domingo, 9 de outubro de 2011

carlos malheiro dias


Daquele que foi, e é, escritor-jornalista, jornalista-historiador, contista e romancista, lemos isto: "O patriotismo de hoje não é o patriotismo de ontem e não pode ser o patriotismo de amanhã." (Carlos Malheiro Dias, 1912)



INTRODUÇÃO
Mário Mesquita - A vocação do jornalista em Carlos Malheiro Dias

I
O CICLORAMA
Cartas de Lisboa
Ciclorama nortenho
Henrique Paiva Couceiro

II
O CRÍTICO
Das atribulações de um crítico
Da Monarquia à República
O espiritualismo e a guerra mundial
Rumo à Terra de Santa Cruz

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

bernardino machado, cidadão exemplar


para o dr. manuel sá marques, com um abraço fraterno de amizade



Resumo da intervenção do Prof. Dr. Norberto Cunha, no dia 5 de Outubro de 2011, no Museu Bernardino Machado, na apresentação do catálogo da exposição “Bernardino Machado e a I República” e no âmbito do enceramento das comemorações das I República em Vila Nova de Famalicão.




O Prof. Norberto Cunha, coordenador científico do Museu Bernardino Machado, agradeceu ao Vereador, Dr. Paulo Cunha, e ao Presidente da Câmara Municipal de V. N. de Famalicão, Arq. Armindo Costa, o que ambos têm feito pelo Museu e o empenho que puseram para que as actividades, não só no passado, como agora, para que as comemorações fossem bem sucedidas, apesar do Museu ser um Museu paleográfico, não sendo fácil sustentá-lo perante a opinião pública, mantendo a continuidade e a benemerência, admitindo que vale a pena fazê-lo, porque estamos perante um cidadão exemplar, não se tratando de nenhum apostolado. Cidadão exemplar, porque a memória só será viva quando se torna presente e quando a vivemos no presente e para ser prospectiva, em direcção ao futuro e, nesta medida, a memória revivida não é um tempo perdido, mas um tempo a recordar para as encruzilhadas da vida.


O Prof. Dr. Norberto Cunha no momento da sua intervenção

Bernardino Machado tinha da política uma concepção interessante e que é útil recuperar: a política não é uma religião, um dogma ou um conjunto de dogmas, sendo mais um ponto de partida do que um ponto de chegada, de cariz experimental, sendo o critério a supremacia do altruísmo sobre o egoísmo. Bernardino Machado, para o Prof. Norberto Cunha, não tinha inimigos políticos, tinha adversários políticos, não confundindo a política com os homens, na medida em que a política é uma actividade nobre. De uma enorme tolerância política, daí o seu apoio aos adesivos, ele que também o foi, sendo um liberal, tendo reservas então ao republicanismo emergente, pretendia a liberalização da Monarquia, evidenciando a sua independência de espírito perante qualquer compromisso político, tendo sempre uma atitude crítica, não de subordinação, mas pretendia uma relação entre iguais. Bernardino Machado foi sempre assim, tendo ao longo da sua actividade cívica e de homem público alguns dissabores. A cidadania passava pela autonomia moral e pelas livres ideias dos cidadãos. Esta atitude crítica, que era construtiva, conduzia à tolerância, à criatividade. Considerava que as pessoas deveriam ser eleitas e não nomeadas, defendendo sempre o princípio de eleição pela competência, e daqui o seu interesse pela educação, não uma educação passiva ou de memória, mas uma educação orientada para a prática; e se queremos mudar o País, temos que ir para uma educação prática, reformulando o ensino técnico. A par disto, Bernardino Machado tem uma preocupação pelo ensino elementar (as primeiras letras) e fora das instituições: aqui temos as universidades livres, estando os cursos vocacionados para a profissionalização, fundando igualmente a Academia dos Estudos Livres, os cursos universitários nocturnos, com uma série de disciplinas de ordem prática, ora no Porto, em Coimbra e em Lisboa. A instrução deve estar ao serviço da educação, a qual é moral, e que servisse para certificar a independência, e mais do que os conteúdos. O que lhe interessava eram os métodos de aprendizagem.




