais numerosos e mais unidos.
Porque a nossa união não é mais incompatível com a mais desafogada crítica dentro do partido. Pelo contrário, vive dela. Se somos precisamente um partido de livre exame, não o havíamos de fazer só aos actos dos outros, mas aos nossos próprios actos também, é claro! Porque é que os partidos monárquicos se despedaçam e esfacelam? É porque entre eles não há ideias, não há lutas de princípios, E porque é que o Partido Republicano se robustece dia a dia mais? É que cada dia vão cabendo melhor dentro dele todos os ideais humanos. Politicamente, economicamente, religiosamente, têm dentro dele lugar todos os liberais, desde os mais conservadores até aos mais radicais, desde o capitalista até ao proletário, e desde o livre-pensador até ao crente católico. Somos a liberdade, a tolerância para todos, inclusivamente para os adversários, e é até por isso que, sendo de todos a nossa causa, havemos de vencer. A luta de ideias modera e refreia a luta de interesses e de paixões, apazigua.


Nós reunimo-nos tanto mais quanto mais discutimos. Sejamos, pois, um partido tanto de crítica, que nem com os seus excessos nos alvorocemos. Há críticos que, à força de querer dar mais uma opinião ao partido, não aceitam nunca a dos outros, nem por muito tempo a sua própria? Desculpem-se ainda os que vão na campanha da sua crítica até ferir por vezes o partido. Coitados! Façamos justiça ao sentimento que os move. Eles são como certas pessoas tão zelosas da sua família, que, ao menor defeito que lhe imaginam, irritam-se extraordinariamente com ela. Não é preciso que ninguém do partido, nem o seu directório, os avise, porque eles sofrem logo o doloroso castigo de ser avisados pelos adversários, que lhes reproduzem e perfilham pressurosamente, com irónico aplauso, as suas palavras. E sucede-lhes como quando, depois de grazinarmos demais nossos filhos em público, ouvimos estranhos dizerem o mesmo mal deles: ficamos furiosos!
Temos certamente uma disciplina, mas voluntária. O Directório está obrigado a expor as suas opiniões lealmente aos seus correligionários, mas escusado será acrescentar que não pretende nunca impô-las a nenhum. Estamos num partido onde não há dogmas. Governa-o a cada hora quem, ainda que fora dos corpos dirigentes, achar e exprimir a fórmula que se esboça na consciência geral republicana. Esse, se não está no directório, é quem governa de facto, e para lá irá de direito na primeira ocasião. Por isso, no Partido Republicano não é lícita a revolta contra os governantes, e, se algum conspirador a tentar, só se for para se adestrar cá dentro para a grande revolta lá de fora. Não faz muito mal!
De resto, na moral, como nas ciências físicas, há verdades adquiridas, principalmente já solidamente demonstrados, pelos quais estamos todos ligados superiormente. Perante eles cessam todas as nossas divergências. Todos temos um programa comum dentro do Partido Republicano. E são as verdades, os princípios inscritos na nossa bandeira que neste momento desfraldamos na arena das eleições locais.



Pugnamos, antes de tudo, pela emancipação política das localidades, pela sua autonomia, de tal modo que nenhuma delas seja a inimiga das outras, mas, respeitando mutuamente a sua independência, todas convirjam ao mais perfeito consenso para o funcionamento integral da nação. Esta emancipação é a da localidade; mas há a dentro dela também a de cada um dos seus concidadãos, a quem pertence de direito, seja quem for, o voto directo na gestão dos negócios locais, e há a de cada partido, a quem igualmente de direito pertence ter nos corpos gerentes uma representação proporcional às suas forças. É o exercício de todos os direitos locais, toda esta vida política regional, queremos que se difunda logo na instrução e educação cívica por todos os membros de cada comunidade.
Propugnamos juntamente pela emancipação económica das localidades. E, para isso, reclamamos o equilíbrio do seu orçamento – nada de deficit e nada de novas dívidas! – e reclamamos a extinção progressiva de todos os monopólios, para que as localidades administrem cooperativamente os bens colectivos. Conhecem a história do galego, recém-chegado a Lisboa? Escrevendo à família, dizia: – «Esta gente é boa, mas tola; a água é dela e nós vendemos-lha.» É o que se passa com as múltiplas companhias, em cujas mãos se têm amortizado quase todos os rendimentos locais. Aproveitemo-los escrupulosamente. E, levando ao governo local homens de negócios, habituados a poupar, amealhemos, sobretudo, para os pobres. Onde, como dantes, os baldios para eles? Pois devem tê-los por toda a parte. Luz, ar e água para os pobres! Construa-se em Lisboa uma casa para as reuniões do povo; construam-se casas baratas para operários, desobstruindo para os arrabaldes os velhos bairros infestos à saúde e à moral da cidade; construam-se escolas primárias – hoje só há uma com edifício próprio! – construam-se balneários públicos – ainda hoje não há nenhum! E subsidiem-se generosamente com quanto se possa todas as obras de higiene e de assistência popular e, sobretudo, maternal e infantil.


