domingo, 26 de fevereiro de 2012

tomás da fonseca, famalicão e camilo

em 1912, tomás da fonseca andou por terras de famalicão. o "estrela do minho", de 15 de setembro de 1912, assim o noticia: "esteve há dias em famalicão o nosso velho amigo sr. tomás da fonseca, brilhante escritor, deputado e actual director das escolas normais de lisboa. / anda colhendo impressões pela província, que manda para o jornal «a montanha», do porto. " e a propósito do texto que publica de tomás da fonseca, que aqui se coloca, com o título "por vales e montanhas", tendo como pano de fundo famalicão e a casa-museu de camilo, acrescenta-se que, tal artigo, "é muito interessante, principalmente no que diz respeito a s. miguel de seide que, para vergonha nossa, há vinte anos se encontra ao abandono mais deprimente para a intelectualidade portuguesa." conclui-se nos seguintes termos: "felizmente que a nossa câmara vai iniciar o museu camiliano em seide, reconstituindo a casa do mestre, tal qual se faz lá fora, como a victor hugo ou michelet em frança, onde não falta até o próprio leito daquelas glórias da literatura mundial." deste apontamento histórico, realço, indiscutivelmente, pela coincidência, um outro, a notícia referente à biblioteca municipal, e que diz respeito à reunião de câmara de 7 de setembro que cria a mesma biblioteca. estamos a caminho das comemorações do seu centenário.


"os miseráveis" de victor hugo no animatógrafo avenida - famalicão (1912)





nos 150 anos de "os miseráveis", de victor hugo, nada como lembrar a passagem do filme, baseada na obra homónima de hugo, por terras de vila nova. fica-se é na dúvida de que filme poderá ter sido: ou o de j. stuart blackton de 1909, ou os dois de albert capellani, o primeiro de 1911 e um outro de 1913. o animatógrafo avenida, o sucessor do cynematographo pathé e o antecessor do olympia, foi inaugurado em 24 de novembro de 1912 na avenida barão de trovisqueira, sendo então os seus proprietários os srs. carvalho & irmão da boa reguladora no edifício da typographia minerva, e segundo notícia do jornal famalicense "estrela do minho" de 3 de novembro de 1912, com capacidade para mil espectadores!




no mesmo jornal, de 16 de fevereiro de 1913, anuncia-se da seguinte forma a vinda do respectivo filme: "no fim do próximo mês de março vai o animatógrafo exibir a fita de maior celebridade mundial, os miseráveis, obra que está traduzida em todas as línguas e que representa a maior coroa de glória do grande escritor francês que foi victor hugo. / a fita "os miseráveis" será por assinatura para as três sessões..." e no dia em que o filme foi exibido, a um domingo, em 30 de março de 1913, pela vila era "o assunto do dia, despertando grande entusiasmo o espectáculo que há noite há-de ser exbidido e para o qual, certamente, os lugares hão-de escassear." para além do "palpitante interesse", a empresa oferecia "magistralmente descontos". pelas notícias anteriores, relativamente a outros filmes que então o animatógrafo exibia, e com casa cheia, o que não deixa de ser impressionante, na exibição do filme "os miseráveis" também o mesmo deverá ter acontecido. coloco aqui a publicidade que o então jornal famalicense "estrela do minho" publicou a propósito do filme "os miseráveis".



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

o descanso semanal

hoje oferecemos aos leitores deste blog, e, em especial, ao dr. manuel sá marques, este texto de victor de sá sobre o descanso semanal. tem uma particularidade: dois famalicenses estiveram na origem da lei do descanso semanal. é o caso de rosa araújo e de bernardino machado: o primeiro comerciante e presidente da câmara municipal de lisboa, o segundo, já republicano, no apoio ao descanso semanal. selecciono algumas frases do texto de bernardino machado de 1904, precisamente com o título "o descanso semanal", uma ideia defendida nas campanhas eleitorais, relacionando tal ideia com o mito de prometeu, para a perfeição do humano, na unificação entre o espiritual e o corporal. bernardino machado proferiu esta conferência no teatro de santarém, na noite de 17 de julho de 1904, repetindo-a na póvoa de varzim no mesmo ano. encontra-se publicado no tomo I das obras de bernardino machado, com introdução do professor norberto ferreira da cunha, e editado pelo museu bernardino machado em 2011.


