domingo, 8 de janeiro de 2012

iconografia republicana


do prefácio de mário soares, tomamos conhecimento que o espólio de antónio pedro vicente foi adquirido pela fundação a que preside "valorizando assim o seu enorme património democrático, constituído por variados espólios de grandes figuras republicanas: como afonso costa, bernardino machado, manuel teixeira gomes", entre outros. este livro, que agora aqui se apresenta, é, de facto, ao lado de outras iniciativas no àmbito das comemorações da implantação da república em portugal (2010), um documento ímpar pela importância iconográfica que os republicanos imprimiram na doutrinação imagética da própria república. se alguma da iconografia já a conhecia (através do espólio do dr. manuel sá marques que, então, doou ao museu bernardino machado), ou ainda outra pela imprensa, outra tanta era desconhecida, salientando-se o texto de pedro vicente para a compreensão da sua própria colecção, numa perspectiva histórica.

Alfredo Caldeira - "Um Olhar sobre a República"
Henrique Cayatte - "O Ar do Tempo"
António Pedro Vicente - "Enfim, a República!

A COLECÇÃO
1. 5 de Outubro
2. Bustos
3. Bandeira Nacional
4. Dirigentes Republicanos
5. Propaganda (prpaganda monárquica, república e republicanismo, a república e as oposições, estado novo, oposição democrática).
6. I Guerra Mundial
7. Sátira
8. Numismática e Medalhística
9. Filatelia

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

miguel de unamuno e o amor de perdição


Miguel de Unamuno, o célebre pensador espanhol e Reitor da Universidade de Salamanca, autor de livros como "A Agonia do Cristianismo" ou "Do Sentimento Trágico da Vida", evocou várias vezes Camilo e a sua obra "Amor de Perdição", principalmente em "Por Terras de Portugal e de Espanha". Nas viagens e nas passagens de férias por Portugal, com Camilo debaixo do braço, salva-se a expressão, foi, talvez, um dos melhores intérpretes da alma portuguesa, através da cultura e da literatura. Por várias vezes nos fala de Camilo; e vem a propósito, já que estamos nos 150 anos da publicação do "Amor de Perdição" salientar a perspectiva de Unamuno, o qual, no texto "A Literatura Portuguesa Contemporânea", ao pretender realçar uma união ibérica espiritual, ou um iberismo cultural, a propósito de uma das obras mais representativas de Camilo. Diz-nos Unamuno: "Ao falar de Camilo Castelo Branco, dizia-me uma vez Guerra Junqueiro que Camilo, aquela alma tormentosa e apaixonada, foi mais espanhol que português, que às vezes há nele o fúnebre quevediano. E a mim, com efeito, surpreende-me como o seu Amor de Perdição não se tornou até agora popular em Espanha - suspeito que terá sido traduzido quando em 1861 se publicou -, pois parece-me a novela de paixão amorosa mais intensa e mais profunda que se escreveu na Península e um dos poucos livros representativos da nossa comum alma ibérica." E já agora, a propósito da edição do "Amor de Perdição", Alexandre Cabral, no seu monumental e mais que famoso "Dicionário" camiliano, no verbete que corresponde ao título do livro, informa-nos que "escrito na Cadeia da Relação do Porto, em 1861, quando Camilo e Ana Plácido aguardavam julgamento, foi editado no princípio do ano imediato pela Livraria Moré, sendo certo, porém, que em 1-1-1862 a Revolução de Setembro (n.º 5897) dá-o como já estando em circulação"; contudo "nesse caso, a edição seria de 1861, ainda que todos os especialistas a considerem de 1862, que é a data impressa no rosto"). Independentemente da questão do ano editorial da célebre novela camiliana, nada melhor do que ler Camilo e interpretá-lo textualmente para novos desvendamentos de mundos literários e criativos. Desta forma, aqui fica um incentivo para ler Camilo em qualquer sítio deste mundo: no texto que dedica a Braga, Miguel de Unamuno, que entretanto já se tinha deliciado a ler A Doida do Candal "do portuguesíssimo romancista Camilo Castelo Branco", informa-nos que continuou a ler Camilo no comboio entre Braga e Porto; e que, na estação de Campanhã, enquanto esperava por um outro que o levaria até Espinho, para conhecer Manuel Laranjeira, conta-nos que "ali, num canto, sob uma luz frouxa, devorava as páginas de A Engeitada! Este Camilo!..." Amanhã se acrescentará algo mais às reticências unamunianas.

manuel laranjeira e o amor







sábado, 31 de dezembro de 2011

rousseau, camilo e manuel laranjeira


para o próximo ano temos três prendas fantásticas: o tricentenário de jean-jacques rousseau, os 150 anos da publicação do "amor de perdição" e o centenário de falecimento de manuel laranjeira. entre ambos, podemos realizar leituras interdisciplinares, rousseau com camilo e manuel de laranjeira com camilo. a seu tempo daremos aqui notícia dessas mesmas relações. para já, ficam aqui alguns breves apontamentos. um ano de boas leituras, é o que se deseja.