No período da República destaca-se não só a actividade de Bernardino Machado enquanto Ministro dos Negócios Estrangeiros, como igualmente a sua actividade no V Governo Constitucional, do qual esteve á frente. Realizou, ou pretendeu realizar, já que não passou no Senado, a revisão da Lei da Separação, a lei da amnistia, a revisão da lei eleitoral, conseguindo a pacificação social e a participação de Portugal na I Guerra Mundial para a salvaguarda do património colonial. Chefe do Governo em 1921 e destituído por uma revolta militar da GNR e uma vez mais Presidente da República (1925-1926) A sua atitude crítica e de autonomia valeu a Bernardino Machado o facto ter sido vítima do próprio Partido Democrático, o qual só elegia para a Presidência da República quem estivesse filiado no próprio partido. Nestas circunstâncias, quem seria eleito em 1923 seria Teixeira Gomes. Não desistindo da sua faina regeneradora (mais uma vez chefe de mais um governo constitucional em 1921, e destituído por uma revolta militar realizada a cabo pela GNR, e Presidente da República entre 1925 a1926), abdicando, em 1919, da Presidência da República após a sua vinda do 1.º exílio durante o sidonismo em Portugal, mais seareiro do que os próprios seareiros, Bernardino Machado sempre acreditou no self-government, política baseada na instrução onde os actos não são individuais, mas sociais.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

comemorações da república em famalicão 2011



Se no dia 4 de Outubro se realizou a homenagem à primeira vereação republicana de Vila Nova de Famalicão, cuja sessão decorreu na Casa do Senador e primeiro Presidente da Câmara famalicense republicana, na actual Escola Básica n.º 3, de Mões, o dia 5 já foi dedicado, no Museu Bernardino Machado, à apresentação pública do catálogo da exposição "Bernardino Machado e a I República". Apresento fotografias não só do dia 4 (estando presente o Presidente da Câmara de Vila Nova de Famalicão Arq. Armindo Costa, o Vereador da Cultura Dr. Paulo Cunha e o Dr. Sá da Costa, actual responsável pela rede museológica famalicense) como também a mesa da sessão da apresentação do respectivo catálogo, que contou com a presença de alguns descendentes de Bernardino Machado. Igualmente, partilho outras fotografias que representam as casas de alguns dos vereadores homenageados e algumas placas que foram colocadas nas mesmas. Todas estas actividades decorreram no âmbito do programa de encerramento das comemorações do centenário da I República em V. N. de Famalicão, as quais começaram em 2010.







 
No Museu Bernardino Machado
5 de Outubro de 2011
Prof. Dr. Norberto Cunha e o Vereador da Cultura do Município de Vila Nova de Famalicão
Dr. Paulo Cunha


BERNARDINO MACHADO
UM CIDADÃO EXEMPLAR

No âmbito do programa do Encerramento das Comemorações da I República em V. N. de Famalicão, foi apresentado no dia 5 de Outubro de 2011, pelas 16h00, no Museu Bernardino Machado, o catálogo da exposição “Bernardino Machado e a I República”.
O Prof. Dr. Norberto Cunha, coordenador científico do referido Museu, salientou Bernardino Machado como sendo um cidadão exemplar. A política, para Bernardino Machado, era mais um ponto de partida do que um ponto de chegada e tinha uma atitude crítica e construtiva para a edificação da cidadania, a qual passava pela autonomia moral e as livres ideias dos cidadãos.
Por seu turno, o Dr. Paulo Cunha, Vereador da Cultura do Município de V. N. de Famalicão, focou um dos valores essenciais que herdamos da I República, nomeadamente a Democracia e, acrescentou “através de Bernardino Machado, V. N. de Famalicão entrou nas comemorações da implantação da República em Portugal”. Referiu que “Bernardino Machado não foi um simples, nem ocasional presidente da República, nem o foi por qualquer coincidência, legando-nos o seu pensamento e a sua obra.” Mais Acrescentou que “todos nós somos apóstolos de Bernardino Machado, porque quanto mais conheço as suas ideias, me confesso mais próximo e concordante com o que ele queria para o nosso País.” Mais afirmou que este “é um apostolado que tem de passar para lá do próprio Museu Bernardino Machado, para exportar as ideias do patrono, sem propriamente ser uma identificação paroquial, mas pelo facto das suas ideias terem actualidade.”