 

"Nenhuma causa mais justa do que o descanso semanal. Defendendo-o, as classes laboriosas defendem a sua vida, e não só a vida física, mas também a sua vida espiritual e, sobretudo, a sua vida moral."

"O descanso semanal aproveira não só a saúde do corpo, mas também a do espírito; queremo-lo no interesse do próprio trabalho, para se poder trabalhar mais e melhor. / Não há profissão nenhuma que ponha em jogo, em perfeito equilíbrio, desenvolvendo-as completamente, todas as nossas faculdades; todas as profissões mais ou menos as mutilam. E, se as faculdades feridas de abandono reagem quando pedem pela vida, sempre afinal acabam por se atrofiar."




"Que vida espritual levam as nossas classes trabalhadoras? Hão-de repetir incessantemente o mesmo trabalho, torturando, consumindo, mortificando não só o corpo, mas o espírito também. / É indispensável que o empregado do comércio, como todo o operário, tenha horas e dias feriados, em que possa ir ver o nosso mar, as nossas montanhas, os nossos campos e arvoredos, em que possa pegar num microscópio ou num telescópio para admirar as maravilhas do mundondos infinitamente pequenos ou dos infinitamente grandes, e, sobretudo, em que possa comunicar com as outras almas, frequentando uma aula, assistindo a uma conferência, lendo um livro, visitando os museus, indo a um teatro, a um concerto, etc. / São divertimentos? São exercícios espirituais igualmente necessários a todos."

"E, de todas as faculdades, a que sobretudo é necessário não deixar nunca atrofiar, é a liberdade, esta faculdade soberana que cria as artes, as indústrias e as ciências, isto é, toda a civilização."

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

domingo, 19 de fevereiro de 2012

cidadania e humanismo na maçonaria





um aspecto da sala de conferências do museu bernardino machado

“Cada época a sua Maçonaria”
“A Maçonaria está na vida e no mundo”
Fernando Lima
Mais de cem pessoas estiveram presentes no Museu Bernardino Machado no dia 17 de Fevereiro para a sessão inaugural do V Ciclo de Conferências dedicado à temática da “Maçonaria em Portugal: do século XVIII ao século XXI”, com a presença inicial do Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano, Fernando Lima, o qual proferiu a conferência “A Maçonaria: instituição de saber ou de poder?”




fernando lima e norberto ferreira da cunha, num momento de convívio inicial, antes da conferência



fernando lima com paulo cunha, vereador da cultura da câmara municipal de famalicão, três momentos antes do início da conferência


paulo cunha, vereador da cultura da câmara municipal de famalicão, no momento da abertura do v ciclo de conferências

Com a presença do Vereador da Cultura da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, Paulo Cunha, o qual, num primeiro momento, enalteceu o legado pensamento de Bernardino Machado, especificando o caso concreto da pedagogia, realçando nele um pensamento de vanguarda, num segundo momento evidencia as responsabilidades da Câmara Municipal na divulgação desse mérito emancipador; e, para além da exposição permanente que se encontra patente no Museu Bernardino Machado, com a publicação das obras e de iniciativas de outras temáticas, tal como a actividade do presente ciclo, o Museu é um espaço aberto e crítico e que está ao serviço de todos nós.




norberto ferreira da cunha, coordenador científico do museu bernardino machado, no momento da apresenção do conferencista


Por seu turno, Norberto Ferreira de Cunha, coordenador científico do Museu Bernardino Machado, para além de realçar o apoio incondicional da Câmara Municipal para com o Museu, mesmo em tempo de crise, já que o que está em causa é a divulgação das ideias e da cultura, e anunciando para o próximo mês a apresentação do II Tomo da Obra Política de Bernardino Machado, foca o respectivo Museu como sendo o lugar natural por excelência para a presença de Fernando Lima, já que Bernardino Machado foi Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano entre 1895 a 1899.