Finalmente, reivindiquemos para as corporações territoriais a liberdade de amar, o que se pode chamar a sua emancipação religiosa. Até agora as festas locais têm-se celebrado quase só em honra dos grandes e poderosos. Que de futuro haja, sobretudo em cada terra as festas do nosso carinho pelos humildes, pelos pequenos, as festas do povo e das crianças! Sobretudo para o povo e para as crianças se aformoseiem as ruas, os parques e jardins das cidades!
E advirtamos que toda a autonomia local tem de começar logo no acto eleitoral, está inicialmente nas mãos do eleitor. Eleições locais livres vibram o primeiro golpe no caciquismo e, portanto, na centralização administrativa, na tirania do Estado, no arbítrio monárquico. E tanto isso se compreendeu quase por toda a parte, que o grito de emancipação é: lista republicana! Ou então: lista da localidade! Isto é, onde a lista não pode ainda ser toda republicana, quer-se uma lista não política, para que não seja monárquica, para que não tenha a cor irritante de nenhum dos partidos, ou antes, de nenhuma das clientelas da Monarquia. E com razão! Faz grande diferença uma corporação de homens independentes ou de serventuários do poder. Sem cidadãos livres não há liberdades públicas.
Há monárquicos que não temem o nosso programa? Aceitemos a cooperação de todos os homens bons. Que venham connosco! Nada de acordos com caciques, com mandões das clientelas; mas estejamos sempre prontos a abrir os braços a todos os concursos desinteressados e altivos. Não pretendo descobrir a lei da atracção universal de todos os portugueses, nem mesmo sequer de todos os republicanos. Sei bem quanto é difícil a mais elementar das operações, a soma, quando se trata de homens. Mas não me cansarei jamais de pregar a atracção, a paz, na sociedade portuguesa. Contradição de revolucionário? Não! Eu sou revolucionário, como o médico de Molière, mau grado meu, ou, como Castilho traduziu, à força.

















 




domingo, 15 de abril de 2012

bernardino machado, orientação e táctica republicana (1909)

a caminho da apresentação do tomo II da obra política de bernardino machado, no museu bernardino machado, em vila nova de famalicão, no próximo dia 21 (sábado) pelas 16h00. para o dr. manuel sá marques, com o meu abraço de fraterna e cordial amizade.



Ninguém ignora a grandeza intelectual e moral de Basílio Teles, o poder construtivo da sua disciplinada mentalidade, a sua larga folha de serviços dedicados à causa pública, a sua vida estóica de exemplar abnegação pessoal. Como político, como economista, como escritor e orador, ele tem um lugar de honra entre as figuras primaciais do nosso tempo; e as suas claras virtudes cívicas impõem-no prestigiosamente à estima e ao respeito tanto de correligionários como de adversários. É, de direito, não só um dirigente do seu partido, mas de toda a sociedade portuguesa.
Não podia, portanto, este Centro, que hoje aqui se inaugura, condecorando-se com o seu nome ilustre, escolher patrocínio mais auspicioso. E eu venho associar-me gratissimamente a tão justa homenagem.
Muitas vezes se diz que devemos preito ao nosso ideal e não aos homens. Não é bem assim. Os princípios valem tanto mais quanto mais fraternalmente enlaçam as almas. Tão reaccionário é converter em desdém e ódio pelos outros o amor dos princípios como o amor de Deus. E, infelizmente, não há neste género só a reacção clerical, há também a reacção laica, que não é menos perniciosa. Conheço criaturas que gastam todo o seu coração com as ideias, não lhes sobrando dele nada para a gente. Pois a obra suprema, a obra sagrada da razão é a união social.
E, por isso, da cordialidade mútua de um partido, como o nosso solenemente testifica nestas festas, se infere com segurança a excelência do seu mote.
É que o nosso é a liberdade. Sem ela não há solidariedade humana. Sucede na sociedade como na química: não é o químico que faz as combinações, fazem-nas, sob a sua direcção, os próprios átomos entre si pelas suas recíprocas afinidades electivas. Coarctar-lhes a eles os movimentos é provocar conflagrações. Também na sociedade a união só pode provir da livre expansão das iniciativas individuais. E aí está porque hoje somos só nós, republicanos, com as nossas reivindicações liberais, que vamos ressuscitando em Portugal a vida colectiva, a vida nacional, desde a metrópole até ás colónias, cimentando assim solidamente para futuro o grande Portugal.
Porque é que a Monarquia nova se esfacela cada vez mais? O seu descalabro é o efeito fatal da sua reacção.
Politicamente, vejam quanto o decantado liberalismo do novo reinado já decaiu! Ao Ministério intencionalmente liberal de Ferreira do Amaral seguiram-se os Ministérios ponderadamente, isto é, atenuadamente liberais de Campos Henriques e de Sebastião Teles, e, por último, o Ministério diplomaticamente ou antes, equilibristamente, acrobaticamente liberal de Wenceslau de Lima. Economicamente, depois de uma sessão legislativa em que se levou o servilismo ao ponto de se aumentar a lista civil à família real, outra sessão em que, com servilismo ainda maior, se pagou a indemnização dos sanatórios à Alemanha, e, nos intervalos das sessões legislativas, fora da fiscalização e sanção parlamentar, o empréstimo fraude, assim denominado pelos próprios monárquicos; e o tratado ignominioso com o Transvaal. Militarmente, não falemos. Ainda agora a Monarquia nova acaba de exercer sobre um brioso oficial reformado do exército, que outro dia assistiu a uma conferência republicana, não uma legítima disciplina militar, mas uma revoltante opressão militarista.