“Gregório, com o papelinho das perguntas e requisições na mão, lá perguntando e pedindo; porém, o mestre olvidara-se de adivinhar as respostas, e escrever ao lado a tradução.
Não obstante, bem dizia o capitalista que com dinheiro, e mesmo sem boca, se vai a Roma. Como levava carta dum ex-ministro da sua intimidade para o nosso ministro em França, foi-lhe logo dado um intérprete, que, sobre lhe aplanar as dificuldades de se fazer entendido, o forneceu de provisão de termos franceses bastantes para dar uma volta à roda do Globo, levando dinheiro, que é indisputavelmente a língua universal.
Com uma carta que levou de Paris para Genebra, conseguiu Gregório saber de pronto onde morava Augusto, e não se deteve na cidade de J. Jacques Rousseau, mesmo porque o nosso viajante, quando lhe indicaram em mau espanhol a casa do filósofo, voltou-se para a senhora D. Rosa, e disse:
- Que nos importa a nós saber onde morou o homem?
- Deus tenha a sua alma no Céu – disse D. Rosa –, se ele fez por isso.
O cicerone, que não entendia a língua, inferiu do aspecto contemplativo de D. Rosa que a casa de Rousseau impressionara vivamente os portugueses. (Não se agravem os meus patrícios da carta de naturalidade que dou ao senhor Gregório. Se tivéssemos vinte como aquele, a nossa civilização material estaria num pé muito mais adiantado. Saibam que a ele se deve a estrada que liga Valongo ao Porto, e a conservação do ministério que mais viação pública fomentou.)
O guia dos nossos amigos, quando chegou ao cais, que, a pequena distância de Genebra, corta o lago, formando uma enseada para os barcos, entusiasmou-se quanto ao seu ofício de indicador lhe impunha, e chamou a atenção dos viajantes para o majestoso espectáculo, que os rodeava. Mostrou-lhes as serras boleadas do Monte Branco com o seu diadema de gelo. À esquerda, apontou-lhes a cordilheira de Jura, cuja cor pardacenta contrasta com o alvor das serras alpinas. À beira do lago, indicou-lhes os centenares de povoações que as águas espelham, as águas dum formoso anil, escamadas de cintilantes safiras quando a lufada da brisa lhes encrespa a superfície. Entre as povoações avultavam Vila Nova, a cidade de Lausana.
Quis o condutor que os viajantes entrassem na casa que habitava Stael, quando o desafecto de Napoleão a levou a conspirar em terra estranha, mas formosa terra escolhera aquela varonil alma para lutar, soberana do espírito contra o soberano da força!
Estas e outras coisas dizia o francês aos nossos viajantes; Gregório, porém, umas não lhas entendia, outras achava-as extremamente secantes.
Enquanto a D. Rosa, essa, de vez em quando, cortava a veemência noticiosa do francês, para lhe perguntar onde era a casinha de Augusto.
Respondia-lhe o oficioso guia que deviam ver o castelo de Ferney, onde Voltaire habitava, e lá veriam o leito, as cadeiras, a mesa, tudo, no quarto em que Voltaire dormia, e na mesma disposição em que o deixara o eminente reformador do mundo. Não esqueceu ao entusiasta do filósofo de Ferney aguçar o apetite boto dos viajantes, dizendo-lhes que lá veriam também um cinerário de mármore com seu epitáfio, destinado a entesourar o coração de Voltaire.
O senhor Gregório, já impaciente, voltou-se para a consorte, e disse a meia-voz:
- Já viste uma coisa assim?
- O homem tem demónio a falar nele. Deus me perdoe! – disse a senhora D. Rosa.”