 


Casa de Domingos Lopes Alves da Silva
Sistães, Brufe



Casa de Nuno Simões
Calendário



Casa de Manuel Pinto de Sousa
Av. Barão de Trovisqueira


Casa dos Machados
Praça D. Maria II





Casa de Amadeu Pereira
Av. Barão de Trovisqueira

Casa de Alfredo Costa
Rua Adriano Pinto Basto



Casa de Rorigo
Calendário
Bernardino Machado

Casa de Sousa Fernandes


Casa de Zeferino Bernardes Pereira
Rua Adriano Pinto Basto / Rua Narciso Ferreira

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Homenagem à primeira vereação republicana. Crianças recordaram Senador Sousa Fernandes - Portal do Município de Vila Nova de Famalicão - Portugal


No âmbito do encerramento das Comemorações da Implantação do Centenário da 1.ª República, se hoje o dia foi para relembrar os membros da primeira vereação republicana da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, com a presença de muitos descendentes, (partilho aqui a notícia do sítio do portal do municíoio famalicense), amanhã será realizada a apresentação pública do catálogo da exposição "Bernardino Machado e a I República", pelas 16h00. A referida exposição, realizada em 2010 pelo Museu Bernardino Machado no âmbito das Comemorações do Centenário da Implantação da República em Portugal, foi constituída por 13 painéis, a saber: i) A liberdade é tudo, ii) Revolta Académica, iii) Regicídio, iv) Contra o franquismo, v) Contra os governos clericais e liberticidas de D. Manuel II, v) Ministro dos Negócios Estrangeiros, vi) Ministro de Portugal no Brasil, vii) Chefe do V Governo Constitucional, viii) Contra a ditadura de Pimenta de Castro, ix) Presidência da República, x) Contra o sidonismo, xi) Chefe do Governo, xii) Contra as ditaduras provisórias, xiii) Presidente da República. Para a divulgação do pensamento de Bernardino Machado, o catálogo da referida exposição com um prefácio do Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão Arq. Armindo Costa e uma introdução do Prof. Dr. Norberto Ferreira da Cunha, coordenador científico do Museu Bernardino Machado. Um fio condutor ao pensamento político de Bernardino Machado é a sua coerência: ele é o inimigo declarado das ditaduras, as quais colocam em causa a plena defesa das liberdades dos cidadãos para a plena cidadania. Conforme Bernardino Machado nos diz no opúsculo de 1901 com o título "pela Liberdade": " Liberdade e sociabilidade são inseparáveis, uma é a condição e a lei suprema da outra. O programa é sobretudo obra de cordialidade, mas é antes de tudo obra de independência, de hombridade. Sem liberdade não há verdadeira sociabilidade. A tirania justapõe; mas recalca, destece, não socializa." Se estas comemorações são de encerramento, por aqui, neste blog, continuarei, como tenho feito, a divulgar o pensamento dos republicanos famalicenses, estando em projecto os anos de 1895 até 1897, falar das comissões republicanas e das suas actividades e como terá sido o primeiro ano da existência republicana em Famalicão até às suas primeiras comemorações, República Ano I em Famalicão.





Homenagem à primeira vereação republicana. Crianças recordaram Senador Sousa Fernandes - Portal do Município de Vila Nova de Famalicão - Portugal

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

os republicanos de 1895 e as eleições municipais em famalicão

A "lei anti-liberal" que Sousa Fernandes se refere diz respeito à lei eleitoral, decretada pelo Governo em 28 de Março de 1895. Esta lei "retirava a representação às minorias, os círculos eleitorais passavam a coincidir com os distritos, a quota censitária era diminuída e os chefes de família deixavam deer direito a voto, automaticamente (o que afastava os eleitores mais pobres, prejudicando, em princípio, sobretudo, os republicanos). Por outras palavras, o Partido Republicano e o Partido Progressista, perante o facto da maioria parlamentar (afecta ao Partido Regenerador), ter suprimido a representação das minorias e as candidaturas de acumulação (identificando os círculos políticos com os distritos administrativos), decidiu não ir ao próximo acto eleitoral, dado que estas alterações, não só penalizavam, fortemente, a sua possível representação parlamentar, como reforçava a representação do partido governamental, ou seja, do Partido regenrador." (Norberto Ferreira da Cunha - "Bernardino Machado: de monárquico liberal a republicano (1882-1907)". In Bernardino Machado - Política I, 2011, p. 42). Daqui que Sousa Fernandes apoie a abstenção no plano nacional, refutando-a ao nível local, já que a acção dos partidos no âmbito nacional é diferente no plano local, cabendo aqui a "idoneidade pessoal de cada" cidadão.