Palacete Barão de Trovisqueira - Museu Bernardino Machado

Por isso, falido já o seu liberalismo, tanto politicamente como economicamente e militarmente, o novo reinado intenta chamar em seu socorro o sentimento religioso do nosso povo, apresentando-se-lhe como seu campeão. Mas, assim como, quando invocava a opinião pública, a Monarquia a atacou com os rotativos, e, quando invocava o interesse público e a ordem pública, os atacou com o franquismo, assim agora, que invoca o sentimento público, ataca-o com o clericalismo, o mais encarniçado inimigo dos direitos do nosso coração, do nosso amor de família, do amor pátrio.
O regime chegou à fase extrema da reacção e conseguintemente à sua dissolução final. No 4 de Maio, em seguida ás chapeladas da Azambuja e do Peral, pode dizer-se que morreu o rotativismo. No 1.º de Fevereiro, em seguida à liquidação ditatorial dos adiantamentos e às perseguições ferozes contra os republicanos, morreu, não há dúvida, o franquismo. Agora, após este explodir de ódios sectários, tem de vir irresistivelmente a morte do clericalismo. E será o fim da Monarquia.
Da nossa orientação e da nossa táctica depende que seja ao mesmo tempo o início do nosso renascimento nacional.
Qual deva ser a nossa orientação é muito simples: republicana, toda liberal e tolerante. A República não é nem livre-pensadora, nem colectivista ou comunista, nem anarquista [A República não é nem ateísta, nem colectivista ou comunista, nem anarquista], como não é tão pouco confessional, burguesa ou autoritária. Assim como a Nação, que abrange todos os cidadãos, o Partido Republicano abrange todos os democratas, quaisquer que sejam as suas crenças religiosas, os seus interesses económicos, as suas opiniões políticas. Garante a liberdade a todos, e a todos quer disciplinar e harmonizar pela livre obediência à lei.
E qual é a nossa táctica? Republicana também, toda de atracção, sem nenhumas pressões, como sem nenhumas transigências.
Não somos homens de violências – senão em que diferiríamos dos nossos adversários? – e nem sequer a mínima violência moral, a mínima pressão devemos fazer aos nossos adversários. Nada, por exemplo, mais legítimo do que erguermos vivas à República e ostentarmos os emblemas triunfais da causa republicana. São vivas e emblemas patrióticos. Não ofendem a ninguém. Festejar as conquistas da liberdade é festejar o engrandecimento do cidadão e da Pátria. Sem embargo, todas as nossas expansões jubilosas, naturalíssimas entre correligionários, exigem muito tacto nos meios monárquicos, onde, por um mal entendido que a nossa propaganda ainda não dissipou, podem susceptibilzar os nossos adversários, aparecendo que tentamos levá-los de assalto.
Não façamos aos outros o que não consentiremos que eles nos façam. Assim como nos susceptibilizaria que os nossos adversários pretendessem com as suas manifestações fazer passar por monárquicas povoações já quase de todo ou em grande parte republicanizadas, assim está da nossa parte nas outras povoações não lhes criar o menor motivo para igual motivo para igual melindre. Molestados os elementos monárquicos liberais que há por muitas terras, bem dispostas a respeitar os nossos direitos de propaganda e discussão e a ouvir-nos, retraídos esses, portanto, ficam em campo os bandos reaccionários para, com as costas quentes pela autoridade, operarem, segundo o eufemismo do Presidente do Conselho, a revivescência do espírito monárquico, agredindo-nos furiosamente. Ora nós, ainda quando possamos levar a melhor nesses conflitos, e ainda quando por fim eles venham pelo seu escândalo a indignar os próprios monárquicos liberais contra os reaccionários, devemos procurar evitá-los. Queremos convencer, não vencer. Fazemos propaganda, não escaramuças. O País reclama ansiosamente sossego, paz, e é preciso que ele veja que só o Governo republicano é capaz de lha assegurar, porque, no dia em que, pela proclamação da República, a  reacção se achar isolada, sem a protecção governativa, e, por isso, correndo risco das suas arremetidas, acalmará de pronto. Ela não é para sacrifícios. E os fanáticos, já hoje em dia felizmente muito raros, caberão bem então, quando se tornarem perigosos, numa casa de saúde ou num manicómio.
Ninguém, contudo, intérprete mal os nossos escrúpulos. A nossa política de atracção não implica nunca a mínima transigência com os nossos adversários.

