domingo, 15 de janeiro de 2012

o "amor de perdição" e os seus 150 anos




FENOMENOLOGIA DO AMOR

"Paixões, que as leve o Diabo, e mais quem com elas engorda. Por causa de uma mulher, ainda que ela seja filha do rei, não se há-de um homem botar a perder. Mulheres há tantas como a praga, e são como as rãs do charco, que mergulha uma, e aparecem quatro à tona de água."

"- Que tinha morrido de paixão e vergonha, talvez! - exclamou uma leitora sensível.
- Não, minha senhora; o estudante continuava nessea no a frequentar a Universidade; e, como tinha já vasta instrução em Patologia, poupou-se à morte da vergonha, que é uma morte inventada pelo visconde de Almeida Garrett no Frei Luís de Sousa, e à morte da paixão, que é outra morte inventada pelos namorados nas cartas despeitosas, e que não pega nos maridos a quem o século dotou de uns longes de filosofia, filosofia grega e romana, porque bem sabem que os filósofos da Antiguidade davam por mimo às mulheres aos seus amigos, quando os seus amigos por favor não lhas tiravam. E esta filosofia hoje então..."

Camilo, Amor de Perdição

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

os 150 anos do "amor de perdição"



FENOMENOLOGIA DO AMOR

"O que é o coração, o coração dos dezoito anos, o coração sem remorsos, o espírito anelante de glórias, ao cabo de dezoito meses de estagnação da vida? / O coração é a víscera, ferida de paralisia, a primeira que falece sufocada pelas rebeliões da alma que se identifica à natureza, e a quer, e se devora na ânsia dela, e se estorce nas agonias da amputação, para as quais a saudade da ventura extinta é um cautério em brasa; e o amor, que leva ao abismo pelo caminho da acanhada felicidade, não é sequer um refrigério."

Camilo, Amor de Perdição

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

a maçonaria no museu bernardino machado

No âmbito das actividades do Museu Bernardino Machado para o corrente ano, está integrado o V Ciclo de Conferências, que abordará a temática “A Maçonaria em Portugal: do século XVIII ao século XXI”. Para além da apresentação do II e do III tomo da “Obra Política” de Bernardino Machado, os “Encontros de Outono” para 23 e 24 de Novembro (subordinado à temática “A Agricultura em Portugal: do século XIX ao século XXI”), a exposição temporária (a qual será inaugurada, em princípio, no dia do município, 28 de Setembro), tendo como tema “Bernardino Machado, Pedagogo”, numa homenagem ao professor e ao lente catedrático da Universidade de Coimbra,  passando pelas actividades pedagógicas (“Famílias no Museu”  e os ateliers “Queres saber como…”), o Museu Bernardino Machado contará com a presença dos mais reputados investigadores e historiadores de Portugal no “V Ciclo de Conferências”, o qual vai abordar a “Maçonaria em Portugal”.
Das presenças já confirmadas, contam-se, pelo menos, Fernando Lima (Grão-Mestre da Maçonaria-Grande Oriente Lusitano, GOLU), o qual vai abrir o Ciclo em 17 de Fevereiro com a conferência “A Maçonaria: instituição de saber ou de poder?”, ou a de António Reis (Universidade Nova de Lisboa e Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano – Maçonaria Portuguesa), que nos irá falar sobre “A Maçonaria Hoje”. Faltando ainda confirmar a presença de Fernando Catroga (da Universidade de Coimbra), assim como a de Arnaldo Pinho (da Universidade Católica Portuguesa, do Porto), que falará sobre “A Maçonaria e a Igreja Católica”, confirmam-se as presenças de Fernando Dias (Universidade Nova de Lisboa) com a conferência “Organização e Funcionamento: ritos, símbolos e graus”, de Norberto Cunha (coordenador científico do Museu Bernardino Machado e professor aposentado da Universidade do Minho), que nos irá falar sobre “Maçonaria nas Luzes, em Portugal” e de António Lopes, que irá abordar a temática da Maçonaria em Portugal no século XIX, teremos também a presença de António Ventura com a conferência "A Maçonaria na I República e no Estado Novo" (publicou no ano passado "Os Constituintes de 1911 e a Maçonaria").

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

a revista "ler" e os seus 25 anos


a revista ler está de parabéns! das revistas literárias que mais aprecio em portugal, uma delas é, incontestavelmente, a revistaler, da qual, se não tenho todos os números, pelo menos desde o primeiro que pulula pela estante da minha biblioteca,na bancada da literatura, ao lado do "jornal de letras" ou do letras & letras, já findo, primeiro jornal, depois revista. se a revista "ler", na sua fase inicial, tentou uma legitimação identitáriada sua prima francesa "magazine littéraire", devido às configurações temáticas entre a filosofia e a literatura, mantém-se na forma que hoje conhecemos. se alguns colaboradores se desvirtuam face à qualidade da maioria, estes pela originalidade crítica, a revista ainda consegue realizar um jornalismo cultural independente e de qualidade. a revista, que passou ao longo dos anos pelos mais variados aspectos gráficos, alguns números com grande originalidade estética, no seu primeiro número dá destaque a lídia jorge e contém dois dossiers: o primeiro, é dedicado à literatura que veio da urss, sendo o segundo dedicado à guerra civil de espanha. realça, logo no início, o falecimento de marguerite yourcenar, a autora de obra ao negro, publica o texto de eduardo lourenço "a espanha e nós", elabora um inquérito com o título "o que lêem eles quando não lêem" ( e aqui temos mário de carvalho, josé cardoso pirese fernando dacosta), dá destaque a karem blixen e entrevista agustina bessa-luís a propósito do seu novo romance e que se chama "prazer e glória". finalmente,no tema dos livros de 1988 a revista realça saramago no texto "the saramago story". se 1987 é o ano do aparecimento em portugal da rede de leitura pública, a revista "ler" é filha desta mesma rede, antónio mega ferreira, o seu primeiro director, depois francisco josé viegas, e agora joão pombeiro, salienta que, para além da revista ser um "terreno da informação sobre a vida do livro em portugal", a mesma que seja também um lugar de informação, de discussão e de crítica. pois que venham mais 25 anos da revista "ler".