Sousa Fernandes - "Eleições Municpaes". In O Porvir. Vila Nova de Famalicão, Ano 1, n.º 26 (20 Nov. 1895), p. 1.

domingo, 2 de outubro de 2011

bernardino machado discursa em famalicão 1909




A Casa da Vila, na qual Bernardino Machado, segundo ele, iniciou a sua vida política


Em 1909, mais propriamente em 14 de Novembro, Bernardino Machado, na sala do "Centro Republicano" em Vila Nova de Famalicão com o seu nome, uma sala "em prédio contíguo ao Hotel Vilanovense", segundo a notícia do "Estrela do Minho" (e que aqui reproduzo), fazia a sua conferência "Têm Liberdade os Monárquicos em Portugal?" Na mesma altura, seria homenageado Gonçalves Cerejeira, tendo sido o seu elogio realizado por Manuel Monteiro, de Braga. No seu discurso, Bernardino Machado, a dada altura, refere que "já houve em Portugal uma monarquia liberal". E logo de seguida: "Aqui, em Vila Nova de Famalicão, pulsou já fortemente a vida pública. Tínhamos oradores populares. Neste concelho houve um de impressionante eloquência natural, Narciso dos Carvalhais, tio do célebre poeta brasileiro, Casimiro de Abreu. Estou a vê-lo a passar fogosamente à testa dum magote de manifestantes, que soltavam vivas, e Júlio Dinis, que se achava doente, a ares, neste mesmo edifício, onde era então a estalagem da Eugénia, a boa Eugénia, vindo à janela e dando com ele, puxar pela carteira e pelo lápis e pôr-se a desenhar-lhe a figura cortante e o gesto intrépido, marcial. Nesse tempo, os deputados davam conta do seu mandato aos eleitores. Aqui veio repetidamente dar-lhes em recepções e banquetes políticos em casa de meus pais Joaquim Januário de Sousa Torres e Almeida, notável parlamentar, por todos então indigitado para ministro na primeira situação do seu partido, que, duma dessa vezes, fui, dias depois, encontrar no Bom Jesus do Monte a descansar das lides oratórias, lendo a "História da Filosofia em Portugal" do dr. Lopes Praça e a "Poesia do Direito" do dr. Teófilo Braga. Que tempo tão diferente deste de hoje, não é assim?" E mais à frente, Bernardino Machado recorda as vivências políticas na Casa da Vila, hoje pertença do Banco Millenium, exclamando as suas "saudades" que então tem "desse tempo!", acrescentando que foi nela que fez a sua iniciação política "sob os auspícios do nosso querido Torres, de Castelões, que logo prognosticou generosamente que eu havia de ser ministro". (Bernardino Machado - Pela Republica: 1908-1909 - II. Lisboa: Editor-Proprietario, Bernardino Machado, 1910, pp. 695-689). A imagem, de 1907, retirei-a do livro de António Joaquim Pinto da Silva "Imagens, Famalicão Antigo" (1990). A sala do "Centro Republicano Dr. Bernardino Machado" ficaria situado logo no início da Rua de Santo António.