Inauguração da estátua a Bernardino Machado, no âmbito das comemorações de 1983, com a presença do então Presidente da República Ramalho Eanes

A tibieza, o simples retraimento do Partido Republicano em qualquer campanha liberal seria não só um mal para o partido, porque atrofiava as suas forças, dando-lhes ademais um ar comprometido de desconfiança em si, como se o seu concurso declarado pudesse prejudicar o êxito da causa que ostensivamente defendesse, o que seria a pior das fraquezas, mas também, e até logo por isso, um grande mal para a própria campanha. Que se ganhava em compensação da tibieza e enfraquecimento republicano? Não se afastarem da luta contra a reacção as forças monárquico-liberais? Revigorarem-se essas forças, pondo na luta toda a sua tensão? Como tudo isto é quimérico! Onde estão essas forças monárquico-liberais tão ciumentas da integridade partidária e tão orgulhosas do seu poderio político, que, em vez de se medirem, sem se confundir, com as forças republicanas, disputando-lhes a primazia no esforço combativo comum contra a reacção, preferirão imobilizar-se nos seus arraiais e saírem a campo, batalhando junto de nós e repartindo connosco os troféus da vitória? Formular a pergunta é logo dar a resposta. Não existem!
Não há já entre nós nenhum partido monárquico liberal. Todos os partidos monárquicos constituídos são profundamente, entranhavelmente reaccionários: os rotativos são a reacção política – plutocrata e pretoriana – e os nacionalistas são a reacção clerical. [os franquistas são a reacção feudal – plutocrata e pretoriana] Poderá constituir-se de novo um partido monárquico-liberal? Não o conseguiram na oposição, há pouco, João Franco e, ultimamente, José Alpoim, ambos os quais se viram afinal na necessidade de transigir e se aliar com as velhas oligarquias rotativas. O Sr. Alpoim, ainda depois da sua entrada para o bloco liberal com os regeneradores, continua a apregoar que o regime ou há-de ser democrata ou morre; mas João Franco fez pregão também de liberdades, ainda depois da sua concentração liberal com os progressistas. E, por mais que diferencemos entre os dois homens e entre os parciais de um e de outro, e temos obrigação estrita de lealmente os não equiparar, fica sempre no espírito público suspensa esta interrogação: mas no poder? O poder é a grande provação. A quem lá for amanhã, acontecerá o mesmo que a João Franco: ceder, traindo o povo; ou o mesmo que a Ferreira do Amaral: desistir, traído pelo Paço. E mais Ferreira do Amaral tinha por si a força excepcional que lhe dava aquele momento de pânico da dinastia e de impotência dos partidos monárquicos. Tudo então aconselhava o regime a ser liberal, nós mesmos a isso o instigamos abnegadamente, patrioticamente; e nem assim! A experiência já feita do novo reinado tornou-se, pois, para todos desenganadamente decisiva.
Mas haverá subterrâneos, esparsas, prestes a organizar-se por si mesmas num partido em volta de novos chefes, potentes forças monárquico-liberais, que seja necessário acauteladamente não perturbar na sua laboriosa gestação? Quem dá por isso? Onde esses chefes? O que não se fez com José Dias Ferreira, apesar de todo o seu alto valor político, irá fazer-se agora com o Sr. Bombarda, cujo grande valor, também inegável, tão relevantemente se têm assinalado nos últimos tempos? Por mais que o Sr. Bombarda, com todo o fogo do seu liberalismo, sopre nas cinzas frias das juntas liberais, não as reanima, porque tais juntas estavam de há muito tão mortas que as almas de vários dos seus membros tinham já transmigrado para o franquismo senão mesmo para o clericalismo.
Não há nenhum partido monárquico constituído, nem possibilidade de se constituir algum de novo. O que há, sim, é monárquicos liberais. E esses ou são tão frouxamente liberais e tão intensamente monárquicos, que se receiam, como uns beatos, do contágio republicano, e não contam para a defesa valorosa das liberdades públicas; ou, são deveras liberais, só têm um de dois caminhos a seguir: desiludidos da Monarquia, republicanizarem-se de vez, como altivamente fizeram Augusto José da Cunha, Anselmo Braancamp Freire e tantos outros, a seu exemplo, ou, porque não queremos nas nossas fileiras ninguém contra vontade, nem o Partido Republicano tira o lugar a ninguém, formarem, sem quebra da sua autonomia, ao nosso lado, como honradamente fizeram muitos e, sobretudo, os dissidentes.
Mas, para isto, é indispensável que uns e outros nos vejam, como então, aguerridamente na estacada, nos postos mais perigosos, comandando a batalha.
O Partido Republicano tem o direito e o dever de ir sempre na vanguarda de todas as campanhas liberais. E não pode deixar de ir. A não ser que, desesperado deste mundo, faça o voto asceta de não governar… Mas não! Sei bem que não desfalece nunca. O Partido Republicano não confia menos em si do que o país confia nele. E é, com esta plena confiança na sua redentora missão, que saúdo esperançosamente a Foz republicana.






























