segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

tricentenário de rousseau


"... Rousseau é um selvático sentimental e explosivo, de paixão antimundana, torrentuosa, ensimesmada e declamatória, contrário não só às instituições políticas e à tirania teocrática de que se achava envolto... mas também às bases da estrutura social de todos os povos civilizados do mundo: alma de inspiração espiritualista e mística, e por isso alicerçando o procedimento moral em radicais afirmações do nosso ser intrínseco, num «instinto divino» da consciência humana, num espontâneo sentimento racional e expansivo que nos impele a querer bem às demais pessoas e que faz os indivíduos naturalmente bons, uma vez que o influxo das instituições sociais lhes não venha perverter a espontaneidade própria. "

António Sérgio

a maçonaria em famalicão

sábado, 28 de janeiro de 2012

júlio brandão e manuel laranjeira

Júlio Brandão - "Commigo". In Gazeta de Espinho. Espinho, Ano 12, n.º 582 (24 Mar. 1912), pp. 3-4.


Este livro, a não ser para os íntimos do autor, deve ter causado uma certa surpresa: a surpresa que nos trazem as obras dos artistas e poetas, que nos habituaramos a ver quase sempre como espíritos críticos. / Nos trabalhos de Manuel Laranjeira ressalta um espírito ávido e brilhantíssimo, que se compraz nas ventanias salutares das ideias, no choque por vezes contraditório das teorias, homem de ciência, e homem de arte, certamente (provam-no até os seus notáveis estudos críticos), mas que não nos deixava adivinhar aquele poeta, capaz de, em formas simples, e, por isso mesmo, , mais belas, cristalizar as suas emoções e os seus oensamentos revoltos. / Era um mar bravo, que dificilmente julgaríamos capaz de ficar límpido e profundo no cristal dos versos... / Pois ficou! Este livro Commigo é «um diálogo do poeta com a sua alma». Tanto melhor para Manuel Laranjeira. Os poetas são ainda, , na derrocada de tanta coisa bela, os enviados da Beleza eterna. No marulho sinistro da vida, são eles ainda os mergulhadores misteriosos, que vão encontrar, como num velho conto escandinavo, certa flor que ninguém via... E não são apenas os poetas entusiásticos e intensamente líricos; são também os negativistas, como Manuel Laranjeira. Cantar é ainda crer: pelo menos é crer em que vale a pena cantar. / Os seus versos são, decerto, dum pessimismo melancólico. Eles não vão pisar afinal, como os de Antero, na «mão de Deus, na sua mão direita». Assim, o último terceto do volume, que fecha um dos sonetos dignos do grandepoeta suicida, exclama:

«E não me assusta a morte! Só me assusta
Ter tdo tanta fé na vida injusta
... e não saber sequer pra que a vivi!"

Mas não! O poeta lutou e, portanto, amou e creu.

«Vida de luta é um credo
Rezado em actos...»

Diz o autor. Viveu-a para isso - como todos os que vão, pouco a pouco, no deserto enorme, deixando de ver miragens.

«E que pesadas que são
as asas que já perderam
A derradeira ilusão!»

De acordo; mas para as perder, viveu-as!... E é daí que vem a dor antiga e longa, que passa como um bater de grandes asas negras pelos seus versos e pela sua alma. / Entretantp, quem diz ao poeta que não podem transformar-se as suas quimeras? Quem poderá afirmar-lhe que na vida profunda das emoções e das ideias não nascerá outra ilusão que valha tanto como a verdade? / Aí está uma poesia a que nós chamaríamos filosófica, se o termo não estivesse absolutamente desacreditado e deturpado por alguns mistificadores insignificantes. A forma de Manuel Laranjeira não tem exuberâncias plásticas, opulência de ritmos, arrebatamentos peninsulares: é emotiva, lúcida, transparente. Como Antero, procura as linhas nobres e simples. E como esses versos são pessoais e evidentemente vividos, eles trazem um calor e um fulgor singular. A larga poesia de abertura, os Versos à Tarde, o Prefácio Lírico e Alguns Sonetos, entre outras, são poemas dum verdadeiro, dum original, dum admirável poeta. Desses versos - que pena que sejam tão poucos! - poderia dizer-se o que um grande pensador disse dos períodos de Montaigne: «Se os cortássemos, deitariam sangue». / É que não há outra receita para poemas verdadeiros: é preciso sofrer, é preciso amar - é preciso viver. Os versos de Manuel Laranjeira trazem as emoções das suas ideias, e muitas vezes o bater do seu coração. Commigo é um livro infelizmente pequeno, mas que não se esquece nunca.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