fernando lima, grão-mestre do grande oriente lusitano, a proferir a sua conferência

Fernando Lima, com a tese inicial de que a Maçonaria está na vida e no mundo, , parte da filosofia da existência, citando Albert Camus, estando em causa a problemática da felicidade, já que para Camus o não saber viver é um morrer de imediato. Com Camus, a vida surge como uma obra original, nas suas manifestações culturais, estando em causa uma ascese da alma. Neste sentido, num mundo a virar de paradigma, com uma crise da humanidade, surge com a Maçonaria uma espiritualidade laica com especificidades ocidentais ao lado de uma ética social (realçando a sua intervenção no serviço nacional de saúde). Assim sendo, e anunciando a Maçonaria na sua perspectiva histórica, filosófica e sociológica, anuncia Fernando Lima que a cada época a sua Maçonaria. Numa perspectiva histórica, deparamo-nos com uma Maçonaria operativa (herdeira dos construtores das catedrais), uma Maçonaria de espiritualidade esotérica (herança da razão iluminista), uma Maçonaria hermético-ocultista (com correntes filosóficas ligadas à gnose, estabelecendo que o conhecimento do divino é através da razão) e, finalmente, a Maçonaria humanista, na qual se insere o Grande Oriente Lusitano. Por seu turno, numa perspectiva filosófica, o que está em causa na Maçonaria é a libertação do ser, aqui salientando o processo de individuação ontológica para a formação de uma elite moral para formar o mundo. No plano sociológico, a Maçonaria aparece como uma instituição filantrópica, contendo em si uma dimensão prática, estabelecendo assuntos para discussão, tais como a justiça, o respeito, a paz, o civismo, os direitos humanos, etc. Acima de tudo, a Maçonaria pretende combater a ignorância, na difusão dos valores humanos. Nesta perspectiva, Fernando Lima focou o exemplo do Grão-Mestre Sebastião de Magalhães Lima e o seu pensamento de vanguarda, relativamente à teorização dos Estados Unidos da Europa, ou enquanto fundador da Liga dos Direitos Humanos, evidenciando a emancipação da Maçonaria no mundo.




Sendo a Maçonaria a mais velha instituição democrática do mundo, nas palavras de Fernando Lima, realça a ética da responsabilidade (porque não é maçon quem quer) da própria Maçonaria enquanto instituição estabelecida na sociedade. Postulando a ideia de fraternidade na diversidade, sendo isto que parece perturbar a sociedade contemporânea relativamente à Maçonaria, das ideias feitas perante a polémica recente em Portugal, Fernando Lima salientou o seguinte: a Maçonaria surge como algo obsoleto, muito dos melhores que existem em Portugal pertencem ou foram maçons (sendo isto que é difícil de aceitar), ou então a Maçonaria enquanto instituição iniciática (estando aqui patente mais um sentido de progressão na vida da pessoa para que esta melhore a sociedade, sendo a sua base uma espiritualidade laica para a busca da felicidade, para se lutar contra a injustiça, fortalecer as crenças, defender a natureza, olhar o outro com amor, etc.) Tal como na vida, em que tudo é ritual e simbólico na aceitação da vida de cada um, o mesmo o faz a Maçonaria. Paralelamente, foca a consciência livre do cidadão perante a cidadania, considerando a obrigatoriedade da declaração de interesses uma brecha numa sociedade democrática como a portuguesa. E, tal como qualquer instituição, a Maçonaria tem as suas reservas, não é secreta, foi, contudo, clandestina.
Terminou Fernando Lima a sua conferência referindo-se à Loja Perseverança de Coimbra, à qual Bernardino Machado se iniciou na Maçonaria, para que sejamos perseverantes para o futuro, porque o presente está muito perigoso.





uma vez mais, o público que honrou com a sua visita o museu bernardino machado