sábado, 14 de abril de 2012

bernardino machado e a república


a caminho da apresentação do tomo II da obra política de bernardino machado, a qual se fará no museu bernardino machado, em vila nova de famalicãom no próximo dia 21 pelas 16h00, ficam aqui alguns pensamentos de um dos políticos republicanos mais coerentes que trabalharam para o bem da nação. incontestavelmente, estas linhas são para o dr. manuel sá marques, com um abraço cordial de amizade fraterna.



"E, na base de toda a nossa política, que não é senão educação cívica, fica por mais tempo, assim como está, o regime do nosso ensino, que tanto precisa ser reformado liberalmente."

Para operarmos a nossa intervenção, unamo-nos entre nós cada vez mais intimamente como uma família. E unamo-nos cada vez mais com a Nação. Não repilamos ninguém. Não somos um partido de ódios nem de violências, violências são de franquistas; ódios, de clericais. Somos e devemos ser um partido de atracção. Que atrair não quer dizer transigir. Devemos atrair unicamente pela legítima influência das nossas virtudes cívicas."

"Fazer com que em Portugal haja um povo livre e uma Pátria livre, eis a aspiração sagrada do Partido Republicano Português."

"Ressuscitar a vida pública é de facto o anseio patriótico de todos os republicanos portugueses."

"O problema por toda a parte é sempre aproximar, socializar os homens. / Não podemos ainda reuni-los bem pelo interesse e pelo sentimento comum? / Já o vamos fazendo. O Partido Republicano é uma grande família, onde cabem todos os crentes e todos os livre-pensadores, e é uma grande moralidade, onde os ricos contribuem para os pobres. Não somos um partido de ateus, nem de colectivistas ou comunistas. Se o fossemos, tinhamos de esperar resignadamente pela nossa vitória ainda séculos; não deviamos contar com ela para breve, como contamos."

"O que sobretudo temos feito e temos de continuar a fazer, é ressuscitar, criar a vida política da nação, associar todos os portugueses como cidadãos pela razão. Essa força de união só nós a possuímos, é a nossa grande força política, à qual os nossos adversários se vão fatalmente rendendo."






