rocha peixoto no museu bernardino machado


No âmbito das comemorações do Primeiro Centenário da Morte de Rocha Peixoto (1909-2009), a Câmara Municipal da Póvoa de Varzim e a Biblioteca Municipal Rocha Peixoto, levaram a efeito uma série de actividades, entre a quais a “Exposição Documental sobre Rocha Peixoto”.
Constituída por 24 painéis, a exposição apresenta as principais facetas de Rocha Peixoto ao longo da sua vida profissional: as suas origens e a sua relação com a Póvoa de Varzim, de onde era natural; o seu trabalho como naturalista da Academia Politécnica do Porto; o bibliotecário da Biblioteca Pública Municipal do Porto; o conservador do Museu Municipal do Porto e o redactor da revista “Portugália”, o projecto editorial e científico que confirmaria Rocha Peixoto como um dos investigadores de reconhecido mérito no campo da etnografia nos meios culturais da época. Esta exposição vai estar patente no Museu Bernardino Machado entre 1 de Fevereiro até ao dia 30 de Março do corrente ano, sendo a entrada livre.
Nada como recordar, a este propósito, as relações de Rocha Peixoto com V. N. de Famalicão, que foram as mais profícuas com o meio intelectual da época. Assim sendo, realça-se, em primeiro lugar, com Camilo Castelo Branco (que este ano se comemora os 150 anos do “Amor de Perdição”), com o qual, numa fase inicial turbulenta e polémica, seria Camilo, mais tarde, o ídolo de Rocha Peixoto; com Alberto Sampaio (um dos colaboradores da revista “Portugália”); escreveu, Rocha Peixoto, uma série de artigos para a revista famalicense “Nova Alvorada” e manteve também relações de amizade com Júlio Brandão, igualmente, como ele, conservador do Museu Municipal do Porto. Aliás, Júlio Brandão, nas suas “Galerias de Sombras”, diz-nos que, por um lado, Rocha Peixoto não só pertence “ao número dos que caíram inesperadamente em plena febre de trabalho, já aureolados de glória – daquela glória que conquistara com um enorme talento a alumiar-lhe o estremo labor de mineiro à cata de filões de oiro”, como igualmente a vida de Rocha Peixoto “foi um exemplo magnífico de génio construtivo, numa época de demolição.”
Por seu turno, Artur Sá da Costa, em “A Tertúlia do Ave”, salienta não só as relações de amizade, como também as intelectuais, entre Alberto Sampaio e Rocha Peixoto, ambos colaborando mutuamente nos seus respectivos estudos. É o caso de Rocha Peixoto, em correspondência enviada para Alberto Sampaio (que se encontram no Arquivo Histórico em V. N. de Famalicão), prestando ao amigo informações toponómicas sobre a Póvoa de Varzim, nomeadamente A Ver-o-Mar.
Sobre Rocha Peixoto (1866-1909), etnógrafo, arqueólogo e bibliotecário, nada como uma viagem ao site http://www.cm-pvarzim.pt/biblioteca/site_rocha_peixoto no qual se visualizam imensos conteúdos digitalizados, desde a bibliografia activa e passiva, passando pela biblioteca particular do ilustre etnógrafo da Póvoa de Varzim.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

a república velha

"Cronologicamente, a investigação que se propõe é delimitada por dois acontecimentos extremos, o assalto a Monsanto, de 22 a 24 de Janeiro de 1919, e o golpe militar de 28 de Maio de 1926. A coerência interna do período chamado de "Nova República Velha" é dada pelo regresso do Partido Republicano Português (PRP) ao lugar dominante no poder, a partir do qual manteve a hegemonia sobre o sistema político da Primeira República, recriando esse traço típico do regime instaurado em 1910. Sob esta aparência de continuidade acumulavam-se, no entanto, as experiências políticas do primeiro período do regime e do interregno ditatorial sidonista, em parte assimiladas pelo PRP, a partir de 1919, sob a nova liderança de António Maria da Silva."

Ana Catarina Pinto

I - A problemática da queda da Primeira República portuguesa na historiografia. O estado da questão
II - A República do pós-guerra e os conflitos da modernidade
III - Estudo exploratório


segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

IV filo-café

segurança online



Neto de Tito Augusto de Morais (1880-1963), militar e republicano, o qual desempenhou um papel marcante nos dias 4 e 5 de Outubro de 1910 para a implantação da República em Portugal na margem do rio Tejo, não só na tomada dos marinheiros em Alcântara, no assalto aos paióis, como igualmente no comando do navio São Rafael, que bombardeou o Palácio das Necessidades, considerou o avô como um dos fundadores da República ao lado de Bernardino Machado. Foi assim que Tito de Morais, autor do projecto miudossegurosnanet, abriu a sessão, dizendo que, para além do prazer que tinha em estar no Museu Bernardino Machado, não vinha falar propriamente da República, mas das redes sociais e da segurança na internet. Se, num primeiro momento, salientou as quatro propriedades que desestabilizam as relações online (caso da persistencia, replicabilidade, escalibilidade e pesquisabilidade), as quais se interligam, têm como consequência prática um conjunto de três dinâmicas, a saber, as audiências invisíveis, os contextos colapsados e a desfocagem entre aquilo que é público e privado, dinâmicas com as quais nos defrontamos na rede. Com exemplos práticos e fílmicos ao longo da sessão, Tito de Morais alguns conselhos a reter nas páginas sociais, sendo o caso paradigmático o facebook; não nos expormos demasiado (o facebook não é um muro de lamentações), reconfiguração da segurança, categorização das amizades em para além de ser um meio de aproximação das pessoas, promove a aproximação familiar e, na relação pais/filhos, promove um reconhecimento acompanhado.
No debate, e num contexto pedagógico, salientou-se a contradição existente entre a não autorização da publicação de fotografias dos adolescentes nos boletins escolares por parte dos pais e aquilo que os próprios adolescentes publicam no facebook. De qualquer maneira, Tito de Morais aconselhou aos professores presentes na sessão, que solicitassem sempre a autorização para a publicação das fotografias, para evitar confusões.
Não é a primeira vez que Tito de Morais vem a Famalicão, já que através de um projecto da PSP, financiado pelo Município, falou de segurança na internet nas escolas do 1.º ciclo no concelho famalicense.