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

nos 150 anos do amor de perdição joão arroio

se o ano de 1907 ficou marcado politicamente pela greve académica da universidade de coimbra (arrastando-se ao lomgo do ano pelos variados ensinos então existentes), assim como pela demissão de bernardino machado enquanto lente catedrático da mesma universidade, colocando-se ao lado dos estudantes, e da homenagem nacional que lhe foi conferida em julho, o que marcaria o acontecimento cultural seria, incontestavelmente, a ópera ou drama lírico de joão arroio "amor de perdição". a "ilustração portuguesa" realizou no número 58 de 1 de abril uma ampla reportagem textual e fotográfica alusiva ao momento. aqui reproduzo o acontecimento cultural de 1907 da mesma revista, retirado da hemeroteca digital de lisboa.


domingo, 8 de janeiro de 2012

iconografia republicana


do prefácio de mário soares, tomamos conhecimento que o espólio de antónio pedro vicente foi adquirido pela fundação a que preside "valorizando assim o seu enorme património democrático, constituído por variados espólios de grandes figuras republicanas: como afonso costa, bernardino machado, manuel teixeira gomes", entre outros. este livro, que agora aqui se apresenta, é, de facto, ao lado de outras iniciativas no àmbito das comemorações da implantação da república em portugal (2010), um documento ímpar pela importância iconográfica que os republicanos imprimiram na doutrinação imagética da própria república. se alguma da iconografia já a conhecia (através do espólio do dr. manuel sá marques que, então, doou ao museu bernardino machado), ou ainda outra pela imprensa, outra tanta era desconhecida, salientando-se o texto de pedro vicente para a compreensão da sua própria colecção, numa perspectiva histórica.

Alfredo Caldeira - "Um Olhar sobre a República"
Henrique Cayatte - "O Ar do Tempo"
António Pedro Vicente - "Enfim, a República!

A COLECÇÃO
1. 5 de Outubro
2. Bustos
3. Bandeira Nacional
4. Dirigentes Republicanos
5. Propaganda (prpaganda monárquica, república e republicanismo, a república e as oposições, estado novo, oposição democrática).
6. I Guerra Mundial
7. Sátira
8. Numismática e Medalhística
9. Filatelia

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

miguel de unamuno e o amor de perdição


Miguel de Unamuno, o célebre pensador espanhol e Reitor da Universidade de Salamanca, autor de livros como "A Agonia do Cristianismo" ou "Do Sentimento Trágico da Vida", evocou várias vezes Camilo e a sua obra "Amor de Perdição", principalmente em "Por Terras de Portugal e de Espanha". Nas viagens e nas passagens de férias por Portugal, com Camilo debaixo do braço, salva-se a expressão, foi, talvez, um dos melhores intérpretes da alma portuguesa, através da cultura e da literatura. Por várias vezes nos fala de Camilo; e vem a propósito, já que estamos nos 150 anos da publicação do "Amor de Perdição" salientar a perspectiva de Unamuno, o qual, no texto "A Literatura Portuguesa Contemporânea", ao pretender realçar uma união ibérica espiritual, ou um iberismo cultural, a propósito de uma das obras mais representativas de Camilo. Diz-nos Unamuno: "Ao falar de Camilo Castelo Branco, dizia-me uma vez Guerra Junqueiro que Camilo, aquela alma tormentosa e apaixonada, foi mais espanhol que português, que às vezes há nele o fúnebre quevediano. E a mim, com efeito, surpreende-me como o seu Amor de Perdição não se tornou até agora popular em Espanha - suspeito que terá sido traduzido quando em 1861 se publicou -, pois parece-me a novela de paixão amorosa mais intensa e mais profunda que se escreveu na Península e um dos poucos livros representativos da nossa comum alma ibérica." E já agora, a propósito da edição do "Amor de Perdição", Alexandre Cabral, no seu monumental e mais que famoso "Dicionário" camiliano, no verbete que corresponde ao título do livro, informa-nos que "escrito na Cadeia da Relação do Porto, em 1861, quando Camilo e Ana Plácido aguardavam julgamento, foi editado no princípio do ano imediato pela Livraria Moré, sendo certo, porém, que em 1-1-1862 a Revolução de Setembro (n.º 5897) dá-o como já estando em circulação"; contudo "nesse caso, a edição seria de 1861, ainda que todos os especialistas a considerem de 1862, que é a data impressa no rosto"). Independentemente da questão do ano editorial da célebre novela camiliana, nada melhor do que ler Camilo e interpretá-lo textualmente para novos desvendamentos de mundos literários e criativos. Desta forma, aqui fica um incentivo para ler Camilo em qualquer sítio deste mundo: no texto que dedica a Braga, Miguel de Unamuno, que entretanto já se tinha deliciado a ler A Doida do Candal "do portuguesíssimo romancista Camilo Castelo Branco", informa-nos que continuou a ler Camilo no comboio entre Braga e Porto; e que, na estação de Campanhã, enquanto esperava por um outro que o levaria até Espinho, para conhecer Manuel Laranjeira, conta-nos que "ali, num canto, sob uma luz frouxa, devorava as páginas de A Engeitada! Este Camilo!..." Amanhã se acrescentará algo mais às reticências unamunianas.