quinta-feira, 12 de abril de 2012

as luzes maçónicas portuguesas





O V Ciclo de Conferências denominado “A Maçonaria em Portugal: do século XVIII ao século XXI”, organizado pelo Museu Bernardino Machado de V. N. de Famalicão, vai ter no próximo dia 20 de Abril (Sexta-Feira) a sua terceira conferência, sendo o orador convidado o Professor Norberto Ferreira da Cunha.
Professor catedrático aposentado da Universidade do Minho, licenciou-se pela Universidade de Coimbra e doutorou-se em 1990, pela Universidade do Minho com uma dissertação sobre a “Génese e Evolução do Ideário de Abel Salazar” (tese de doutoramento em História da Filosofia e Cultura Portuguesa, publicada pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda em 1990).
Foi Professor Catedrático do Departamento de Filosofia e Cultura do Instituto de Letras e Ciências Humanas da mesma Universidade, desde 1998 até 2006, ano em que se aposentou, e presidiu, durante vários anos, ao “Centro de Estudos Lusíadas” da Universidade do Minho (que, no âmbito das suas actividades, organizou dezenas de conferências e vários Colóquios internacionais) e foi Vice-Presidente do Conselho Cultural da mesma Universidade. Foi, durante vários anos, Presidente do Conselho de Cursos do Instituto de Letras e Ciências Humanas da Universidade do Minho e Director do Departamento de Filosofia e Cultura do mesmo Instituto. Foi vogal da Fundação Lloyd Braga, membro da Comissão Instaladora da Casa-Museu de Monção (da Universidade do Minho). É membro dos conselhos científicos de várias revistas nacionais, dos órgãos directivos do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira (desde 1998) e Coordenador Científico do Museu Bernardino Machado, em Vila Nova de Famalicão.
Para além do seu curriculum académico, o Prof. Norberto Ferreira da Cunha, tem participado em vários projectos de investigação, realizou conferências em diversos congressos e colóquios nacionais e estrangeiros e fez parte de júris de vários prémios de História Contemporânea.
As suas publicações têm como objectivo fundamental, a compreensão de Portugal e dos portugueses a partir das Luzes e da modernidade, através da chamada “história intelectual” – tendo como ponto de partida os paradigmas científico-naturais – numa perspectiva metodológica de convergência entre a história das ideias e a história e a sociologia das ciências.
Tem seis livros publicados, proferiu mais de duas centenas de conferências no país e no estrangeiro e publicou mais de uma centena de artigos em revistas da especialidade. Os seus trabalhos publicados podem distribuir-se por três áreas: (a) a Ilustração em Portugal, com especial incidência nos chamados “estrangeirados” (como Verney, Cunha Brochado, José Anastácio da Cunha, Martinho de Mendonça e Ribeiro Sanches) e na Academia Real de História Portuguesa; (b) a Filosofia em Portugal e a Cultura portuguesa (da “Geração de 70” à crise da II Guerra Mundial) com especial incidência nos “intelectuais”, no “ensaismo” português, na “Renascença Portuguesa”, no tradicionalismo integralista, nos seareiros e no neopositivismo lógico; (c) a ideologia do Estado Novo e seus próceres; (d) a recepção da Ideia da Europa em Portugal; (e) e a representação da Galiza na historiografia portuguesa. Actualmente, presta especial atenção às estruturas ou “dispositivos” intelectuais pró-naturalistas de longa duração na Cultura Portuguesa (das Luzes ao século XX). Tem sido, no âmbito das comemorações do centenário da implantação da República em Portugal, um dos divulgadores, em colóquios, das ideias e da cultura republicana.
As conferências do V Ciclo, com a entrada gratuita e a entrega de certificado de presença, aguarda a acreditação do Centro de Formação Científica para os professores das disciplinas de História, Filosofia e Sociologia.
             


quarta-feira, 11 de abril de 2012

jose casimiro da silva, bernardino machado, afonso costa, entre outros, em famalicão: memórias


Tudo leva a crer ( e qualquer informação en contrário agradecia) que os textos que aparecem publicados no jornal famalicense "Estrela da Manhã" (finais de 1962 e princípios de 1963) com o título "À Esquina do Caetano" e "À Esquina do Mesquita", o primeiro assinado com o pseudónimo Nihil e o segundo com Ego Sum, seja da mesma personalidade famalicense que se chamou José Casimiro da Silva (1901-1983), retratando a sociedade famalicense em várias fases da sua história. Publicista e jornalista, foi director, proprietário e editor do focado jornal, e, para além de vereador da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão na época do Estado Novo, Casimiro da Silva esteve na origem de algumas instituições famalicenses sociais famalicenses, passando pelos seus respectivos corpos dirigentes. Foi o fundador e o criador do Centro Gráfico de Famalicão; e em 1980 um grupo de amigos prestaram-lhe uma homenagem, a qual se realizou na Fundação Cupertino de Miranda, atribuindo-lhe então a Câmara Municipal de Famalicão a Medalha de Ouro de Reconhecimento. Da sua multiplicidade de títulos, salienta-se o "Elucidário Turístico do Concelho de Vila Nova de Famalicão e Roteiro do Minho" ou "O Orfeão Famalicense ao Longo de Três Gerações", focando neste último texto a República no seu início em Famalicão, não só num contexto político, como igualmente cultural. O texto que aqui reproduzo, para além de ser um texto de memórias, é um texto interessante, na medida em que salienta a problemática de Riba de Ave a Concelho (1914), entretanto resolvida, e, por outro lado, da visita a Famalicão, ao seu centro nevrálgico, por Bernardino Machado, para além de outras curiosidades. Indiscutivemente que dedico ao Dr. Manuel Sá Marques, com o meu abraço fraterno de amizade, estas linhas memoriais famalicenses, tendo como pano de fundo o seu avô Bernardino Machado. E, como eu, gostava das «paciências»!  A visita mencionada refere-se a 1916. Reproduzo igualmente a notícia que então foi publicada no jornal famalicense "Estrela do Minho".

 


Ego Sum [José Casimiro da Silva] - "À Esquina do Mesquita". In Estrela da Manhã. V. N. de Famalicão, Ano 2, n.º 105 (8 Abr. 1962), pp. 1, 5.