Atingiu extraordinário brilho a festa realizada no domingo passado pelo partido republicano de Famalicão e que, constou da inauguração do retrato do falecido Dr. Gonçalves Cerejeira e da eloquentíssima conferência do eminente professor e prestigioso membro do directório republicano Dr. Bernardino Machado.
Cerca das 3 horas da tarde, a sala do Centro Republicano Bernardino Machado, instalado em prédio contíguo ao Hotel Vilanovense, estava completamente ocupada, por uma numerosa assistência, entre a qual se notava individualidades destacantes do partido republicano.
Do Porto, viam-se, entre outros, os srs.: dr. Ângelo Vaz, A. Araújo Costa, Vitorino Coimbra e Laurindo Mendes; de Braga, estavam os srs. drs. Manuel Monteiro, Joaquim de Oliveira, Justino Cruz, Bento de Pinho e Bento de Oliveira; de Barcelos, o sr. dr. Martins Lima; de Guimarães, o sr. João Veloso e o sr. A. L. de Carvalho; de Esposende, o sr. dr. Fonseca Lima; da Póvoa, o sr. Joaquim Pereira Sampaio. Todos estes cavalheiros representavam comissões municipais ou agremiações republicanas.
Os centros de Vilar do Paraíso e de Valadares fizeram-se representar pelo sr. dr. Florido Toscano, representando o sr. dr. Ângelo Vaz a comissão de Santo Ildefonso e o sr. Laurindo Mendes o Centro Alves da Veiga.
Ao entrar na sala o sr. dr. Bernardino Machado, que vinha acompanhado pelo presidente e outros membros da comissão municipal republicana foi calorosamente saudado com palmas e vivas entusiásticas.
O sr. Sousa Fernandes, subindo ao estrado da presidência, diz que na qualidade de presidente da comissão municipal republicana de Famalicão, lhe cumpria abrir a sessão. Acentua, depois, a importância dos centros democráticos de propaganda e instrução. Organizando naquela vila um desses núcleos, criava-se uma obra cuja utilidade não beneficiava apenas o partido republicano, visto que ele concorria também para a instrução e educação cívica do povo.
Na sessão que acabava de declarar aberta ia inaugurar-se o retrato dum conterrâneo, o dr. Gonçalves Cerejeira, que foi um valioso e dedicado partidário. Para fazer o perfil do delicado poeta morto, a quem tanto interessava a causa do povo, fora convidado o distinto orador sr. dr. Manuel Monteiro digno presidente da comissão republicana de Braga. Ninguém melhor do que o talentoso advogado, que conhecera e estimara o poeta, poderia desenhar-lhe com realce a figura moral.
O sr. Sousa Fernandes, depois de ter para o sr. dr. Manuel Monteiro as mais elogiosas referências, faz um caloroso elogio ao sr. dr. Bernardino Machado, pondo em relevo o desinteresse admirável e a hombridade nobilíssima que distinguem e enobrecem todos os seus actos de homem público.
O sr. Sousa Fernandes faz depois a apologia do credo republicano e afirma a necessidade de instruir e de educar o povo, pelo jornal, pelo livro e pela conferência. Turgot disse que a ignorância perpetua o despotismo e o despotismo perpetua a ignorância; parafraseando pode dizer se que a monarquia perpetua a falta de instrução para que a falta de instrução perpetue a monarquia.
Aponta em seguida o desinteresse dos que trabalham na propaganda republicana; e depois de tecer os mais altos elogios ao sr. dr. Bernardino Machado, remata erguendo ao ilustre democrata um viva que foi entusiasticamente correspondido.
O sr. Sousa Fernandes convida depois para presidir à sessão o sr. Florido Toscano, que saudado calorosamente, toma a presidência com palavras de agradecimento e nomeia secretários os srs. drs. Martins Lima e Fonseca Lima.
Seguidamente, o sr. presidente dá a palavra ao sr. dr. Manuel Monteiro, que é longamente saudado pela assembleia.
O talentoso advogado bracarense principia por agradecer as palavras que o sr. Sousa Fernandes lhe dirigiu e exprime depois em termos calorosos, o respeito, a admiração e a elevada estima que lhe merece o sr. dr. Bernardino Machado.
Passa depois a falar de Gonçalves Cerejeira, que conheceu estudante em Coimbra.
O sr. dr. Manuel Monteiro, que é um orador brilhante, de palavra fácil, de expressão simples, mas elegante e colorida, conta o que foi a vida curta do poeta.
O sr. dr. Manuel Monteiro, que pronunciou um magnífico discurso, foi entusiástica e longamente aplaudido.
Tomou depois a palavra o sr. dr. Bernardino Machado que recebeu, ao subir para o estrado, uma comovente vibração de brilhante entusiasmo.
O ilustre democrata depois de agradecer as palavras que lhe tinham dedicado os srs. Sousa Fernandes e dr. Manuel Monteiro, deu princípio à sua conferência subordinada ao tema: «Têm Liberdade os Monárquicos em Portugal?»
Durante mais de uma hora o eminente professor desenvolveu, com raro poder de clareza e de lógica, o assunto difícil da sua conferência que, sendo longa, não pode ter nas colunas do nosso pequeno jornal, a desenvolvida referência que de todo o ponto merecia.
O sr. dr. Bernardino Machado dizendo que hoje nós somos uma nação de vencidos, pergunta quem é livre e governa em Portugal. Os republicanos de certo que não, porque lhe são negadas todas as regalias, todos os direitos, todas as liberdades. Mas se os republicanos são esbulhados dos seus direitos, os monárquicos também não governam, porque ninguém faz caso deles. Os partidos monárquicos não são associações liberais; os chefes ordenam soberanamente e os correligionários obedecem submissamente. E nem os seus chefes são livres, porque estão vinculados ao paço. Entre o partido e o paço, optariam pelo paço, como disse, sem rebuço, o sr. Wenceslau de Lima.
O próprio poder legislativo vive na sujeição. Os pares e os deputados, uns e outros de nomeação ministerial, dependem inteiramente dos ministros.
Mas, ao menos, a magistratura judicial monárquica, será independente? Ninguém esqueceu o decreto ditatorial a que a sujeitou João Franco, nem a transferência para as ilhas que ele infligiu de castigo a um nobilíssimo juiz de direito; e a cada passo, salvo honrosas excepções, aí testemunham a sua subserviência tanto o tribunal de Verificação de Poderes, como os tribunais ordinários nos processos de recenseamento eleitoral. Até na magistratura um acto de independência é um acto de insurreição.
Nem economicamente nem religiosamente os monárquicos governam com liberdade: «Não – exclama o ilustre orador –, não são os monárquicos independentes que governam o Portugal monárquico de agora.
São as clientelas que nos tiram as liberdades políticas operando a reacção rotativa; são os sindicatos que nos tiram as liberdades económicas, operando a reacção franquista; são as congregações que nos tiram as liberdades religiosas, operando a reacção clerical. E aqui está sem agravo para nenhum dos seus membros honrados, colhidos nas suas malhas, o que são e para que servem os actuais partidos governamentais: para tirar a independência a todos, incluímos os monárquicos.»
Demonstra, depois, como a reacção clerical domina a situação política e afirma que a monarquia não pode viver com a liberdade.
Aponta os perigos do clericalismo e diz: «Há em Portugal um povo independente; tem o já demonstrado eloquentemente os republicanos, convocando-o, reunindo-o. Contém com ele os liberais e desempenhem a sua missão histórica.»
Remata depois a conferência falando de Famalicão, dos tempos de mocidade que ali passou, das figuras destacantes na política liberal desse tempo.
Ao terminar o seu notável discurso, o sr. dr. Bernardino Machado foi aplaudido com um extraordinário ardor de entusiasmo sendo muito cumprimentado e abraçado pelos seus amigos.
O sr. presidente levantou a sessão em meio de vivas calorosos.