Camilo, Coisas Espantosas


"A verdade é algumas vezes o escolho de um romance. / Na vida real, recebêmo-la como ela sai dos encontrados casos, ou da lógica implacável das coisas; mas na novela, custa-nos a sofrer que o autor, se inventa, não invente melhor; e, se copia, não minta por amor da arte. / Um romance, que estriba na verdade o seu merecimento, é frio, é impertinente, é uma coisa que não sacode os nervos, nem tira a gente, sequer uma temporada, enquanto ele nos lembra, deste jogo de nora, cujos alcatruzes somos, uns a subir, outros a descer, movidos pela manivela do egoísmo. / A verdade! Se ela é feia, para que oferecê-la em painéis ao público!? / A verdade do coração humano! Se o coração humano tem filamentos de ferro, que o prendem ao barro donde saíu, ou pesam nele e o submergem no charco da culpa primitiva, para que é emergi-lo, retratá-lo, e pô-lo à venda!? / Os reparos são de quem tem o juízo no seu lugar; mas, pois que eu perdi o meu a estudar a verdade, já agora a desforra que tenho é pintá-la como ela é feia e repugnante. / A desgraça afervora ou quebranta o amor? / Isto é que eu submeto à decisão do leitor inteligente. Factos e não teses é o que eu trago para aqui. O pintor retrata uns olhos, e não explica as funções ópticas do aparelho visual."

Camilo, Amor de Perdição


"Dir-se-ia que Camilo na sua obra, mais do que a ficção da vida, pretendia realizar a própria vida."

"... porque ele possuía o segredo divino do riso imortal e das lágrimas imortais, porque ele sabia, como ninguém, rir tragicamente, venenosamente, a soluçar tragicamente, contagiosamente, é que nenhum escritor em Portugal é tão lido, tão amado, e tão odiado. Na sua obra não há apenas a bebida confortante; há também o veneno doloroso; há o choro que enternece e alevanta, e o riso que envenena."

Manuel Laranjeira, "Camilo Castelo Branco", Prosas Perdidas

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

baudelaire - de quem gostas mais?

com a cabeça na lua e os pés de fora

O Livro dos Saberes Práticos


O Estrangeiro

- De quem gostas mais, diz lá, homem enigmático? de teu pai, de tua mãe, de tua irmã, ou de teu irmão?
- Não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.
- Dos teus amigos?
- Eis uma expressão cujo sentido até hoje ignorei.
- Da tua pátria?
- Não sei a latitude em que está situada.
- Da beleza?
- Amá-la-ia de boa vontade, divina e imortal.
- Do oiro?
- Odei-o tanto como vós a Deus.
- Então que amas tu, singular estrangeiro?
- Amo as nuvens... as nuvens que passam... lá longe... as maravilhosas nuvens!

dos dias

dos dias e das noites, assim pensando e sentindo-te

O Livro dos Saberes Práticos

para a cândida



TRABALHOS
PRIMEIRO EXERCÍCIO LITERÁRIO

“Se o quotidiano lhe parecer pobre não o acuse: acuse-se a si próprio de não ser bastante poeta para conseguir apropriar-se das suas riquezas.”

Rainer Maria Rilke, Cartas a um Jovem Poeta

[Redescreve-se? O mundo se redescreve. Melhor, o mundo nasce. Dedicado, na época, este texto, a  Charles Baudelaire, o poeta da cidade contemporânea. Leitura de “O Spleen de Paris”. Escrevia, então, mais abaixo da dedicatória: “os deuses agora nos escutam, no silêncio infinito do real”. Mais citações. Duas. Jorge Luís Borges. i) “A biblioteca é uma esfera cujo centro cabral é qualquer hexágono, cuja circunferência é inacessível.” ii) “Suspeito de que a espécie humana – a única – está para se extinguir e que a Biblioteca permanecerá: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta.” Das “Ficções”, daquele texto fantástico “A Biblioteca de Babel”. Começava então assim o texto que se chamava “A Cidade dos Pássaros”. Hoje, trabalhos. Subtítulo: primeiro exercício literário. Pode haver modificações, redescrições. Nós nos redescrevemos.] Já o afirmámos várias vezes, como tantos outros, provavelmente: o edifício, um dia destes, cai de monotonia. O que o sustêm são [as] milhares e milhares, infinitas palavras que comporta. As colunas que sustentam o edifício, interiormente e exteriormente, não sustentarão a educação e as artes, nem farão protecção à protecção e as figuras irão desaparecer lentamente no espaço, na imensidão serena do abraço eterno, nem sustentarão o ser e o universo fictício, a busca espiritual cessará e os opostos vencerão todos os esforços de conjugação e de união para a ventura do infinito [no real]. As palavras ficarão intactas porque só elas sabem o segredo da conservação, e assim a  tradição da escrita manter-se-á, na busca serena de toda a verdade possível, como de um ciclo se tratasse. Às vezes o edifício torna-se cansado em si mesmo, numa monotonia errante e contagiosa, numa busca constante de algo. [Vive-se amorosamente]. [Assim como se diz em "O Livro dos Saberes Práticos", que cito, "dos dias e das noites, assim pensando e sentindo-te"].