"Conheci o Dr. Bernardino Machado, era eu ainda menino de calção, quando aquele que viria a ser o supremo magistrado da Nação, como herdeiro universal de seu «mano» - o 2.º Barão de Joane - se veio instalar na Quinta de Rorigo, onde eu já era certo ao fim das tardes, logo que a Sr.ª D. Madalena Feio, no rés-do-chão da casa da D. Ermelinda, dava a aula por terminada. / Sobrinho da «governanta» e beneficiando da simpatia do Barão de Joane que me escondia sob a sua capa negra forrada a veludo de seda, era ali que eu fazia o meu recreio a brincar com os três enorme alãos e a conversar com a arara e o papagaio."


José Casimiro da Silva


"Pois numa tarde, chegou a Rorigo com sua esposa - a gentilíssima senhora D. Elzira Dantas Machado - as filhas e os filhos Domingos, Inácio, Narciso e Bento, os três últimos dos quais viriam a ser os meus grandes companheiros, o Dr. Bernardino Machado Luís Machado Guimarães. / A sua testa alta, os seus olhos vivíssimos e sempre sorridentes, o lábio superior coberto por aquele bigode farto e retorcido que se juntava depois à pera que se lhe cobria a parte inferior do queixo e que tanta distinção dava à sua figura insinuante; falibilidade do seu trato, onde as palavras pareciam ter a doçura do mel; o modo delicado como repreendia as nossas «irreverências» infantis; a paciência com que nos aturava e esclarecia e o ambiente de harmonia e de tranquilidade, onde as palavras tinham todas o mesmo delicado grau de intensidade, tudo isto me surgiu à memória..."




A Rua Adriano Pinto Basto, focada no texto que se transcreve, e podemos imaginar Bernardino Machado a passear por ela, com Afonso Costa, Urbano Rodrigues e Sousa Fernandes


"Foi durante o exílio [2.º 1927-1940] que mais privei com o Dr. Bernardino Machado e tive ensejo de admirar o seu espantoso poder de memória, o seu afecto pela família e o seu entranhado amor à Pátria! / Manuel Pinto de Sousa e eu, eramos os seus procuradores na região. / Visitei-o algumas vezes em La Guardia, no Hotel del Tecla, e em Vigo, no Hotel Central. / De uma dessas vezes uma dezena de casais famalicenses foi cumprimentá-lo, aproveitando o ensejo de uma excursão a Vigo: António Carvalho de Faria, Alcino Freitas, Costa Matos, Manuel José da Costa Moreira, Silvino Lima, Rogério Lemos, José Casimiro da Silva, Bráulio Freitas e Francisco da Silva Melo e individualmente João Valongo, Joaquim Mesquita e suas irmãs. / Recebeu com enorme alegria aqueles casais famalicenses que fizeram votos pelo seu próximo regresso. / Falou saudosamente da Pátria e terminou assim: / «Só o povo tem força para me arrancar deste exílio. Só ele é soberano, só ele manda. Quando ele quiser - quando vós quiserdes - eu regressarei à Pátria que de cada vez e à medida que estes longos dias decorrem, estremeço mais!...» / E estremecia!"



Casa de Rorigo, Calendário, Vila Nova de Famalicão

"Acompanhado por Afonso Costa a quem cicerenou pelas ruas desta vila, coadjuvado por Sousa Fernandes, Bernardino Machado, descendo a Rua Adriano, onde quer estava parado, quer para retribuir um cumprimento gentil, quer para ele próprio se dirigir às pessoas que conhecia, com aquela sua cortesia característica e «bomardeá-las» com perguntas de que elas próprias se espantavam: «Olha como o Senhor Presidente se recorda de meu pai!» / «Olha como ele não se rebaixa a falar p`ra gente!» / Afonso Costa, em frente ao muro do falecido Daniel Santos, que no ângulo da antiga Rua Municipal estava parado a fixar determinado objecto e ria com Sousa Fernandes e com o jornalista Urbano Rodrigues, director de O Mundo, quando o Dr. Bernardino Machado, terminados os cumprimentos, se aproximou, para esclarecer: / «Essa bota monumental é o ex-líbris de uma família inteiramente devotada ao trabalho, que tem por chefe o meu bom amigo Augusto Pinto." / E como se aparecesse à porta do estabelecimento ali recebeu os cumprimentos dessas duas eminentes figuras da República e uma palmada nas costas da parte de Sousa Fernandes que não desanimava de ver Augusto Pinto a engrossar as fileiras democráticas famalicenses, então em grande crescimento por causa de um triunfo famalicense no Senado da República, a célebre questão da integridade do nosso Concelho, ameaçado de desmembramento!"