Às seis horas da tarde, foi oferecido pelos republicanos de Famalicão, no Hotel Vilanovense, um banquete ao sr. dr. Bernardino Machado. Tomaram parte nele 51 convivas presidindo o sr. Sousa Fernandes, que tinha à direita os sr. drs. Bernardino Machado, Manuel Monteiro e Joaquim de Oliveira, e à esquerda os srs. drs. Florido Toscano, Martins Lima e Fonseca Lima.
O banquete que foi primorosamente servido, decorreu na maior cordialidade. Ao champagne iniciou a série dos brindes o sr. Sousa Fernandes que saudou o sr. dr. Bernardino Machado. Seguiram-se-lhe os srs. dr. Florido Toscano e Martins Lima, que beberam à saúde dos srs. drs. Bernardino Machado e Sousa Fernandes e dr. Manuel Monteiro; Sousa Fernandes que brindou aos srs. Florido Toscano, Martins Lima, Fonseca Lima, Manuel Monteiro, Ângelo Vaz e Vitorino Coimbra; Joaquim Faria, presidente da juventude republicana de Braga, aos republicanos de Famalicão e ao sr. dr. Bernardino Machado. O ilustre democrata agradeceu num belo discurso, as saudações que lhe foram feitas, brindando aos republicanos de Famalicão. Seguiram-se depois o sr. dr. Joaquim de Oliveira, que falou brilhantemente, e o sr. Vitorino Coimbra, que prendeu num interessante discurso, a atenção dos convivas.
Depois, trocaram-se ainda muitas saudações e o banquete terminou às 10 horas e meia da noite, deixando a festa as melhores impressões em quantos a presenciaram.
A convite da comissão municipal republicana de Famalicão, foram assistir à conferência e tomar parte no banquete, redactores do «Norte», da «Pátria», do «Primeiro de Janeiro» e da «Verdade».

“Conferencia Democratica”. In Estrela do Minho. V. N. de Famalicão, Ano 15, n.º 742 (21 Nov. 1909), p. 2.

sábado, 1 de outubro de 2011

madame bovary

indica-nos o "diário de notícias", na rúbrica "efemérides", que surgiu hoje, mais precisamente em 1856, na "Revue de Paris", a primeira edição de "Madame Bovary" de Flaubert. Charles e Ema são Flaubert, inquestionavelmente. Flaubert ao ter dito que madame bovary é ele, foi apenas uma manobra de diversão que fez decorrer muita escrita até hoje. Não só criou o romance moderno, como criou o marketing literário. Mas Flaubert é Flaubert!