A placa colocada na Casa de Rorigo no âmbito do Centenário das Comemorações da Implantação da República, em Vila Nova de Famalicão

"Nesta visita do Dr. Afonso Costa a Famalicão, o Dr. Bernardino Machado levou o seu hóspede e comitiva à Confeitaria Cardoso onde todos apreciaram o fabrico de pão-de-ló e das «paciências» daquele doceiro, que as não havia melhores - dizia o Dr. Bernardino Machado - em parte alguma! / A casa do Eduardo Cardoso, já pelo fabrico das suas saborosas «paciências», já pela amizade e apreço que tinha pelos donos, era ponto de passagem obrigatória para o Dr. Bernardino Machado."




Sousa Fernandes, o republicano famalicense histórico, senador e deputado às constituintes de 1911, o 1.º Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de V. N. de Famalicão, a qual tomnou posse em 8 de Outubro de 1910, que acompanhou Bernardino Machado e Afonso Costa, entre outros, no célebre passeio famalicense de 1916

·         “Presidente da República”. In Estrela do Minho. Ano 22, n.º 1093 (17 Set. 1916), p. 1.
Famalicão recebeu terça-feira, às 15 e meia horas, a honrosa e agradável surpresa da visita do ilustre Chefe do Estado, que vinha acompanhado pelo grande estadista sr. dr. Afonso Costa, presidente interino do ministério e ministro das Finanças, e do sr. dr. Augusto Soares, que tão brilhantemente tem desempenhado as funções de ministro dos Estrangeiros, do sr. dr. Germano Martins, ilustre deputado e director-geral do ministério da justiça, secretário-geral da presidência e dr. Tudela, secretário do sr. ministro das Finanças. / O Excelentíssimo presidente da República dispensando todas as horas inerentes ao seu alto cargo, veio inesperadamente visitar sua esposa, que está a descansar algum tempo na sua casa de Rorigo. / No dia da sua chegada, o chefe do Estado, conterrâneo ilustríssimo de que Famalicão muito se orgulha, depois de chegar a Rorigo, deu um passeio pela vila, com os seus companheiros de viagem, recolhendo pouco depois à sua residência, onde fez servir uma ligeira refeição aos seus hóspedes, para o que convidou mais algumas pessoas daqui, entre as quais estavam os srs. Álvaro de Castelões, Veiga e Cunha e quem estas linhas escreve. / Em seguida retiraram em comboio especial os srs. ministros das Finanças e Estrangeiros, acompanhados dos seus secretários e do sr. dr. Germano Martins. / Durante o resto do dia recebeu o Sr. Dr. Bernardino Machado várias visitas de pessoas da nossa terra e de Braga. / Quarta-Feira partiu o ilustre Senhor Presidente para Paredes de Coura, de onde regressou no dia seguinte, indo a Azurara visitar uma velha senhora, que é tia de sua Esposa. / Sexta-feira foi de manhã cedo ao Gerêz, de automóvel, onde foi visitar o sr. dr. António José de Almeida, presidente do governo, regressando a Rorigo, cerca das doze horas. / Às dezasseis horas dirigiu-se sua Excelência para a estação do caminho-de-ferro, acompanhado pelo sr. ministro da Marinha, Azevedo Coutinho, que tinha chegado algumas horas antes a fim de acompanhá-lo em nome do governo até Lisboa. / Na gare da estação era o Senhor Presidente da República aguardado por grande número de pessoas gradas da nossa terra, representantes das autoridades, corporações locais e por um piquete de bombeiros municipais, com a sua bandeira. / Quiseram assim os famalicenses cumprir o grato dever de prestar a sua homenagem ao conterrâneo eminente que é também o primeiro magistrado da nação portuguesa. / À partida do comboio, após os cumprimentos do estilo, foram dados muitos vivas à República, ao senhor presidente da República, ao exército e à Marinha com um viva a Famalicão. / E assim terminou a visita do Senhor Dr. Bernardino Machado à nossa terra, a qual só gratas e honrosas recordações nos deixou.

terça-feira, 10 de abril de 2012

camilo e a literatura e o romance





“Senhora! A higiene moral, depois de Broussais, tem feito progressos que demandam um compêndio novo, e uma diversa iniciativa no sistema de aplicá-los com aproveitamento. / O romance, Senhora, é a mais profícua das farmácias, porque neste laboratório douram-se as pílulas com maravilhosa limpeza. O romance, caldeado na foria onde Voltaire açacalou as armas com que feriu no coração o «ridículo» de V. Exª, naquela época, será, se me não engana o muito amor da humanidade, um sodorífero por meio do qual faremos transpirar as muitas fezes que V. Exª traz no sangue, e das quais se originam muitos miasmas de febre da pouca vergonha, para a qual não há quarentena possível, nem conselho de saúde, porventura o mais necessitado, na presente conjuntura, de ser esfregado com as baetas da zombaria.”

Camilo, Cenas da Foz, 1989